terça-feira, 18 de agosto de 2020

NÓS

 "Quando joguei há muitos anos um jogo que me disse que eras a minha alma gémea... pareceu parvo, mas a parvoíce ainda não parou...." É assim que começa o nosso blog, onde escrevemos há 12 anos sobre nós.

Mas não foi assim que começaram os nós. Conhecemo-nos na "terra", como ele chama ao lugar das nossas mães. Foi nas festas de verão, em adolescentes, quando os meus olhos não eram dele mas os dele registaram o meu primeiro olhar.

Passaram anos e uma boa amizade que incluía os irmãos de ambos e diversão pura. Uma rapariga extrovertida (afinal tímida) e aventureira, e um rapaz tímido (afinal extrovertido) e aventureiro que se divertiam numa terra só.

Num ano de mudanças a vida aproximou-nos e como sempre a brincadeira levou-nos a fazer um jogo que nos disse a ambos que éramos almas gémeas. Parvo, mas curioso.

... Convidaste-me para irmos a um concerto em Lisboa. E nessa noite, deste-me a mão e nunca mais saí das tuas mãos, lindas. Foi perfeito, tudo, por isso foi tudo tão rápido: casa, carro, filhos. Namorámos pouco a dois, sabemos disso, namorados aos 30 dá nisto. Devíamos ter aproveitado mais sermos só um, neste caso...

Ter filhos foi e é mágico, maravilhoso mas um carrossel demasiado rápido e intenso que nos faz procurar os dias destes anos, que voaram. Uma relação intensa, bonita, imperfeita e forte.

Aprendemos a conversar até a luz se apagar, a rir até chorar. Cumplicidade, diálogo, relação. E muita discussão, desafios, dois feitios exigentes. Fazemos faísca de tanto rir e de tanto ralhar. 

Nunca será perfeito e tão pouco sei se é para sempre, mas é uma viagem bonita, esta. Enquanto vir em ti a pureza de um miúdo fascinante, humilde, bem disposto e frontal, levantarei os pés para te abraçar, o meu lugar preferido. 

Ensinaste-me a ouvir, a falar cá do fundo, a contar contigo. A olhar nos olhos e a encontrar lugares mágicos.

Desafias os meus cabelos brancos e a minha paz, viras-me do avesso, mas ofereces-me momentos perfeitos embrulhados e com o meu nome. 

Ensinaste-me a arrumar a máquina da loiça e a ter um caixote do lixo limpo. Ensinaste-me o que é ser companheiro, um homem sério e uma criança cheia de bons projetos, ao mesmo tempo. Um pai perfeito e presente. E que se pode viajar e ser ambicioso e persistente em pequenas coisas.  

Eu pus-te asas e levei-te pelo mundo, falei-te de pessoas diferentes, de missões, de como o mundo está nas nossas mãos e pode ser tão simples. Ensinei-te a deixar estar, a deixar ser. Ensinei-te os passos da minha dança, dei-te os acordes da minha voz e dei-te as chaves de tudo o que sou. 

Não verbalizas nem escreves muito mas carimbo o teu amor pela forma bonita como falas de mim aos nossos filhos, como te ris das minhas tonteiras da mesma forma que rias aos 15 anos, como gostas verdadeiramente dos meus, como te adaptas aos meus amigos e sonhos, como respeitas e aprovas a minha liberdade. Obrigada.

Que continuemos a ser fogo e água, a sermos paz na nossa terra. 

A sermos nós, daqueles que não desatam.



sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Viagem ao espaço

Na semana em que conheci a Lua e Saturno através de um mega telescópio na varanda menos vigiada do país e a poucos dias de completar 43 voltas ao sol, escrevo sobre o espaço. O das emoções.

O nosso coração tem uma dimensão gigante, acredito que infinita, tal como o espaço.

Estudar psicologia fez-me viajar muito neste espaço e aprender sobre um tema que acho especial. Viver a vida fez-me viajar mais ainda.

O nosso espaço é habitado por emoções diferentes, que vão ganhando morada ao longo da nossa pequena vida. Quando perdi o meu pai conheci o "fim do mundo" como me disse um dia a minha irmã ♥️. O meu espaço parecia ter sido invadido por buracos negros grandes demais. Parece que perdemos a luz e não brilhamos nunca mais.

Nestes meses de pandemia morreram várias pessoas próximas de pessoas próximas de mim. Nem vou falar do espaço que a pandemia tira às pessoas na hora do adeus e de como a tristeza ganha à Covid-19 na causa final da morte de tantas que morrem sozinhas...

Disse à Pipa que há muito de bom para viver depois da morte de alguém próximo. A dor ocupa o tal buraco negro e a verdade é que não desaparece nem fica menor porque nos tiram do nosso espaço pessoas que eram atmosfera viva, o nosso ar. Ficamos menos vivos e se não fossem as visitas nos sonhos, nunca mais víamos nem ouvíamos essas pessoas, agora estrelas no nosso céu, um lugar escuro.

Interessa chorar, sempre que quisermos e tenhamos espaço, com o telescópio bem apontado porque nos ajuda a localizar e comunicar com elas. 

Mas interessa muito deixar que a felicidade viaje por nós, sem qualquer gravidade. Sermos felizes (muito felizes) é compatível com dores astronómicas. A verdade é que há tanto espaço à volta dessa dor onde podemos ser tão felizes depois, rir tanto, descobrir novos planetas que ainda estão lá para nós, cheios de vida... E esse espaço da felicidade cresce infinitamente, se quisermos.

Estrelas, que vão sendo cada vez mais, ainda nos vêm ao longe a sorrir muito, por muito tempo... 

E um dia seremos nós as estrelas e vai ser bom assistir a momentos de felicidade dos nossos planetas cheios de vida. 

Aproveitemos esta viagem, que a vida passa à velocidade da luz.