quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Às vezes birra, muitas vezes sono...

Podia ser uma conversa real, mas não é. Podia ser uma carta, mas ele não sabe escrever.

Apenas a imaginei e escrevi porque me parece muito possível que assim seja, e também para me lembrar que são pequeninos os nossos filhos, e muitas vezes nos esquecemos disso.

"Mãe… sabes uma coisa que eu queria dizer-te? Tenho saudades de dormir a sesta…Os dias sem dormir a sesta são muito grandes, mãe!

Na escola antiga dormíamos todos, mesmo os dos 5 anos... Sabias? Agora, quando saio da escola nova e estou no carro com vocês, já tenho tanto sono!
Sabes porque é que não durmo logo? Porque ainda quero estar contigo e com o pai, aquele bocadinho, depois do jantar... Senão, eu dormia logo e tu levavas-me ao colo, não levavas mãe?!

Sabes mãe, quando estou a jantar e não quero comer, nem estar sentado!? É porque estou mesmo cheio de sono e já quero ir para a cama... Mas não quero, ao mesmo tempo, porque estamos ali juntos...

Tu à noite também estás cansada, que eu sei… Falas mais alto e dizes muitas, muitas vezes “cuidado com a mana”, “senta-te”, “pega no garfo e na faca”…. Trabalhas e tens um dia muito grande, como o meu, não é? Eu agora sei, porque eu também não durmo, e sou crescido…

Sabes, na escola nós fazemos muitas coisas e eu corro muito e jogo à bola… Tu corres?

Tenho muito sono e tenho saudades de dormir a sesta, mas não deixam, na escola nova, porque tenho 5 anos e já sou crescido. Mas eu dormia um bocadinho depois do almoço, se me deixassem... mas não deixam que eu já perguntei…

E no fim-de-semana, quando tu dizes que eu devia aproveitar para dormir para depois poder estar acordado até mais tarde, quando vão lá jantar os primos? Eu quero aproveitar para brincar e estar com a mana, percebes mãe? Nos outros dias, não estou tanto tempo...

Era isto que queria dizer-te, para tu saberes que não faço mais birras agora nem estou mais chato, só porque estou na "pré" ou porque tenho uma mana. É que eu tenho sono, mãe...”

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um sofá, algures no espaço

Numa noite destas, depois da agitação normal de um dia de trabalho e de mãe, sentei-me no sofá. Nesse dia, estava sem cara-metade e como estava tão cansada, nem a televisão, nem o telemóvel consegui ligar. Luzes e som não eram compatíveis comigo. Fiz então uma coisa que não fazia há muito tempo. Ficar em silêncio, deitada no sofá a olhar à volta. Que fácil e que difícil!

A propósito disto, penso num novo cantinho que devia existir no nosso mundo. Um sítio sem fichas de eletricidade, sem aparelhos eletrónicos, brinquedos, ruídos, comida, papéis e interrupções... Não podia, por isso, ser no carro, no ginásio, na rua, nem na casa de banho lá de casa.

Teria que ser algures no espaço, para lá do céu que vemos, para podermos estar no meio da escuridão e do vazio, e longe.
Tinha que ter um sofá, porque era justo que fosse confortável.
Lá, só nós, emoções, palavras e pensamentos, silêncio e tempo. Sozinhos ou não.

No início, acredito que custasse ir para lá, ... "olho para onde?", acho que seria logo atropelada com o ciclo ... "amanhã tenho que pagar a escola, ir ao correio, comprar detergente, é melhor ir pôr mais uma camisola na mochila porque deve estar frio...".

Bom, tinha que tentar fazer "delete" destes pensamentos e pensar em “nada”. Sem filhos, Spotify, televisão, jogos de telemóvel, livros, passatempos, talões da carteira e marido, o que sobra? Parece que nada, mas antes de tudo isto existir, penso que já existia eu.

Queria começar por "pensar em mesmo nada" e depois cantar uma música que já não ouço há anos, ou lembrar momentos da infância, da adolescência, qualquer coisa desacelerada e que não me trouxesse tarefas para fazer a seguir. Não sei se conseguia às primeiras... Aliás, não sei se aguentava estar 10 minutos neste espaço, sem adormecer...

Às vezes, levava o piolho mais velho, sentava-o ao meu colo e tinha aquelas conversas que já não consigo ter tantas vezes, quando o deito, pois temos a nossa bebé no berço e não a queremos acordar. Aqueles bocadinhos em que ele chama (depois de pedir água, ir à casa-de-banho) e diz “Sabes mãe… queria dizer-te uma coisa”, e não sabe o quê, mas quer-me ali.
No sofá do espaço, podíamos falar sobre os assuntos dos “5 anos”, ou seja, futebol, escola e as bizarrias maravilhosas que ele inventa e que eu adoro seguir. Podíamos falar alto, rir, fazer disparates, sem interrupções.
E, no entretanto, eu dava beijinhos sem ele dar conta e festinhas naquelas bochechas tão fofas de rapaz pequenino.

A fofa mais pequenina, levava quando estivesse a dormir, para apertar, dar todas as festinhas que quero e olhar para ela. Só isso.

E já agora, só pedia mais duas coisas.

Que existisse algures, perto do sofá, uma prateleira com tudo o que perdemos nos últimos anos... tipo ganchos, elásticos, meias, brincos, tampas de tupperware, cartas e cromos infantis, descascadores de legumes... Só para resolver esta inquietação.

E outra, a última, era poder deixar um recado para, caso adormecesse no sofá do espaço, orientassem tudo e me deixassem ficar lá 3 dias, sem abrir os olhos.

Era isto. Vou voltar à minha vida feliz e normal.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Não é só cor-de-rosa

E se o tempo parasse e eu pudesse ficar só a olhar para ti...

Se eu pudesse ficar muito tempo a passar a minha mão na tua cabeça, a sentir os teus cabelos bebés, quando posas a cabeça no sofá, a fingir que fazes ó-ó. És tão doce.

Queria estar menos cansada, quando à noite só queres colo e, por isso, choras muito e alto, e eu, em vez de me sentar no chão do teu quarto e ficarmos as duas às escuras abraçadas a trocar mimos, canso-me do choro e tenho pressa para fazer coisas e mais coisas para depois me poder sentar, porque com tantas coisas que tenho na cabeça é isso que considero prioritário…

Se, em vez de correr para chegar cedo à escola do mano, cedo à tua escola, cedo ao trabalho do pai e cedo ao meu trabalho, eu pudesse esquecer todos e tudo à minha volta e ficar contigo em casa, ao colo, de pijama, as duas despenteadas só a olhar a janela, e eu a ver-te a encolher o ombro e a apontares para todo o lado, com o teu dedo tão pequenino…

Fiquei eu de te apresentar e dar ao mundo e parece que não tenho tempo.

Pudesse eu escrever estas palavras sem sentir uma enorme culpa e sem que as lágrimas me escorram pela cara.

Eu sei bem que tu e o mano são o mais importante, que posso parar se quiser, que tudo o resto é relativo, que posso deixar por fazer o que não é importante, sei perfeitamente que o que quero é estar mais perto de vocês.

Mas quando escolho ficar com vocês e ponho de lado outras responsabilidades, deixo coisas por tratar, arrumar e paro porque vos prefiro... não consigo só brincar, só permitir, só estar… ralho, corro, estico os vários braços para apanhar coisas do chão, ao mesmo tempo que digo “sim, estou a ver”, e ainda arrumo loiça, arrumo casacos, lavo a chucha e encho um balão para vocês. Poucas vezes há silêncio, tempo, nada, ninguém e só vocês.

E neste nosso mundo, tu és a segunda, já encaixaste no meio de outros livros que havia na prateleira, já não tens tanto espaço para te mostrares e para nos chamares. Sinto que não te consigo puxar para mim, tanto quanto queria. Felizmente o amor multiplica-se facilmente e não implica tempo nem espaço para existir para ti. Ele é igual e muito.

Para enxugar as lágrimas, penso que também sou a segunda e o Pai também. E que afinal, a verdade é que mesmo com o mano também chorava, porque fazia metade do que queria… 
Sem lágrimas, resta-me prometer que vou (estou a) tentar estar mais tempo ao pé de ti e do mano, só para vocês. 

Mãe é muita coisa. E Mãe não são só boas coisas. Mãe tenta e quer muito, mas faz metade do que gostaria, sempre… se calhar é isto.