sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os braços do sofá

O tempo passou e o nosso filho, que há oito anos estava prestes a nascer, já ocupa o sofá todo...

Desde que soube que ia ser mãe pela segunda vez, tive que educar um novo sentimento: amar dois, podendo fazer sofrer um, o do sofá.

Tentámos envolvê-lo nas escolhas do nome, nas compras para o bebé que lá vinha. Tentei ler e seguir dicas como: recebê-lo de braços livres na primeira visita à mana, no hospital. Deixá-lo ser ele a fazer a visita guiada a nossa casa, quando entrámos pela primeira vez, os 4.

Mas depois chegou aquele sentimento de culpa e começou a dificuldade em gerir o amor pelo primeiro e a defesa + amor pela segunda. Era preciso aceitar os ciúmes, respeitar ... Mas ao mesmo tempo o instinto maternal dizia-me que aquele abraço era apertado demais para uma bebé de 3 kg e aqueles apertos podiam magoar, apesar de ser uma nova e bela forma de amar: a dos manos.

Hoje são mais crescidos. Ela já se defende dos mesmos apertos, retribui os abraços e ele já percebe que o espaço foi dividido e que tem novos problemas, mas novos carinhos bons também!

"A vida é assim, passamos todos por isto", repito infinitas vezes a mim mesma, quando no fundo sofro por ser injusta com ele...

... Ele, que me fez conhecer o que é ser Mãe. Ele, que se encostou ao meu peito pela primeira vez e se alimentou do meu amor, durante meses e, com ele, cresceu. Ele, que me fez perceber o incrível que é sentir um pontapé dentro da nossa barriga. Ele, que me fez querer escrever histórias para crianças, tal como escrevi poemas e músicas para o pai. Foi ele que me fez ouvir pela primeira vez a expressão "Mamã" e me abraçou tantas vezes à porta da escola, com uma cola que eu não queria descolar.

O meu Luquinhas perdeu um bocadinho da mãe, apesar de ter ganho uma mana maravilhosa. Ainda bem que isto é um cantinho, porque não conseguia dizê-lo em voz alta. Custa tanto. Eles crescem, rapazes grandes (muito mais pequenos do que nós achamos), já respondem mal, têm ciúmes e expressam-nos da forma mais infantil e tonta... mas eles são infantis e só se sabem expressar assim...

E nós, em vez de termos cabeça para a parentalidade positiva dos workshops que se multiplicam no Facebook, pomos muitas vezes o cansaço à frente e fazemos figuras parvas, daquelas que não sabíamos que iríamos fazer, quando tínhamos 20 anos e acordávamos às 11h...

Gritamos com quem mais amamos e ficamos cansados daqueles gemidos e birras. Eu adorava saber ter mais calma, contar até 10 mais vezes, desligar o fogão para abraçar, brincar, saber gerir, ouvir o porquê de tudo e compreender...

Por mais que passe o tempo, queria sempre fazer melhor com os meus filhos: uma que quer crescer com a atenção de todos e ele, que quer continuar a crescer com a atenção de todos, os que estavam cá antes dela.

Ele, que ocupa já todo o sofá, que já tem as pernas musculadas e rijas, está quase a fazer oito anos e eu, por detrás do "despacha-te", "não faças isso", "não fales assim", "não lhe chames nomes que ela é pequenina", "cuidado", estou a tentar gritar baixinho, só para ele ouvir, o quanto a minha vida ficou melhor desde que ele existe, o quanto o acho meigo, bom ser humano, divertido, organizado, lindo e o melhor filho do mundo. Queria ter os braços do sofá para te agarrar todinho e dizer-te mais vezes o quanto gosto de ti.




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