domingo, 31 de janeiro de 2021

Procura-se "Felicidade das pequenas coisas"

Os nossos dias encheram-se de "não podes", "não faças", "não deves"... Entrámos numa bolha de doentes e mortes, de medo, de falta de esperança, de sofrimento verdadeiro.

No outro dia reuni com um colega de Moçambique que me falou de como vivem os deslocados no norte, meio milhão de pessoas que fugiram da violência. E eu, no meio do sofrimento que só aumentou, senti borboletas a aproximarem-se, a puxarem os meus lábios para cima e a dizerem-me "sorri, há mil coisas que ainda podes fazer, há mil motivos para estares feliz"...

Estamos tão virados para esta vida difícil que esquecemos as coisas boas destes dias que custam a passar. Faço este exercício para mim mesma, porque há dias que só vejo as coisas más e parece que estou num buraco escuro...

15 coisas que ainda podemos fazer e que, apesar de tudo, nos devem deixar felizes:

... acordar de manhã e ouvir os pijamas mais pequenos e coloridos de casa a aproximarem-se com olhos preguiçosos em busca de brincadeira e beijinhos que, aqui, podemos dar...

... ouvir música daquela que, do nada, nos enche de paz, que faz bater o pé, ter vontade de levantar e dançar, como se tudo estivesse bem...

... fazer um bolo com carinho, lembrar os melhores bolos que já comemos, regressar à infância, com entrada gratuita, lamber a colher, deixar o forno aberto para o cheiro a bolo quente se espalhar pela casa repleta de desinfetante e máscaras anti-COVID...

... ver fotos das nossas férias de verão de outros anos, da gravidez, dos nossos bebés, ouvir nos vídeos a voz deles, aquelas gargalhadas mágicas, ver a nossa liberdade e felicidade que estão lá ao fundo à nossa espera...

... ver filmes no sofá com os nossos filhos encostados a nós, aproveitar para dar festinhas nos seus cabelos, dar-lhes a mão, comparar o seu tamanho com o nosso e ver como cresceram nestes meses que tanto lhes ensinaram... 

... fazer uma chamada de vídeo com as amigas do coração (temos feito) e ficar até de madrugada a conversar e a rir e a ralhar e a desabafar com quem nos pertence...

... fazer um almoço de família via Zoom onde possamos conversar com os nossos, ver como estão, ouvi-los, ter conversas banais e tentar, algures, rir...

... remodelar uma divisão da casa... pintar uma parede, mudar a cama de sítio, pensar numa varanda mais bonita e no fim, sentir o bom que é termos a nossa casa.

... procurar um curso online de qualquer coisa que sempre gostámos e NUNCA demos atenção nem ligámos... meditação, canto, culinária, desenho, massagens, maquilhagem, agricultura ... 

... escrever tudo o que nos irrita, zangarmo-nos com uma caneta e escrever sem filtros, chorar, com a certeza de que no fim estamos mais leves... 

... procurar aulas de dança, yoga ou outra atividade física na net. Aulas que nos motivem e consigamos fazer às vezes porque bem sabemos que apesar da falta de vontade, só nos fazem bem!

... escolher 3 fotos que adoramos... de pessoas, lugares, recordações, emoldurar e colocar na nossa sala... ou até mesmo os desenhos dos nossos filhos, aqueles especiais que nos surpreendem. Há sempre ideias giras na net para fazer molduras em casa...

... aproveitar uns minutos livres para arranjar aquela caixa que se partiu e estava de lado à espera dos dias em que houvesse tempo... mudar os botões de uma camisola que já cansava, organizar os brincos e encontrar 5 pares que já não nos lembrávamos que estavam lá...

... um animal de estimação que estamos sempre a adiar!? Porquinho da Índia, pássaro, peixe, adotar um gato ou um cão, diria que trazem melhores dias...

... procurar viagens na net para o fim do ano, ver destinos, fazer planos, imaginar como será, lista para as malas, só para ficar nas notas, na esperança de se concretizar...

Enfim, muita força e algumas borboletas para vos ajudarem a recuperar sorrisos que terão guardados, nestes dias tão difíceis.



sábado, 23 de janeiro de 2021

"O que é que vamos fazer hoje?"

Em resposta à pergunta mais feita pelos meus filhos nesta fase especial, e suponho que pelos vossos, preparei uma resposta...

"Hoje vamos acordar, 

Ficar na cama a preparar

O bom humor para fazer

Confinamento como deve ser...


Logo depois vamos tomar

O pequeno-almoço devagar

E procurar dentro do café

O bom humor...hmm... cadé?


Sorriso bem amarelo

Todo o dia de chinelos

Reuniões com diretores

Na sala, com cobertores


Pausa para "façam a cama"

Pausa para "tirem o pijama" 

Pausa para "não desarrumem isso"

Pausa para "desliguem o ecrã, já disse"


Pausa para descongelar mais pão

Pausa para "tirem a roupa do chão"

Pausa para preparar a comida

Pausa para "senta-te direita, querida!"


Cálculos em excel com gráficos

Entre Legos, Pinypons e saltos

Relatórios de avaliação

Com "Oh mãe, quero um cão!!!"


E depois de mil tentativas

Começam novas brigas

Saltos na cama arrumada

Um sofá que vira cabana, do nada...


O sol vai-se embora sem avisar

E eu com trabalho por acabar

"São horas de tomar um banho!"

Aproveito para trabalhar...


"Oh mããããe, a toalha!!!!!!!"

Preparamos o jantar 

Comemos e arrumamos tudo

"Podemos ir todos brincar???"


"Lavar os dentes, fazer chichi"

Escolher uma história que ainda não li

Cantar, com o pai, a música de embalar

Beijinhos... uffff, vamos descansar!!!!!!


Um dia já está arrumado

E nós com aquele ar cansado...

De quem enfrenta mil crises

Desejando que no fim disto tudo

Sejamos igualmente felizes...."


Será que serve de resposta?!! Força pais e mães! Há-de valer a pena.





segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sobre montanhas, birras e monstros

Sou só eu que sinto que estamos no meio de um furacão de energia negativa e problemas?!

Vou arriscar-me a usar este cantinho e tentar compor uns pensamentos positivos, nestes dias tão tensos.

Tenho lido muitas coisas más nestes dias, há tensão por todo o lado, não me lembro de tanta, antes.

Dou por mim meio apática, sem energia nem esperança nem nada...

O que me acalma e me faz recuperar o foco, são as palavras calmas e de união que leio. Só essas.

A COVID já estava sozinha a fazer o estardalhaço necessário. O desemprego, as discórdias numa fase em que todas as decisões são incómodas e difíceis. A falta de liberdade, o cansaço, o receio, também já estavam a conseguir tornar este monte de problemas numa montanha que já fazia demasiada sombra sobre nós.

Agora a política. As ameaças, o pó que sai debaixo do tapete (mas que estava lá) veio para todos termos reações diferentes. Eu, alergia. Uns a gostar, muitos a temer. Assustador, mas sobretudo porque nos está a colocar uns contra os outros de uma forma ainda mais acentuada, pelo estado emocional em que estamos. 

Uns mal, outros bem pior. Ninguém bem. A montanha virou serra. 

Tal como foram palavras agressivas e carregadas de raiva e ódio que li, que me fizeram sentir receio, bloqueio e tensão, também foram palavras, as de apelo, de orientação, de foco, que me ajudaram a respirar e voltar a ter esperança e a saber retomar o caminho. O nosso poder e o poder das palavras, para nos unir e para nos separar.

Foi com estas palavras que me enxerguei que tenho que me focar mais no todo, e menos no eu. Quando erro, penso mal. Mas não foi com as palavras agressivas, acusadoras, que nos dividem, que quis fazer mais e melhor. Até porque quanto mais repetimos as de agressividade, raiva e ódio, mais elas ganham força, creio eu, o que não conduz a lado nenhum. 

Foi com a chamada à razão e ao coletivo, que tanto defendo. Só por isso escrevo. 

Estamos todos mal, sabemos que uns bem piores que os outros, mas podemos ficar ainda pior. 

Sobre a COVID, os números, o segundo lugar no mundo, os hospitais esgotados, médicos a chorar... pensemos que estamos no fim do caminho deste pesadelo. Um pesadelo dos verdadeiros, daqueles em que estamos acordados. Estamos quase a chegar ao fim deste. E não pode ser agora que corre pior. 

É um esforço (mais um) ......... é horrível, já não há energia, mas é em cada um de nós que está o fim disto. O fim desta história escrevemos nós. Quase todos. 

Sabemos que uns nem querem saber nem fazer parte. Será sempre assim. E muitos têm vidas que não imaginamos e que levam a essa "não pertença" a nada... Não é bom para nenhum lado.

Mas os que acreditam e sentem algum poder para agir, que o façam, por todos, e o façam sabendo que somos muitos, mesmo assim. 

No final é uma luta à séria contra um bicho que se tornou um monstro e teima em crescer na nossa direção. Ele está quase a cair, já sabemos como o derrubar. Não deixemos que, agora que ele está já quase no chão, ainda a mexer muito, nos ganhe. 

Sabem aquelas birras gigantes que os nossos filhos fazem que nos tiram do sério, naqueles dias em que estamos tão cansados e em baixo, a razão já não fala e sabemos que o motivo é só sono?! 

Sinto que estamos naquele momento em que o nosso corpo não aguenta ouvir o longo choro, nem conseguimos ver o fim àquilo... E tantas vezes que isto nos acontece e não sabemos o que fazer...

Quer dizer, no fundo sabemos que é só preciso aguentar, deixá-los despejar o sofrimento, contarmos até 50, contrariar o nosso sofrimento e frustração por não conseguirmos travar o problema. Sabemos que, se aguentarmos, ele adormece e passa. Se reagirmos ele vai chorar muito mais e não se resolve nada. 

Acho que este aguentar, neste filme covidiano, é ficar em casa. Deixar chorar, é respeitar que o problema existe e devemos só manter a calma, quietos a pensar em todos, para ele passar. No fim, se todos aguentarmos, ele cai e adormece e amanhã está tudo bem. Se fosse a primeira birra não sabíamos o seu fim. Mas de birras foram feitos os últimos meses e já sabemos como as controlar. Infelizmente.

Sobre as opiniões, temos que as dar. Mas mais que tudo, temos que agir, a meu ver, votando. E dizer alto aquilo em que acreditamos, não aquilo que combatemos. Repetir as palavras certas e não as erradas, fazer ecoar o que para nós, está certo. Lembrar que face ao desagrado e revolta, as opções são muitas. Há alternativas suficientes para manifestarmos opiniões diferentes, até votando em branco.

Acredito que, apesar das nossas falhas, fraquezas, (tantas) angústias e medos, somos capazes de lidar com birras, montanhas e monstros. E, no fim, quando tudo passar, podermos olhar para traz e ficarmos bem com o que conseguimos e decidimos fazer, juntos.