sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Posso?

Sempre que alugo casa para férias, seja onde for, há qualquer coisa de fascinante, aventureiro e desconfortável naquele ato de entrar pela porta da casa de alguém que muitas vezes não conhecemos e lá passar alguns dias. Apetece dizer "Posso?" várias vezes.

Uma das coisas que mais gosto nestes dias é imaginar quem são as pessoas que ali vivem ou viveram ou passam férias...

Apesar de baixar todas as molduras para evitar que os pequenos deixem cair, é curioso ver as fotos de família... Serão filhos, sobrinhos, avós ou tios? Costumam vir cá? Há crianças? Quantas e a que brincaram?

... Gosto de ver as pegas velhas e os púcaros antigos onde imagino um café Brasa a ser feito para acompanhar um bolo que saiu daquele forno que já não funciona bem. Que cheirinho!

... E devem comer pouca sopa porque há muito mais facas e garfos que colheres... Se calhar pertencem ali vários adolescentes que odeiam legumes.

Às vezes há damas, livros velhos, bacias antigas na casa de banho que deviam ser dos avós velhinhos que são muito respeitados porque há coisas deles por todo o lado... e estimadas!

Lá fora já deve ter havido muito pão feito em forno de lenha, o cabrito ou o borrego e ainda jogos de futebol, passeios de bicicleta e certamente conversas e risos nos luares quentes do verão...

"Posso mesmo dormir na vossa cama?" "Posso usar o gengibre ou o piri piri? É só um bocadinho!"
"Posso ficar a olhar para este quadro com uma criança meiga a brincar e imaginar que foi uma tia que o pintou há muitos anos e que a mesma criança é hoje a avó que bordou esta toalha de mesa de linho que não quis usar para não sujar...?!"
"Posso deixar a minha filha sentar na cadeirinha de madeira linda do tamanho dela que já deve ter ouvido tantas histórias de aventuras passadas no alto da serra?"

No fim, tento limpar com carinho as coisas que foram nossas por uns dias, de deixar o copo que partimos porque ríamos à mesa e um braço mais atrevido se encostou a ele, deixando sempre um "Obrigado por tudo".

Acho especiais estes gestos de partilha e confiança...

Apetece depois, no fim de tudo o que vivemos dentro e fora daquela casa de todos, dizer: "Posso convidar-vos para passarem uns dias na nossa casa? Seria um prazer!"







quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

As Gavetas da Felicidade!

Um dos assuntos que me deixam empolgada e que adoro debater é a felicidade.

Várias ideias vivem em mim agitadas sobre o que significa ser feliz e quais os fatores que, na minha opinião, nos levam a este estado "obrigatório" nesta breve vida na terra...

Parece-me muitas vezes que a ideia mais comum associa felicidade a uma gaveta que arruma tudo direitinho, pondo lado a lado:
- um país desenvolvido onde tenho acesso a cultura, saúde e educação
- estabilidade emocional e familiar
- organização e harmonia
- dinheiro e um curso superior
- valores e um pensamento mais inclinado para o racional

Até aqui, esta parece uma gaveta perfeita e lógica. Aqui encaixaria aquela pessoa que chega ao fim do dia a casa, deixou secretária impecável no trabalho, tem tudo planeado e previsto em casa, jantar guardado em caixas com etiquetas dizendo o dia a que correspondem, tudo tem sítio, ordem e a felicidade existe!

Pois eu gostava de desarrumar um pouco esta pessoa e esta gaveta e acrescentar algumas peças que fazem da vida, a meu ver, uma gaveta ainda mais feliz e completa:

- desafios e obstáculos com desfecho que nos cabe a nós resolver
- gargalhadas, música e comida picante feita sem receita
- enganos no caminho para o trabalho, férias sem destino e jantares com amigos marcados de um dia para o outro
- terra rica em alimentos, com árvores que possam ser trepadas
- esplanadas com sol, liberdade e chinelos com areia
- valores e pensamento mais inclinado para o emotivo.

Agora sim, uma gaveta maior, colorida que, não estando arrumada por cores, está com um ar confortável e muito feliz!

Se olhar o mundo com distância, consigo encaixar o Norte "desenvolvido", frio e civilizado na gaveta 1 e o Sul quente e que fala alto, na gaveta 2. Claro que não escolheria uma só gaveta, não é de fundamentalismo nem de utopias que escrevo. Escolho uma gaveta 1+2. :)

Sublinho apenas que a vida é bem boa quando não é uma estrada em linha reta, mas um caminho que inclui curvas, paragens e imprevistos.

Pegava na mão do senhor das etiquetas e desafiava-o a descobrir ruas novas sem querer, levantar o olhar para ver o topo do seu prédio, vestir as calças de ganga por cima das do pijama, subir para cima da mesa da sala para a ver noutra perspectiva e experimentar sempre iogurtes novos!

Adoro e sigo como exemplo o desenvolvimento dos países nórdicos mas é no desenvolvimento humano e artístico dos países menos ricos que me inspiro para arrumar as minhas gavetas.

SEJAMOS FELIZES!

(nota para quem me lê até ao fim: parece que podemos ter algum livro editado em breve <3 FELIZ!)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Mão de Mãe

(texto de outubro de 2014: Lucas 4 anos, Inês 1 mês)


"Como conduzi eu na ida, agora sentei-me eu atrás. Está a anoitecer e depois de um dia de emoções e encontros, regresso a casa cansada, com sono mas feliz...
Estou sentada no meio deles e procuro ter cada uma das minhas mãos em cima das mãozinhas deles. É tão recente o facto de sermos 4, que a minha preocupação com a segurança deles é muito maior do que aquilo que as minhas mãos conseguem proteger nesta viagem de apenas 1 hora.

De um lado o Lucas, que apesar de crescido, me parece um frágil bebé que precisa de cada milímetro da minha mão para o proteger, acariciar e agarrar, para que nada nem ninguém lhe faça mal, como eu acho que tenho feito nas últimas semanas, por ter voltado inevitavelmente a minha atenção para o novo membro da familía, a Inês, que a minha mão direita não consegue, mas queria agora envolver.

Sensível e nervosa, duas características que explodiram em mim depois de ser Mãe, agora de dois filhos.

Sofre-se e ama-se em doses iguais e as minhas mãos queriam ser grandes, gigantes, como o meu coração passou a ser desde que o meu mundo parou nos minutos em que vocês nasceram.

Estamos quase a chegar e só consigo estar tranquila porque a vossa expressão de tranquilidade a dormir me faz crer que as minhas mãos podem não ser grandes, mas já são mãos de Mãe. Amo-vos e só vos quero bem."