terça-feira, 15 de maio de 2018

Viagens na minha terra

Quando vamos uns dias para a aldeia das nossas mães já vamos utilizando o termo "terra" para identificar a nossa zona comum, as nossas origens e o nosso ar puro.

Mas a minha "terra" é Santarém. E é em Santarém que me sinto em casa, onde guardo as minhas memórias de infância e muitos dos meus amigos.

Os amigos de Lisboa são muito importantes, mas conhecem outra Joana: a da faculdade, das causas, do Vasco e dos filhos.

Tento com alguma insistência levar os miúdos a Santarém (queria que fossem o triplo das vezes)... Preciso mesmo de lá ir, apesar de me identificar mais com Lisboa... sem dúvida. A diversidade de pessoas, os "horizontes alargados", a praia, as oportunidades profissionais, as opções infinitas de sítios para ir, o facto de ninguém nos conhecer, vale muito....

Mas Santarém tem que estar por perto. Se estiver muitos meses sem lá ir, o corpo sente falta. E o coração também... Quando vamos a Santarém eu vou feliz... sempre. E por isso, felizes vão os meus filhos, porque ralho menos, canto mais e eles percebem que é bom. Finalmente, já tenho o meu filho de 7 anos a pedir para lá ir. Consegui!!

Apesar de ser difícil e pouco viável, há momentos em que penso em irmos viver para lá.... talvez quando os nossos filhos forem um pouco maiores e as saídas à noite em Lisboa nos derem vontade de fugir para um sítio mais calmo, onde eu saí também. Tenho a GIGANTE sorte de ter bons amigos e amigas lá.

As amigas do coração que aprenderam comigo a ler e escrever... Amigas que me conhecem verdadeiramente e me viram crescer e ser Mãe de dois filhos, de quem são verdadeiras Tias. Hoje vemos os nossos filhos brincarem juntos, enquanto conversamos sobre tudo o que é possível no pouco tempo que temos. E rimos tanto tanto, da mesma forma que ríamos aos 15 anos quando falávamos de rapazes...

Os amigos da adolescência são outro grupo que apareceu aos 15 e com quem fui mega feliz, comecei a ouvir muita e boa música, passei férias de boa praia e das melhores recordações... Com quem conversei até de madrugada, comi 12 passas durante muitos anos... Amigos com quem consigo estar ainda algumas vezes e abraçar da mesma forma que abraçava... com quem sinto sempre uma cumplicidade que só nós sabemos de onde vem.

Todos eles amigos que conheceram o meu Pai e estiveram comigo nesses dias em que Santarém também chorou. Lisboa não... Este é um dos motivos que me fazem lá ir. Lembrar-me dele. 

Lembrar-me das touradas que íamos ver juntos e me deixam saudades, apesar de já não gostar. O rancho e as vezes que dançámos ou o víamos dançar com elegância ... As Portas do Sol onde íamos almoçar e brincar no jardim, juntos. Onde tirámos aquelas fotos que estão agora nas nossas cómodas, a ficar sem cor de tanta saudade. A nossa casa. A porta do nosso prédio, onde te comecei a perder... Mesmo as más memórias são boas, fazem parte. Os meus filhos não imaginam o que vivemos, quem éramos, o que fazia a Mãe quando era do tamanho deles...

Quando entro na Rua O, já suspiro de feliz. E depois começo a conversa de sempre "Era aqui que a Mãe.....", "Esta era a escola da Mãe", "...a casa da Mãe...", "o café onde a Mãe ia...". O Vasco já se deve cansar mas penso que percebe, porque me acompanha e vai sabendo os meus caminhos de cor. Faço questão de repetir tudo, mesmo que seja chata, já com a intenção de que o Lucas retenha, valorize e queira sempre voltar.

Agora visito outra "Santarém". Mais nova, arranjada, onde conheço menos pessoas, mas onde a minha história está escrita nas ruas, nas casas, nas árvores e no nosso rio. Não sei o que está para vir mas cada vez mais valorizo o que está lá guardado para sempre e só nosso.


(O título do texto foi escolhido porque Almeida Garrett escreveu "Viagens na minha terra", onde também menciona Santarém e uma "Joaninha dos olhos verdes", expressão que ouvia em pequena e lembro com carinho.)