O calendário de cada ano, para mim, assemelha-se ao anel de saturno (3D), percorrendo 365 dias e recomeçando outra vez, girando e girando...
Mas eu vejo sempre este anel com altos e baixos. Imaginemos o Saturno a dançar ao arco e a abanar a cintura, com uma música que, às vezes, é alta e mexida e, outras, calma e tristonha...
Os seus picos são em julho (alto) e janeiro (baixo).
Cada ano começa, portanto, com o arco bem lá em baixo ao som de uma música melancólica...
É inverno, o tempo é mau, a pele branquela, o cabelo eriça e está sempre despenteado, há falta vontade para tudo, enjoo total... Não gosto de chuva e de frio, fico com a bateria fraca e a alegria não me é tão natural.
Fui percebendo com os anos que não só gosto de sol e calor, como PRECISO de sol e de calor, também por ser asmática. O sol e o ar quente ajudam a sentir-me melhor. A gaveta 2 é também uma necessidade física para mim. Daí que quando se passa o janeiro, começo a renascer e a sair da toca...
Em fevereiro, parece que faço uma curva pelo inverno e começo a subir ligeiramente uma rampa que me faz avistar lá ao longe mais um verão, o que tem um efeito rejuvenescedor.
Os dias começam a ficar maiores, há mais sol e começa a cheirar a primavera.
Por esta rampa começam a descer e a ficar amontoados cá em baixo (em janeiro) as roupas quentes, escuras, pesadas; as mantas, os chapéus de chuva, cachecóis e outros extras que ali ficam para não chatear e a aguardar pelo próximo outubro...É, na verdade, este peso que faz com que janeiro seja o pico mais baixo...
Em março, ainda há luz do sol quando chegamos a casa. No horizonte já se vê o verão, praia, calor e dias mais leves. Todo o caminho até lá é feito a pensar nesta recompensa, tipo maratona com vista à meta.
Depois vem abril, que é bom porque começamos a marcar as nossas férias de verão, começam a aparecer uns dias de sol e calor aqui e ali e isso funciona como um belo incentivo para começarmos a preparar o mood "sandália, esplanada, óculos escuros, gelados e solzinho bom"! Nas crianças, então, é bom de ver!
Maio passa a voar porque as primeiras férias vêm em junho e então os dias são fáceis! Para além disso, há ombrinhos, pezinhos e perninhas que se começam a destapar e onde podemos dar mais beijinhos ainda... que fácil que é preparar só dois calções e duas t-shirt's para o dia a seguir!!
Já podemos marcar passeios e fins de semana na rua, pois é mais certo que haja sol e calorzinho para a pequenada correr e brincar ao ar livre!
Junho.... feriados, santos populares, fim de escola, férias e praiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!! Tudo é bom!
Julho: mesmo a trabalhar é maravilhoso e é o topo da rampa, quando a música é bem animada e Saturno está a curtir um belo som!
Aqui estamos em grande. Saímos depois do jantar para ir tomar café à rua e até se joga à bola ou anda de bicicleta porque há clima para isso!!! O astral está lá em cima!
Agosto: a rampa desce ligeiramente porque, apesar de ser o maior período de férias para nós, o facto de avistar o seu fim, em setembro, já deprime ligeiramente, coisa pouca... É preciso aproveitar cada minuto de sol, de calor, de praia, de brincadeira e de verão!!! Apetece guardar os restos bons dos dias em caixas e congelar....
Setembro: ainda gosto, vem lá a escola, o início dos aniversários dos filhotes e a despedida do verão.
Outubro: estamos naquele mood de "estou bem", mas já com uma lágrima no canto do olho. Apetece pregar os últimos dias quentes à parede do quarto e adormecer a olhar para eles...
Novembro..... oh novembro... que seca, tristeza, chatice. Felizmente há luzes e natal e cheiro a castanhas e terra molhada que lá consigo dizer que são aconchegantes...
Dezembro sai ileso porque há férias, Natal, família, doces bons e, às vezes, neve. Passa-se.
E pronto, depois da passagem de ano, que é divertida, batemos no fundo. Lá está Saturno, de olheiras, cabizbaixo, a ouvir Blues, cheio de depressão...
Parte boa desta dança de Saturno: estamos em março!
já que gosto de escrever sobre o que penso, o que vivo e o que sinto nesta fase da minha vida, abro a porta deste cantinho para partilhar estas palavras. obrigada pelas visitas.
segunda-feira, 5 de março de 2018
Os ventos de Março
No meu mapa existem muitas viagens: umas feitas e muitas por fazer.
O Brasil (gaveta 2) é um dos países onde me senti mais feliz e há uma justificação simples para isso, se juntar 4 coisas de que preciso nas minhas "gavetas": calor (humano e do outro), natureza, música e comida.
Há 17 anos comprei em Viena um postal do Rio de Janeiro. Era a preto e branco e guardei-o durante muitos anos no meu quarto. Queria muito ir lá, sempre quis.
Cidade maravilhosa e habitat natural da minha música: MPB. Segundo a wikipédia: "a MPB, sigla derivada da expressão Música Popular Brasileira, é um género musical surgido no Brasil em meados da década de 1960. A MPB surgiu a partir de 1966 na cidade do Rio de Janeiro com a segunda geração da bossa nova, mas com uma forte influência do folclore brasileiro que já vinha desde 1932."
... A banda sonora da minha vida inclui muita e boa música brasileira. Desde as tardes em casa do Bruno e dos discos em vinil do pai dele, que me apaixonei por música brasileira e nunca mais a larguei. Tom Jobim, Vinicius, Zizzi Possi, Caetano, Marisa Monte, Gilberto Gil e João Gilberto, Maria Rita, Maria Gadu e muito mais cantores e autores incríveis ajudaram-me a perceber que podemos ser de um país e sentirmo-nos parte de outro.
Nunca fui ao Rio e nem sei quantas vezes sonhei que lá estava ou tentava chegar sem conseguir. Fui a outras cidades, praias e já várias vezes, felizmente. Nunca ao Rio.
O que gosto mesmo do Brasil? As pessoas, o calor, as emoções à flor da pele bronzeada, a felicidade das pequenas coisas, o otimismo.
Mas não gosto de tudo. Não gosto da violência, da corrupção descontrolada, da desigualdade sem fim previsto entre negros e brancos. Como diz o Caetano (e o Lorenzo lembrou), lá "negros são quase todos pobres e pobres são quase todos negros" e isso alimenta muitos problemas...
Em 2013 ponderámos ir viver para o Rio. Para mim era claro e natural: os sonhos são para se concretizar. Mas um filho e alguns riscos falaram mais alto. Seguimos a nossa vida e veio a nossa fofa. Não iria viver para lá hoje. Mas o sonho não se esquece e pode ter várias versões.
Quase 40 anos de ambos e 10 anos de namoro. Uma ótima desculpa para dar cor ao postal a preto e branco. Partida marcada para 9 de março.
Diz o arquivo da RTP... "a 9 de março de 1500 partiu de Lisboa a segunda armada portuguesa para a Índia, agora comandada por Pedro Álvares Cabral. Durante o caminho terão descoberto o Brasil."
Parece que os ventos sopraram inesperadamente e levaram Pedro a este destino. Há quem diga que foi intencional.
Os meus ventos também têm soprado para lá, desde sempre.
..........................*............................*...........................*..............................*.........................
15.03.18
Chegámos ontem do Rio de Janeiro.
Chegámos ontem de Copacabana, de Ipanema, do Pão de Açúcar, do Corcovado.
Chegámos do cheiro a Goiaba e madeira das árvores altas que beijam o céu, do gosto da caipirinha de maracujá, do samba como fundo de conversas boas de amigos.
Chegámos ontem de sorrisos com lágrimas e contigo, da certeza do bom que é sonhar, de ficarmos felizes pela felicidade dos músicos das roda de samba que olham nos olhos enquanto tocam nos corações dos cariocas desacreditados, desiludidos e, ainda assim, felizes.
Chegámos ontem do sol quente que aquece aquela calçada portuguesa onde muitos, muitos, muitos dormem nus e descalços, à noite.
Chegámos ontem da floresta tropical, a casa da capivara que é gente boa, do tocano, do beija-flor, do mico, da iguana, da borboleta que tem a sorte de voar.
Chegámos ontem do Aeroporto de Tom Jobim que garante que a música deste país, voa pelo mar fora e espalha esta magia em português, unindo muitos pelo mundo.
Chegámos ontem da cidade maravilhosa, onde Deus foi generoso com o verde, mas não está fazendo tudo pela natureza humana que é cada vez menos isso. A Marielle Franco???!!
Chegámos ontem e parece que ficámos lá para sempre.
Sempre disse que quando fosse ao Rio não voltaria. E não voltei totalmente.
(Inevitável: música e fotos em baixo)
"Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz.
Eu sei que a vida podia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita:
"É bonita, é bonita e é bonita!"
Cantou Zizi Possi.
"Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você."
Cantou Tom Jobim.
"Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar"
Cantou Marisa Monte.
"Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção, corpo aberto no espaço
Coração De eterno flerte
Adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus proteger-te
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo."
Cantou Caetano Veloso.
"O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março...
... Aquele abraço"
Cantou Gilberto Gil.
O Brasil (gaveta 2) é um dos países onde me senti mais feliz e há uma justificação simples para isso, se juntar 4 coisas de que preciso nas minhas "gavetas": calor (humano e do outro), natureza, música e comida.
Há 17 anos comprei em Viena um postal do Rio de Janeiro. Era a preto e branco e guardei-o durante muitos anos no meu quarto. Queria muito ir lá, sempre quis.
Cidade maravilhosa e habitat natural da minha música: MPB. Segundo a wikipédia: "a MPB, sigla derivada da expressão Música Popular Brasileira, é um género musical surgido no Brasil em meados da década de 1960. A MPB surgiu a partir de 1966 na cidade do Rio de Janeiro com a segunda geração da bossa nova, mas com uma forte influência do folclore brasileiro que já vinha desde 1932."
... A banda sonora da minha vida inclui muita e boa música brasileira. Desde as tardes em casa do Bruno e dos discos em vinil do pai dele, que me apaixonei por música brasileira e nunca mais a larguei. Tom Jobim, Vinicius, Zizzi Possi, Caetano, Marisa Monte, Gilberto Gil e João Gilberto, Maria Rita, Maria Gadu e muito mais cantores e autores incríveis ajudaram-me a perceber que podemos ser de um país e sentirmo-nos parte de outro.
Nunca fui ao Rio e nem sei quantas vezes sonhei que lá estava ou tentava chegar sem conseguir. Fui a outras cidades, praias e já várias vezes, felizmente. Nunca ao Rio.
O que gosto mesmo do Brasil? As pessoas, o calor, as emoções à flor da pele bronzeada, a felicidade das pequenas coisas, o otimismo.
Mas não gosto de tudo. Não gosto da violência, da corrupção descontrolada, da desigualdade sem fim previsto entre negros e brancos. Como diz o Caetano (e o Lorenzo lembrou), lá "negros são quase todos pobres e pobres são quase todos negros" e isso alimenta muitos problemas...
Em 2013 ponderámos ir viver para o Rio. Para mim era claro e natural: os sonhos são para se concretizar. Mas um filho e alguns riscos falaram mais alto. Seguimos a nossa vida e veio a nossa fofa. Não iria viver para lá hoje. Mas o sonho não se esquece e pode ter várias versões.
Quase 40 anos de ambos e 10 anos de namoro. Uma ótima desculpa para dar cor ao postal a preto e branco. Partida marcada para 9 de março.
Diz o arquivo da RTP... "a 9 de março de 1500 partiu de Lisboa a segunda armada portuguesa para a Índia, agora comandada por Pedro Álvares Cabral. Durante o caminho terão descoberto o Brasil."
Parece que os ventos sopraram inesperadamente e levaram Pedro a este destino. Há quem diga que foi intencional.
Os meus ventos também têm soprado para lá, desde sempre.
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15.03.18
Chegámos ontem do Rio de Janeiro.
Chegámos ontem de Copacabana, de Ipanema, do Pão de Açúcar, do Corcovado.
Chegámos do cheiro a Goiaba e madeira das árvores altas que beijam o céu, do gosto da caipirinha de maracujá, do samba como fundo de conversas boas de amigos.
Chegámos ontem de sorrisos com lágrimas e contigo, da certeza do bom que é sonhar, de ficarmos felizes pela felicidade dos músicos das roda de samba que olham nos olhos enquanto tocam nos corações dos cariocas desacreditados, desiludidos e, ainda assim, felizes.
Chegámos ontem do sol quente que aquece aquela calçada portuguesa onde muitos, muitos, muitos dormem nus e descalços, à noite.
Chegámos ontem da floresta tropical, a casa da capivara que é gente boa, do tocano, do beija-flor, do mico, da iguana, da borboleta que tem a sorte de voar.
Chegámos ontem do Aeroporto de Tom Jobim que garante que a música deste país, voa pelo mar fora e espalha esta magia em português, unindo muitos pelo mundo.
Chegámos ontem da cidade maravilhosa, onde Deus foi generoso com o verde, mas não está fazendo tudo pela natureza humana que é cada vez menos isso. A Marielle Franco???!!
Chegámos ontem e parece que ficámos lá para sempre.
Sempre disse que quando fosse ao Rio não voltaria. E não voltei totalmente.
(Inevitável: música e fotos em baixo)
"Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz.
Eu sei que a vida podia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita:
"É bonita, é bonita e é bonita!"
Cantou Zizi Possi.
"Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você."
Cantou Tom Jobim.
"Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar"
Cantou Marisa Monte.
"Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção, corpo aberto no espaço
Coração De eterno flerte
Adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus proteger-te
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo."
Cantou Caetano Veloso.
"O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março...
... Aquele abraço"
Cantou Gilberto Gil.
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