segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Companhia do Silêncio

Chegaram às paredes das ruas
Os cartazes de um novo evento
Poucas cores, poucas palavras
Sábado à noite, para toda a gente

Burburinho, conversas de café
Curiosidade da boa e da má
De que se trata afinal? O que é?!
Na dúvida, sendo grátis, vamos lá!

Hora antes, na porta do Centro Cultural
Misturados: jovens, casais e bengalas
Vizinhos, amigos, tudo igual:
Ninguém sabia se desilusão, se palmas

Fecham-se luzes e vai começar
Silêncio! Vozes baixas... Uma luz
Corações ouviam-se a palpitar
Duas rodas, uma cadeira, um capuz

Desinteressante: à partida só um homem
Nem dança, nem filme, nem canção
Uma frase: "Boa noite, espero que gostem"
Num slide projetado em fundo carvão

Homem velho e cansado, pela postura
Sem microfone nem roupa brilhante
Mais um slide: "Não é cultura...
são momentos de silêncio, só instantes"

O público entrega-se, com empatia
E o silêncio começa a atuar:
"Viajo há um ano pelo mundo
Uma mensagem quero passar"

Apenas palavras escritas, sem voz
Traduzidas noutros lugares
"Tenho quatro pedidos para vós
Prometo que não vou voltar"

Inquietas e curiosas também
As pessoas esperam para se entregar
"Como era o colo da vossa Mãe?
E o olhar terno do vosso Pai?"

O espetáculo começou então,
Companhia do Silêncio no ar
Uma sala cheia de emoção
O tempo, ocupado, a voar

"Agora o desafio é exigente
Podem-se até levantar
Com a vossa música preferida em mente
Façam o favor de dançar"

Jornalistas descreveram depois
Que ali aconteceu algo invulgar
Sozinhos ou a dois
A dança aconteceu, sem som: "Espetacular!"

Começava-se a perceber
O que este homem queria mostrar
Porque andava a percorrer
O mundo que ia abandonar

Sem vídeos ou aplicações
O mundo continuava a girar
E juntos, os nossos corações
Tinham tanto, em silêncio, para dar

"Apenas com o toque ou o olhar,
as palavras que nunca disseram
A alguém nesse lugar
Ou outro alguém que já perderam"

Lágrimas foram atrizes principais
Sorrisos e abraços, secundários
O que está para vir mais?!
Tantas experiências num só cenário

"Por último, cruzem os dois braços
Num abraço que nunca se dá
Sinta-se, cada um, acarinhado
E abracem depois quem cá está."

Timidez, conforto, comunicação
Encheram o Centro Cultural
E também esta multidão
Lembrou o amor não verbal

O homem saiu de cena
Com aquela música de fundo
O silêncio retirava-se, em vénia
E ouviu-se o maior aplauso do mundo...

Não havia mensagem final
Nem palavras para o evento do cartaz
Todos se dirigiram à saída
Com uma estranha sensação de paz...

Ficava a lição de alguém vivido
Um novo significado para "silêncio"
Que se pode encher de sentido
Num mundo que parece sem tempo.













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