segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um sofá, algures no espaço

Numa noite destas, depois da agitação normal de um dia de trabalho e de mãe, sentei-me no sofá. Nesse dia, estava sem cara-metade e como estava tão cansada, nem a televisão, nem o telemóvel consegui ligar. Luzes e som não eram compatíveis comigo. Fiz então uma coisa que não fazia há muito tempo. Ficar em silêncio, deitada no sofá a olhar à volta. Que fácil e que difícil!

A propósito disto, penso num novo cantinho que devia existir no nosso mundo. Um sítio sem fichas de eletricidade, sem aparelhos eletrónicos, brinquedos, ruídos, comida, papéis e interrupções... Não podia, por isso, ser no carro, no ginásio, na rua, nem na casa de banho lá de casa.

Teria que ser algures no espaço, para lá do céu que vemos, para podermos estar no meio da escuridão e do vazio, e longe.
Tinha que ter um sofá, porque era justo que fosse confortável.
Lá, só nós, emoções, palavras e pensamentos, silêncio e tempo. Sozinhos ou não.

No início, acredito que custasse ir para lá, ... "olho para onde?", acho que seria logo atropelada com o ciclo ... "amanhã tenho que pagar a escola, ir ao correio, comprar detergente, é melhor ir pôr mais uma camisola na mochila porque deve estar frio...".

Bom, tinha que tentar fazer "delete" destes pensamentos e pensar em “nada”. Sem filhos, Spotify, televisão, jogos de telemóvel, livros, passatempos, talões da carteira e marido, o que sobra? Parece que nada, mas antes de tudo isto existir, penso que já existia eu.

Queria começar por "pensar em mesmo nada" e depois cantar uma música que já não ouço há anos, ou lembrar momentos da infância, da adolescência, qualquer coisa desacelerada e que não me trouxesse tarefas para fazer a seguir. Não sei se conseguia às primeiras... Aliás, não sei se aguentava estar 10 minutos neste espaço, sem adormecer...

Às vezes, levava o piolho mais velho, sentava-o ao meu colo e tinha aquelas conversas que já não consigo ter tantas vezes, quando o deito, pois temos a nossa bebé no berço e não a queremos acordar. Aqueles bocadinhos em que ele chama (depois de pedir água, ir à casa-de-banho) e diz “Sabes mãe… queria dizer-te uma coisa”, e não sabe o quê, mas quer-me ali.
No sofá do espaço, podíamos falar sobre os assuntos dos “5 anos”, ou seja, futebol, escola e as bizarrias maravilhosas que ele inventa e que eu adoro seguir. Podíamos falar alto, rir, fazer disparates, sem interrupções.
E, no entretanto, eu dava beijinhos sem ele dar conta e festinhas naquelas bochechas tão fofas de rapaz pequenino.

A fofa mais pequenina, levava quando estivesse a dormir, para apertar, dar todas as festinhas que quero e olhar para ela. Só isso.

E já agora, só pedia mais duas coisas.

Que existisse algures, perto do sofá, uma prateleira com tudo o que perdemos nos últimos anos... tipo ganchos, elásticos, meias, brincos, tampas de tupperware, cartas e cromos infantis, descascadores de legumes... Só para resolver esta inquietação.

E outra, a última, era poder deixar um recado para, caso adormecesse no sofá do espaço, orientassem tudo e me deixassem ficar lá 3 dias, sem abrir os olhos.

Era isto. Vou voltar à minha vida feliz e normal.

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