quarta-feira, 27 de março de 2019

Um cantinho chamado São Tomé

Chegámos ontem de São Tomé.
Nem sei por onde começar, certamente pelo lado belo.

Pelo azul...
São Tomé é abraçado pelo mar e protegido pelo céu. Sendo São Tomé uma ilha pequena, por onde quer que passemos há azul e é um azul forte.
O mar que dá peixe que chega para as pessoas que lá vivem e ainda um pouco para os turistas que acredito que "voltem sempre". Peixe com sabor a lima e limão. Peixe que vem com fruta pão, banana pão, batata doce. Vem sempre acompanhado como andam as pessoas de lá.

Verde... O verde é a minha cor preferida e agora, o verde ganhou outro tom na minha coleção: o de São Tomé. É tão verde. O Parque Jurássico só pode ter sido ali. E o mais bonito de tudo é que, ao contrário do resto do globo, o verde ali continua e parece não diminuir.
Verde de coqueiro, verde das plantações de cacau, verde da fruta pão, da cabaça, dos coentros, do abacate, do bambu, da erva príncipe, da Lúcia Lima, da lima. Verde que cheira a vida.

A natureza é tão generosa e justa com estas pessoas. Tão intensa e bonita quanto elas merecem. Até no azul do mar há verde das folhas e frutos. Verde de vida.

O Castanho...
...que somos nós, as pessoas. Lá, num tom mais intenso por causa do sol quente e certamente feliz.
Castanho de mulher, com riscas coloridas nos tecidos com que abraçam os seus bebés e os mantêm quentes e quietos até caminharem por si.
Castanho de homem, que carrega madeira para as casas, tão fortes como têm que ser perante as tempestades da vida que ali se enche de filhos.
Castanho de crianças que nos derretem o coração como se fosse cacau quente.
Doces no sorriso, no "Olá" e verdadeiras, como qualquer uma. Conversámos muito com elas. Têm sempre tanto para ensinar.
Castanho dos galos que cantam desafinados antes do sol nascer. Castanho dos porcos que passam, em famílias numerosas, pela estrada, pelo mar, pelas arribas e nos fazem rir, embora São Tomé seja mais para Sorrir.
Castanho da lama que vem com a chuva forte e derruba ramos e troncos que de castanho pintam a estrada que adoramos percorrer.

Há mais cores, pouco cinzento e pouco preto. Muitas cores. A fruta, sempre a fruta. As roças que já foram nossas e onde agora vivem milhares. Por fora estragadas. Por dentro livres e cheias. De música ritmada, de lençóis e camisolas coloridas que se estendem e secam no chão, onde à noite se vai dormir.

Queremos sempre tanto e encontramo-nos sempre tão bem neste pouco.
São Tomé é rico. Tem chuva, tem mar, tem natureza fértil e tem pessoas que sabem viver de forma "leve leve" e assim ficar.

(...de certeza que continua.)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Para ti, que tens o meu mundo nas tuas mãos

Se tivesse 18 anos hoje, não sei se ficaria em pânico com o pessimismo e alarmismo da comunicação atual sobre o fim do mundo, ou se virava ativista feroz. Diz-se que, desde sempre, as gerações mais velhas criticam ou desvalorizam os mais novos. Ser adolescente já é difícil, quanto mais sabendo que não nos dão o devido valor ou que não somos muito levados a sério no papel que temos na sociedade.

A manifestação da semana passada sobre as alterações climáticas que moveu jovens de todo o mundo, e o facto de uma rapariga de 16 anos da Suécia, Greta Thunberg, poder ser nomeada para Nobel da Paz por se mobilizar pelo ambiente e pelo o mundo, que é mais dela que meu, deixou-me inquieta.

Gostei muito da força das mensagens dos cartazes da greve... "será que se chama meio ambiente porque já destruímos metade!?" ou "there is no planet B" ou "por um planeta para os nossos netos" ou "we can't let it be".

Escrevo este texto por ter um respeito muito grande por quem é novo e se sabe afirmar. Para ti.

O mundo é teu, tão teu como de qualquer outro ser humano que cá andou ou anda: na terra ou no céu, na selva ou na cidade, na aldeia ou no último andar de um arranha céus. Tens o mesmo registo de propriedade, o mesmo ar, o mesmo espaço (inclui estrelas). E o nosso planeta é, como tudo o que conhecemos: bom e mau, feio e bonito, belo e assustador. Eu própria que me revolto a toda a hora e saio de casa por causas e cartazes, às vezes parece que me esqueço do bom que isto é.

Eu sei que tu sabes. Mas queria, ainda assim, reforçar (a ti e a mim) o que de esplêndido existe mesmo ao lado desse mundo da comunicação cheio de rasteiras e algoritmos...
Senão repara:

  • o que faz um passarinho pousar num banco de jardim para picar as migalhas de um pão de escola e levar-nos a sorrir?
  • o que nos faz olhar para uma magnólia em flor, coisa rara, e lá ficarmos mais tempo do que a ver um vídeo do youtube?
  • o que nos faz parar para ler uma mensagem de amor gravada num tronco de árvore (quando existe whatsapp gratuito) enquanto caminhamos com pressa para o autocarro?
  • o que nos faz molhar os olhos quando assistimos a um artista em palco falar do bom que é receber os nossos aplausos e, depois, cantar para nós e nos deixar em silêncio, aos milhares?
  • o que nos faz olhar e ouvir as ondas do mar, tentar seguir as marcas das gaivotas na areia onde gostamos de enterrar os pés e as mãos, vezes sem conta?!
  • o que nos faz olhar para a nossa avó, ou mãe, ou pai a cozinhar e ficar a beber cada gesto, a saborear cada cheiro, como se estivéssemos a ler, mas com uma realidade que não é virtual?
  • o que nos faz ficar a olhar os nossos filhos a dormir e admirar cada linha com que fizemos aquele nariz, os fios de cabelo, os dedos das mãos que, por uma magia que só este planeta tem, começaram a desenhar-se, com amor, na nossa barriga??
  • o que nos faz arrepiar quando aterramos noutro país, diferente nos cheiros, pessoas e olhares e nos leva a um exercício de humildade e simplicidade que nos conforta tanto?
Enfim, não quero que leias mais, vais achar-me chata porque já estou a falar de filhos..... Só quero que sintas, que vivas, que queiras viver muito neste nosso planeta absolutamente maravilhoso. Aproveita o bilhete, goza a viagem e partilha-a bem, deixando que os próximos a gozem também.

Tu tens o nosso mundo nas mãos.