sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Depois disto tudo

Escrever menos não deve ser bom sinal. Agora já com 8 meses de pandemia nos ombros, as costas vão doendo. Houve um lado de aventura na quarentena que não haverá em próximas proibições, sinto. O nosso olhar vai ficando mais sério, estamos anestesiados e assim ficaremos a tentar ver o que de bom têm os nossos dias, tudo o que temos e que nos faz feliz. Sublinhemos bem, para não perdermos o foco. 

Lembro-me muito do filme "a vida é bela", dos mais bonitos que já vi. Aquela alegria e pensamentos positivos do Roberto Benigni como forma de sobrevivência e condução dos mais pequenos, vêm-me à cabeça.

Fiz uma massagem nas costas hoje. É dos mimos que tento manter há anos porque é nas costas que carrego filhos e problemas. Sabe tão bem. Mas agora as preocupações são diferentes, a massagem foi mais longa.

Vivemos o ano da empatia, palavra mágica e, para mim, o segredo de uma paz utópica no mundo. Acredito que estamos a dar passos importantes e novos, a criar caminhos paralelos que só vamos ver onde nos levam mais tarde.... O lado da esperança ainda existe.

O caminho que percorro agora é de "respira, segue, vive o bom e aguenta". Penso no depois disto tudo e tento manter o foco para depois olhar para trás e sentir alguma tranquilidade, saúde mental, como pessoa e mãe. 

Depois disto tudo quero que os meus filhos ainda se lembrem da minha calma e boa disposição diárias (a frequência reduziu). Trabalho em casa, horários novos, lida doméstica, menos tempo só eu, menos espaços, mais regras e preocupações com todos.

Depois disto tudo espero saber abraçar bem, cumprimentar pessoas na rua com beijos, mexer nas bochechas de todos os bebés que vejo, deixar-me estar perto das pessoas que gosto e não gosto. Comer do prato dos outros, não me lembrar do cheiro do gel, da falta de ar depois de subir escadas de máscara. Quero sair do prédio, de manhã, abrir a porta e só respirar...... Quero abraçar a minha avó, se ela cá estiver ainda. 

Depois disto tudo espero não esquecer a empatia pelos enfermeiros, os donos dos restaurantes, os empregados das lojas, os artistas, os pais que têm filhos como eu tenho os meus e temem pelos dias... E quem vive sozinho. Quero saber respeitar o desespero que está para vir de quem sofre/ vai sofrer na pele as consequências mais danosas desta pandemia: a pobreza, o desemprego, a falta de sonhos... que não sejamos alvo delas.

(Ontem decidi que tentarei comprar todos os presentes de natal em lojas de comércio local, não em grandes superfícies a quem a pandemia não tocou tanto. Deixo a sugestão.) 

Depois disto tudo quero sentir que continuei a espalhar magia na vida dos meus filhos (quem sabe nos filhos dos outros). Que teremos o melhor Natal de todos, este ano, fomos criativos, abraçamos melhor que nunca os que podemos abraçar sem limites. Que à noite, na cama deles, fique a tranquilidade que resta dos dias. "Amanhã o dia é melhor", mesmo que depois sozinhos no sofá gelemos com as notícias. É preciso relativizar números e seguir, mas gela.

Não quero esquecer que a vida continua, ouvimos música, cantamos, cozinhamos coisas boas, rimos com amigos, há luzes de natal, há bebés a nascer, estamos bem. Sigamos com cuidado, empatia, foco e magia para ainda sabermos, numa nova forma de felicidade, viver tudo o que vem depois disto tudo.