Não há um ano que seja mais fácil que o anterior...
Dói sempre e muito. E começo a antecipar essa dor dias antes. Sinto uma espécie de raiva misturada com tristeza e com inveja.
Esta dor de perda de uma pessoa tão importante quanto o nosso pai é grande e teima em ser grande. E sobretudo quando, em alguma situação, nos pedem o nome ou dado e nós temos que dizer que já morreu. Até parece que não tenho Pai. Quando morre uma pessoa tão nossa, ela é igualmente nossa para sempre. Eu tenho Pai e os meus irmãos também, a minha mãe tem marido e os nossos filhos sempre terão avô. Faço questão que o saibam. Têm 2 avôs. Não é justo para ninguém que a sua presença e vida desapareçam só porque morrem.
Ele continua aqui. Ele esteve comigo no lançamento do meu livro. E deu-me os parabéns, até lhe brilharam os olhos, que eu vi... Ele está connosco neste ano duro de distâncias em que estamos todos longe uns dos outros, não só dele.
O toque das suas camisolas está nos meus dedos. O cheiro do perfume dele é o das memórias. A mão perfeita dele está na nossa pele. O cabelo macio e grisalho igualmente. E o olhar parecido com o meu, está aqui bem dentro de mim.
Vivo há 43 anos, 24 sem ele ao vivo, mas são 43 anos com ele e serão os próximos até nos juntarmos de novo. Sempre que os meus filhos oferecem a prenda da escola ao Vasco neste dia especical, lá estou eu ao lado, pequenina a oferecer a minha ao meu Pai...
Sempre que dançamos juntos aqui em casa e eles olham para o Pai com um amor que dão como garantido e presente, eu estou lá a dançar com o meu, o melhor dançarino de todos.
Sempre que almoçamos em família (já somos 12!) e eu conto os talheres para a mesa, os dele vão invisíveis. Saudades de quando eram sempre 5 facas e 5 garfos e uma mesa de família...
Sempre que vejo filmes com os meus filhos no sofá e os tenho encostados a mim, estou ao lado dele, pequena, de mão dada, a mexer nas pontas dos dedos dele, no nosso sofá.
Sempre que estou no mar a brincar com os meus filhos lembro-me dele nos ensinar a nadar. Sempre que andamos de bicicleta naquela rua de nossa casa em Montalegre, a mão dele está nas minhas costas a empurrar e a largar para eu seguir sozinha...
Nunca seguirei sozinha, Pai. Não só porque tenho uma mãe incrível, os melhores irmãos mas, sobretudo, porque estás comigo... quando tenho que tomar decisões difíceis, quando festejo algo muito bom, quando percebo que nunca mais serei totalmente feliz, quando os meus filhos olham para mim com a mesma expressão que tu vias na tua filha do meio. Devia ser proibido perdemos pessoas tão queridas tão cedo, não é?
Fazes tanta falta. Fingimos que sabemos viver assim e que a vida nos vai adaptando, mas é mentira. Confirmo-o nos olhos da mãe, da Catarina, do Bernardo e da avó.
O dia do Pai já não é feliz, isso garanto, nunca mais será, mas tento que os restantes o sejam, no espaço que tenho possível para encaixar felicidade. Faltam poucos dias e já estou zangada, mas fico também feliz por todos os que possam abraçar os seus pais, falar com eles, aproveitarem o seu cheiro e a sua voz, como é o caso dos meus filhos. Aproveitem bem.
Encontrámos uns vídeos da nossa infância há pouco tempo e pude, finalmente, apresentar-te aos meus filhos e ao Vasco, com mais vida e detalhe. Foi incrível. Esta imagem é de um dos vídeos que temos, no Algarve.
Saudades de te abraçar e de estar ao teu colo, Pai.