O tempo passou e o nosso filho, que há oito anos estava prestes a nascer, já ocupa o sofá todo...
Desde que soube que ia ser mãe pela segunda vez, tive que educar um novo sentimento: amar dois, podendo fazer sofrer um, o do sofá.
Tentámos envolvê-lo nas escolhas do nome, nas compras para o bebé que lá vinha. Tentei ler e seguir dicas como: recebê-lo de braços livres na primeira visita à mana, no hospital. Deixá-lo ser ele a fazer a visita guiada a nossa casa, quando entrámos pela primeira vez, os 4.
Mas depois chegou aquele sentimento de culpa e começou a dificuldade em gerir o amor pelo primeiro e a defesa + amor pela segunda. Era preciso aceitar os ciúmes, respeitar ... Mas ao mesmo tempo o instinto maternal dizia-me que aquele abraço era apertado demais para uma bebé de 3 kg e aqueles apertos podiam magoar, apesar de ser uma nova e bela forma de amar: a dos manos.
Hoje são mais crescidos. Ela já se defende dos mesmos apertos, retribui os abraços e ele já percebe que o espaço foi dividido e que tem novos problemas, mas novos carinhos bons também!
"A vida é assim, passamos todos por isto", repito infinitas vezes a mim mesma, quando no fundo sofro por ser injusta com ele...
... Ele, que me fez conhecer o que é ser Mãe. Ele, que se encostou ao meu peito pela primeira vez e se alimentou do meu amor, durante meses e, com ele, cresceu. Ele, que me fez perceber o incrível que é sentir um pontapé dentro da nossa barriga. Ele, que me fez querer escrever histórias para crianças, tal como escrevi poemas e músicas para o pai. Foi ele que me fez ouvir pela primeira vez a expressão "Mamã" e me abraçou tantas vezes à porta da escola, com uma cola que eu não queria descolar.
O meu Luquinhas perdeu um bocadinho da mãe, apesar de ter ganho uma mana maravilhosa. Ainda bem que isto é um cantinho, porque não conseguia dizê-lo em voz alta. Custa tanto. Eles crescem, rapazes grandes (muito mais pequenos do que nós achamos), já respondem mal, têm ciúmes e expressam-nos da forma mais infantil e tonta... mas eles são infantis e só se sabem expressar assim...
E nós, em vez de termos cabeça para a parentalidade positiva dos workshops que se multiplicam no Facebook, pomos muitas vezes o cansaço à frente e fazemos figuras parvas, daquelas que não sabíamos que iríamos fazer, quando tínhamos 20 anos e acordávamos às 11h...
Gritamos com quem mais amamos e ficamos cansados daqueles gemidos e birras. Eu adorava saber ter mais calma, contar até 10 mais vezes, desligar o fogão para abraçar, brincar, saber gerir, ouvir o porquê de tudo e compreender...
Por mais que passe o tempo, queria sempre fazer melhor com os meus filhos: uma que quer crescer com a atenção de todos e ele, que quer continuar a crescer com a atenção de todos, os que estavam cá antes dela.
Ele, que ocupa já todo o sofá, que já tem as pernas musculadas e rijas, está quase a fazer oito anos e eu, por detrás do "despacha-te", "não faças isso", "não fales assim", "não lhe chames nomes que ela é pequenina", "cuidado", estou a tentar gritar baixinho, só para ele ouvir, o quanto a minha vida ficou melhor desde que ele existe, o quanto o acho meigo, bom ser humano, divertido, organizado, lindo e o melhor filho do mundo. Queria ter os braços do sofá para te agarrar todinho e dizer-te mais vezes o quanto gosto de ti.
já que gosto de escrever sobre o que penso, o que vivo e o que sinto nesta fase da minha vida, abro a porta deste cantinho para partilhar estas palavras. obrigada pelas visitas.
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Companhia do Silêncio
Chegaram às paredes das ruas
Os cartazes de um novo evento
Poucas cores, poucas palavras
Sábado à noite, para toda a gente
Burburinho, conversas de café
Curiosidade da boa e da má
De que se trata afinal? O que é?!
Na dúvida, sendo grátis, vamos lá!
Hora antes, na porta do Centro Cultural
Misturados: jovens, casais e bengalas
Vizinhos, amigos, tudo igual:
Ninguém sabia se desilusão, se palmas
Fecham-se luzes e vai começar
Silêncio! Vozes baixas... Uma luz
Corações ouviam-se a palpitar
Duas rodas, uma cadeira, um capuz
Desinteressante: à partida só um homem
Nem dança, nem filme, nem canção
Uma frase: "Boa noite, espero que gostem"
Num slide projetado em fundo carvão
Homem velho e cansado, pela postura
Sem microfone nem roupa brilhante
Mais um slide: "Não é cultura...
são momentos de silêncio, só instantes"
O público entrega-se, com empatia
E o silêncio começa a atuar:
"Viajo há um ano pelo mundo
Uma mensagem quero passar"
Apenas palavras escritas, sem voz
Traduzidas noutros lugares
"Tenho quatro pedidos para vós
Prometo que não vou voltar"
Inquietas e curiosas também
As pessoas esperam para se entregar
"Como era o colo da vossa Mãe?
E o olhar terno do vosso Pai?"
O espetáculo começou então,
Companhia do Silêncio no ar
Uma sala cheia de emoção
O tempo, ocupado, a voar
"Agora o desafio é exigente
Podem-se até levantar
Com a vossa música preferida em mente
Façam o favor de dançar"
Jornalistas descreveram depois
Que ali aconteceu algo invulgar
Sozinhos ou a dois
A dança aconteceu, sem som: "Espetacular!"
Começava-se a perceber
O que este homem queria mostrar
Porque andava a percorrer
O mundo que ia abandonar
Sem vídeos ou aplicações
O mundo continuava a girar
E juntos, os nossos corações
Tinham tanto, em silêncio, para dar
"Apenas com o toque ou o olhar,
as palavras que nunca disseram
A alguém nesse lugar
Ou outro alguém que já perderam"
Lágrimas foram atrizes principais
Sorrisos e abraços, secundários
O que está para vir mais?!
Tantas experiências num só cenário
"Por último, cruzem os dois braços
Num abraço que nunca se dá
Sinta-se, cada um, acarinhado
E abracem depois quem cá está."
Timidez, conforto, comunicação
Encheram o Centro Cultural
E também esta multidão
Lembrou o amor não verbal
O homem saiu de cena
Com aquela música de fundo
O silêncio retirava-se, em vénia
E ouviu-se o maior aplauso do mundo...
Não havia mensagem final
Nem palavras para o evento do cartaz
Todos se dirigiram à saída
Com uma estranha sensação de paz...
Ficava a lição de alguém vivido
Um novo significado para "silêncio"
Que se pode encher de sentido
Num mundo que parece sem tempo.
Os cartazes de um novo evento
Poucas cores, poucas palavras
Sábado à noite, para toda a gente
Burburinho, conversas de café
Curiosidade da boa e da má
De que se trata afinal? O que é?!
Na dúvida, sendo grátis, vamos lá!
Hora antes, na porta do Centro Cultural
Misturados: jovens, casais e bengalas
Vizinhos, amigos, tudo igual:
Ninguém sabia se desilusão, se palmas
Fecham-se luzes e vai começar
Silêncio! Vozes baixas... Uma luz
Corações ouviam-se a palpitar
Duas rodas, uma cadeira, um capuz
Desinteressante: à partida só um homem
Nem dança, nem filme, nem canção
Uma frase: "Boa noite, espero que gostem"
Num slide projetado em fundo carvão
Homem velho e cansado, pela postura
Sem microfone nem roupa brilhante
Mais um slide: "Não é cultura...
são momentos de silêncio, só instantes"
O público entrega-se, com empatia
E o silêncio começa a atuar:
"Viajo há um ano pelo mundo
Uma mensagem quero passar"
Apenas palavras escritas, sem voz
Traduzidas noutros lugares
"Tenho quatro pedidos para vós
Prometo que não vou voltar"
Inquietas e curiosas também
As pessoas esperam para se entregar
"Como era o colo da vossa Mãe?
E o olhar terno do vosso Pai?"
O espetáculo começou então,
Companhia do Silêncio no ar
Uma sala cheia de emoção
O tempo, ocupado, a voar
"Agora o desafio é exigente
Podem-se até levantar
Com a vossa música preferida em mente
Façam o favor de dançar"
Jornalistas descreveram depois
Que ali aconteceu algo invulgar
Sozinhos ou a dois
A dança aconteceu, sem som: "Espetacular!"
Começava-se a perceber
O que este homem queria mostrar
Porque andava a percorrer
O mundo que ia abandonar
Sem vídeos ou aplicações
O mundo continuava a girar
E juntos, os nossos corações
Tinham tanto, em silêncio, para dar
"Apenas com o toque ou o olhar,
as palavras que nunca disseram
A alguém nesse lugar
Ou outro alguém que já perderam"
Lágrimas foram atrizes principais
Sorrisos e abraços, secundários
O que está para vir mais?!
Tantas experiências num só cenário
"Por último, cruzem os dois braços
Num abraço que nunca se dá
Sinta-se, cada um, acarinhado
E abracem depois quem cá está."
Timidez, conforto, comunicação
Encheram o Centro Cultural
E também esta multidão
Lembrou o amor não verbal
O homem saiu de cena
Com aquela música de fundo
O silêncio retirava-se, em vénia
E ouviu-se o maior aplauso do mundo...
Não havia mensagem final
Nem palavras para o evento do cartaz
Todos se dirigiram à saída
Com uma estranha sensação de paz...
Ficava a lição de alguém vivido
Um novo significado para "silêncio"
Que se pode encher de sentido
Num mundo que parece sem tempo.
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