quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A felicidade da roupa velha

Ir para lá sempre significou muita coisa boa para mim. É a "terra" para onde íamos em pequenos na Páscoa, no Natal e em muitos outros fins-de-semana. A "Casa da Avó", como tão bem esculpiu o Tio Mário na pedra da entrada, onde nasceram e cresceram 13 irmãos de quem gosto muito e onde se sente que aconteceu muita felicidade durante muitos anos.

Na nossa geração de filhos e primos, esta felicidade ainda cresce ali, acredito que para sempre.

São muitas as memórias que temos todos, suportadas por fotografias antigas, com aquelas bolhas de humidade e cores "vintage", mas dos anos, não de filtros de aplicações...

Quis o destino que esta "terra" passasse a ser estendida ao quilómetro seguinte e associada à "terra" da cara metade... o espaço passou a ser um só, ainda mais especial. As nossas mães são dali e nós dali nos sentimos. Agora cruzamos memórias e, para cada um, a mesma oliveira conta histórias diferentes, numa mesma história.

Para ele, a terra significa cabanas, a casa da (eterna) Avó Bina, os mistérios, as aventuras, as bicicletas, os jogos de futebol com o Tio Manuel. E muito mais de bom, que ainda hoje lhe faz brilhar os olhos...

Para mim, as noites de Verão na varanda mais bonita do mundo, com estrelas que pareciam só nossas.... Para mim, os irmãos, a Mãe, o Pai, a Avó Conceição, as tias a saltar à corda, os banhos de alguidar, os mergulhos no rio, os pratos antigos onde comíamos papa de cerelac. Para mim, as saídas de manhã com mochilas e fruta, em busca de passeios e emoções que só o campo tornava possível! Para mim, a estrada de terra onde aprendi a andar de bicicleta... até parece que ainda sinto as mãos do meu Pai a segurarem-me, cada vez menos, para eu poder seguir caminho. E segui...

Para ambos, as festas de verão, as rifas, a roda dos rebuçados "bolas de neve", o baile onde nos ríamos e fazíamos amigos novos... entre os quais ele, que se tornou o meu verdadeiro par e o Pai do Lucas e da Inês, verdadeiros frutos da terra.

Agora são eles a gozar aquilo que a terra lhes dá. São eles a viver a felicidade do campo, da família e da roupa velha.
A felicidade que só se sente quando vestimos aquela roupa, como se fôssemos para um casamento entre terra, corridas, risos e laranjas.
As roupas que lá ficavam, as velhas que não se vestiam para mais nada. Roupas grandes, pequenas, feias, mas que serviam para ali. Nas fotos, percebe-se o que simbolizam estas roupas. Parecíamos índios, estávamos felizes. E aprendemos tão bem a viver assim, ali!

Hoje, quando levamos os nossos filhos à terra, revejo o efeito da roupa velha, como se de um feitiço se tratasse.
Quando entram em Casa da Avó, o ato de tirar sapatos lavados e novos, calçar botins (onde já couberam os nossos pés), por o boné mais próximo do tamanho da nossa cabeça (cada um de seu estilo), faz-me sentir que estou a fechar os olhos e a fazer uma viagem no tempo. Vão eles e nós.
Quando vestimos a roupa velha, somos do campo, trepamos as oliveiras, as laranjeiras, saltamos à corda, brincamos com paus, comemos fruta das árvores, ficamos com as unhas e a boca sujas, o cabelo despenteado e a cara vermelha. Vivemos e rimos.

Quando vestem a roupa velha, os nossos filhos ficam mais lindos que nunca e a minha felicidade é do tamanho do céu e das estrelas que são só nossas, ali...