quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O homem que não conseguia chorar

Era uma vez um homem que vivia junto ao mar.
Durante o dia descansava ou passava o tempo em conversas com amigos. À noite, ia para o mar.

Este pescador era feliz e apesar de ali viver sozinho, via nos seus companheiros a sua família.
Mas havia uma coisa que o tornava diferente dos outros pescadores. Na verdade, das outras pessoas.
Quando estava triste, este homem não conseguia chorar...
Quando se sentia só, quando o coração apertava com saudade, quando alguém o magoava, os olhos deste homem permaneciam secos, ao contrário do mar...

Até um certo um dia, em que a história teve que mudar. O dia em que o seu grande amigo, também pescador, não tinha voltado do mar...

Nesse dia, a dor e o sofrimento deste homem foram mais fortes que a onda que virou o barco onde seguia o seu companheiro. O seu corpo estava agitado, as suas mãos fechadas de revolta e os seus olhos enraivecidos. Pela primeira vez, nessa noite, o homem não foi pescar.
Sozinho, sentou-se na areia da praia e quis ficar a olhar o mar. O seu mar.

A espuma das ondas parecia querer chegar aos seus pés descalços e, pouco a pouco, puxar o homem para a água salgada...Por momentos, a mágoa que sentiu foi tão grande que o homem baixou a cabeça e quis chorar. Chorar por cada momento de tristeza na sua vida, chorar sem parar, só chorar ... mas as lágrimas não apareciam.

Nem o seu silêncio, nem as ondas, nem a imensa dor faziam este homem chorar.

Até que se levantou, ele e a sua tristeza, e num tom tremido, o homem ergueu a cabeça e disse:
"Oh mar, dá-me as gotas de um pedaço teu e deixa que sejam as minhas lágrimas salgadas!"

Enquanto tirava a camisa, o homem dirigia-se ao mar, em silêncio, como se regressasse a um colo há muito perdido. E ao entrar na fria água salgada, os seus olhos brilharam e o homem mergulhou.

Naqueles segundos debaixo de água, sentiu-se pequeno e frágil, entregou-se à imensidão do mar profundo e quando a sua face emergiu de novo naquela linha prateada, as lágrimas desciam-lhe pelo rosto molhado, caíam devolvidas ao mar e novas lágrimas voltaram a escorrer. O homem chorou, chorou, chorou... até a Lua permitir.

E quando parou, olhou com gratidão o seu mar, como se quisesse acreditar que sozinho não conseguia chorar e que o sal que sentiu nos lábios, não era seu.

Desde esse dia, o homem escolheu aquele local para, sempre que a vida lhe entregasse tristeza, poder mergulhar dentro de si e chorar, com lágrimas emprestadas pelo mar.

jb