quarta-feira, 20 de maio de 2020

Saudade

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Cesária Évora, estive em casa dela no Mindelo, em Cabo Verde, em 2000. Foi especial. Ela falou de saudade na sua música, uma palavra só nossa, da língua portuguesa, língua comemorada pela primeira vez no mundo, a 5 de maio deste ano (dia eleito pela UNESCO).

Hoje escrevo sobre saudade. Penso muitas vezes de que terão mais saudades, as crianças, nesta fase em que a vida delas mudou? É incrível como se adaptam. Como as brincadeiras já incluem as palavras "luvas" e "máscara". Como já há máscaras tão giras para eles e o nosso corpo, de repente, tem um novo adereço. Como vão expressar-se aos amigos, com a boca tapada? Como se brinca com distância, sem toque e empurrões?

Enfim, estamos a fazer um download de uma nova forma de viver, que espero seja temporária...

De que tenho eu saudades?

Tenho saudades de jantar com as minhas amigas, sentadas bem juntas num restaurante acolhedor onde possamos conversar muito e alto até conseguirmos.... Como vou abraçá-las da próxima vez? Um toque entre sapatos ou uma cotovelada não chega para nós... Somos de abraços.

Tenho saudades dos meus irmãos. De me encostar ao meu irmão que dá abraços meigos que parecem colo. De sentir o cabelo e os braços da minha irmã que não vejo há tempo a mais... Só posso abraçá-los quando os vir. Os meus sobrinhos não vão ser abraçados, vão ser esmagados... lamento DGS, não vou aguentar, nem que seja de costas...

Tenho saudades de estar aqui no campo com os amigos do Vasco que são meus também, sorte a minha... Piscina, caipirinhas, desabafos entre mulheres, gargalhadas sem filtro, pela noite dentro e que me fazem perceber porque o "como é que o bicho mexe" foi um sucesso... conversa de amigos, boa, guião nem filtros... Abraçava-os tanto nestes dias que passamos de coração apertado...

Podia estar em Lisboa e ir às suas janelas, mas a minha casa é pequena e apertada e a minha rua tem tanta gente que estamos melhor aqui.

Tenho saudades da minha casa. "Fique em casa". Eu não fiquei. Não durmo na minha cama, não deito os meus filhos no seu quarto, não arrumo o meu sofá há mais de 2 meses. Custa. Só fico bem porque não é uma pessoa e sei que não sofre com a nossa ausência.

Tenho saudades de Sushi. Tenho saudades de almoçar com amigos ou colegas num dia de trabalho e rir, enquanto molhamos as peças na soja... Tou cansada da comida que faço. No outro dia comprei comida num restaurante aqui perto, fui buscar. Que sensação deliciosa, comer coisas diferentes, feitas por outras pessoas.

Tenho saudades de chegar a casa do supermercado e não ter que seguir um protocolo de "desinfeta as mãos 8 vezes, as portas do carro, as maçanetas da entrada em casa". Afastar os miúdos, que olham para os sacos para verem se trouxe bolachas ou outras coisas novas e coloridas...

Tenho saudades de ir tomar uma porcaria de um simples café, sentar numa mesa, dizer "bom dia" ao empregado, entregar as moedas com a mão, encostar a minha mão à mão dele... e depois abrir a porta e deixar alguém entrar antes de eu sair, com distância de centímetros dos outros.

E praia?! Tínhamos uma casa que adoramos, marcada para os feriados de junho, numa zona cheia de gente do algarve. Desmarcámos. Saudades de ir a pé com sacos de mil coisas e crianças felizes de chinelos. Chegar à praia, descalçar, sentir a areia quente e enterrar os pés, escolher um sítio para o chapéu, estender toalhas, cheirar o protetor que espalho nos meus filhos, ir ao mar.... ai, que saudades. Ouvir o senhor das bolas de berlim e acenar para que se aproxime e abra a cesta de verga, para vermos o que queremos. Ficar molhada de água salgada, deitada na minha toalha a ouvir as pessoas e as ondas, a comer a minha bola sem creme.

Tenho saudades de viajar. Fazer as malas, arrumar passaporte. Ficar a sofrer com saudades dos filhos e sentir felicidade por entrar num avião. Sentir a adrenalina quando aterro noutro mundo, sair, cheirar e sentir o novo. Andar em ruas de outro lugar, conhecer paisagens, ouvir pessoas, descobrir sabores e sons... Quando voltarei a viajar, sem ser ir ao Lidl ou a Lisboa?

Tenho saudades de ir ao cinema, jantar com o Vasco, falarmos à mesa do restaurante como não falamos em casa, andarmos de mão dada sozinhos no meio dos outros e darmos um beijo, porque sim, sem máscara.

Estou feliz onde estou, com quem estou, desde março. Temos tanta sorte porque temos espaço, verde, ar puro, tudo o que adoramos e onde mais gostamos. Posso abraçar 4 pessoas que amo muito, todos os dias. Mas, caramba, tenho saudades do que falta aqui.