sexta-feira, 12 de abril de 2019

São Tomé - Dicas para pais poupados e aventureiros

Viajar é maravilhoso mas é também uma dor assumir isto quando temos dois filhos que ainda não nos acompanham. Tentamos viajar os dois quase todos os anos. A regra é tentar gastar pouco em dinheiro e em dias de férias. Por isso, mesmo para destinos mais ambiciosos,como foram o Rio de Janeiro e São Tomé, existe uma ginástica gigante para procurar o mais barato e não deixar de fazer uma boa (mas curta) viagem.

São Tomé foi sem dúvida das viagens mais bonitas e especiais que fiz. O Vasco iria dizer o mesmo, estou certa. É intenso, gera debate, são realidades mais delicadas mas, talvez por isso, a vivência é muito bonita e consome-nos por inteiro.

Deixo dicas para quem quiser e puder ir a São Tomé:

VOO: decidi que só iria se encontrasse voos baratos. E assim foi. Pesquiso em dezenas de sites sempre que quero comprar um voo. Este comprei em novembro e ficou perto dos 375 eur por pessoa, ida e volta, um valor muito bom para este destino. Comprei na Mytrip.com. Consegui comprar sem custos de marcação de lugar nem custos pelo modo de pagamento. E fomos apenas com bagagem de mão (10 kg). Por norma compramos os voos em novembro para ir em março. Depois de vermos os preços para a ilha do Príncipe, decidimos não ir (entre 220 e 400 eur pelos dois - caro para o nosso budget) também porque iam ser apenas 5 dias.

PREPARAÇÃO - ANTES DE VIAJAR:
- Saúde: este tipo de destinos exige cuidado por causa dos riscos de doenças. Há discussão sobre isto, porque pode ser exagerado o "medo" que criam no viajante, mas como temos filhos e sou asmática, não arriscamos muito. Assim, depois de falarmos com o médico de família e uma médica com experiência na consulta do viajante, fizemos a vacina da Hepatite A e Febre Tifóide. Foi preciso receita do médico e toma um mês antes da partida. Para isso, fomos ao Centro de Saúde de Sete Rios, bastou ir cedo em dia de semana. Já tínhamos levado a da Febre Amarela (também importante), que é vitalícia. Depois foi preciso tomar (comprimidos com receita) a profilaxia da Malária. Há quem diga que não faz nada e até tem efeitos secundários maus, mas fizemos e nada aconteceu. São comprimidos que têm que se tomar 24h antes de ir, tomar durante a viagem (um por dia após refeição) e depois, alguns dias após chegada (não me lembro acho que são mais 7 dias). São caros estes comprimidos (34 eur a caixa).

Essencial levar repelente bom para evitar picadas que podem provocar a Malária ou outras doenças (colocado por cima do protetor solar) e mosquiteiro. O ar condicionado no quarto, quando abaixo dos 19 graus, ajuda a matar os mosquitos.
Para além destes cuidados levámos: ultralevur, antibiótico para o caso de termos febre (aconteceu), paracetamol, os comprimidos da malária - Malarone e termómetro.

- Mala: quem quiser levar bens para doar deve contar com espaço, sobretudo se apenas leva bagagem de mão. No nosso caso foram livros educativos, roupa de criança, pastas de dentes (amostras oferecidas por uma farmácia, pois li que era uma necessidade lá), blocos e canetas. Depois o desafio foi colocar a nossa roupa, mas como o calor lá era grande, não foi preciso muito espaço. Para poupar no peso, levar apenas uns ténis, blusão e umas calças que vão logo vestidos no voo de ida e volta, ajuda para não "pesar" na bagagem. Convém levar os ténis para o caso de se quererem fazer caminhadas pela floresta. Levar gel de banho e champô (só levei uma amostra e estive 4 dias a lavar o cabelo com gel das mãos). Não esquecer que os líquidos não podem exceder os 100 ml. Importante ter o passaporte e o cartão de cidadão dentro da validade.

- ESPÍRITO LEVE E ESTOFO: "África" (falo dos países de língua portuguesa que melhor conheço, pois África é gigante e tem inúmeras realidades).... não é um planeta à parte. As pessoas são pessoas e os problemas também os conhecemos. Eu acho que ir de espírito aberto e com poucas esquisitices, ajuda. Ler alguma coisa antes também ajuda.

Sabíamos que era um país de boa gente, super seguro. E durante os 5 dias que lá estivemos não nos inibimos de fazer nada. Andámos pelas ruas, pelos mercados, pelo meio das aldeias e falámos com quem falava connosco. Claro que correu bem, porque havia de correr mal? Depois do Rio de Janeiro, tudo é tranquilo:)
O "estofo" tem a ver com algumas cenas de pobreza mais delicadas sobretudo para pais sensíveis.

São Tomé é muito mais que pobreza e problemas sociais. Há paz e as pessoas são um exemplo de sabedoria, respeito e "história bem resolvida", aspetos que admirei.

"Estofo" também para gerimos as saudades dos nossos filhos. Inspirar três vezes e dizer "eles um dia vão perceber", porque custa sempre deixar os filhos.

Enfim, foram dias felizes, sobretudo! Passaram três semanas e já tenho tantas saudades de São Tomé.

- CHEGADA: o voo de ida/ volta demora perto de 8h e inclui escala no Gana (apenas para troca de passageiros, sem saída do avião). A hora é a mesma que cá. Quando aterrámos em São Tomé o coração já estava de braços abertos. Sair pela porta e sentir aquele calor, aquela humidade e sorrir.... Aeroporto minúsculo, verde por todo o lado e felicidade na cara dos dois.

- ONDE FICAR: nós marcámos apenas uma noite com mais antecedência (no centro da cidade de São Tomé - Sweet Guest House), mesmo no meio da cidade (zona mais pobre, pareceu-me) e junto ao mercado. Na véspera de irmos, marcámos as duas últimas noites na Roça de São João dos Angolares, a do chefe João Silva (programa da RTP "Na roça com os tachos" para quem se lembrar.) O primeiro local onde ficámos parecia muito recente, tudo impecável, ar condicionado, mas muito simples e com WC partilhada. Se voltasse lá ficava lá, porque as pessoas que nos atenderam eram incríveis e muito profissionais. O pequeno almoço muito bom e a localização no centro da "realidade africana" fez-me sentir bem e lembrar de Cabo Verde. Bastava irmos à janela para vermos crianças a brincar, a ir para a escola, a estender roupa, a tomar conta dos irmãos e a ir buscar água ao depósito para levar para dentro de casa. Estive muito tempo à janela... Há qualquer coisa de bonito nisto tudo, que me faz sentir em casa. (Com o devido respeito pelas condições que são bem diferentes daquelas em que estávamos).
Decidimos ficar neste sítio a segunda noite. Marcámos depois no booking um segundo alojamento, pequeno mas também com um aspeto novo e a caminho do sul, onde queríamos ir. Este tinha uma mini-piscina com uma vista maravilhosa - Domus Guest House. Todos os sítios onde ficámos tinham aspetos bons e maus. O mais especial foi a Roça. Que paraíso......

- ONDE IR:
Levámos dicas de 3 pessoas conhecidas que tinham ido a São Tomé, para não nos escaparem os melhores sítios...
         - Cidade São Tomé: Sabíamos que às quintas-feiras havia um jantar com música e dança no Cacau, Casa de Artes. Marquei pelo Facebook e como chegámos na quinta-feira pelas 18h, começámos logo bem a estadia. Foi maravilhoso... mas programa para turista. Comemos super bem, vimos uma exposição muito bonita e dançámos, claro.
Estar num país que fica longe mas que fala a nossa língua é muito especial. Chegou a emocionar quando cantámos todos juntos "os meninos à volta da fogueira"...
No 2º dia, às 6h da manhã já estava à janela. A luz do dia deixa-nos ver mais coisas. Estava tanto calor... Saímos cedo e, num cenário de realidade não turística, caminhámos pela primeira vez pelas ruas, pelas pessoas, pelos cheiros, pelo fumo das motos, pelo mercado intenso de comida e moscas e pela beira-mar. Os nossos olhos queriam captar tudo. Andámos, andámos, conversámos, fotografámos e deixámo-nos ir...

Almoçámos no Papa Figo (já tínhamos referências) e gostámos bastante da comida (peixe...) e do espaço, típico dali.
Casa de Artes - Cacau


Casa de Artes - Cacau

Vista da Sweet Guest House

Vista da Sweet Guest House

Descobrimos ao lado, um restaurante onde fomos no último dia, o Ilangue Ilangue, de uma senhora angolana+portuguesa, que fazia uma sopa deliciosa e tinha muitos sinais de Portugal como os pastéis de nata, merendas mistas, tostas e a novela portuguesa na TV. Um espaço recente, muito simpático, onde trocámos contactos e causas comuns com a Sofia...

À tarde, molhámos os pés no mar quente e andámos novamente pela cidade, até à Fábrica de Chocolate "Cláudio Corallo", onde vivemos um momento bonito e degustámos diferentes chocolates e provámos as sementes do cacau, torradas. Um grupo de turistas descalços (obrigatório no local), a sentir sabores bons e a ouvir uma história de amor e guerra que nos inspirou...
Mercado Velho

Mercado Velho 
Mercado na rua


Sweet Guest House

Fábrica de cacau 

Sweet dreams...

À janela...


No regresso à "Sweet" parámos na esteticista Bibi, onde pintei as unhas, e onde ficámos um bocado a conversar sobre o Congo, as praias, os filhos, Portugal, etc. Não tínhamos sítio para jantar e aceitámos a dica do Abdel, da receção: ir à Dona Té-Té. Lá fomos...

No meio de um bairro, lá estava uma grande casa com um jardim onde alguns turistas se deliciavam a comer o peixe com sabor a limão e a aproveitar a simpatia da Dona Té-té. Santolas passeavam pelo chão, cheirava bem e as sobremesas eram uma delícia... até vir um vendaval que a Dona Té-té antecipou e que nos fez a todos levantar e ajudar a recolher toalhas, cadeiras, mesas, em menos de 10 minutos, para uma zona mais protegida. Choveu muito e o gelo quebrou-se entre todos, incluindo outros portugueses que lá estavam. Já nos ríamos a ver os clientes em cima do muro a pendurar plásticos e a ajudar a Dona Té-Té que parecia uma avó querida.
Comemos sempre bem, sempre peixe. Fomos sempre muito bem recebidos em todos os lugares. Aqui não foi diferente.

- Lagoa Azul e Norte: depois de muito analisarmos, decidimos ir de táxi ao norte na manhã seguinte (3º dia). Pareceu-nos que a empresa Ponta de Ouro era séria nos preços e escolhemos um dos seus carros. Correu bem, mas foi caro, como qualquer deslocação na ilha, para turistas.

Como é intenso e há muito para escrever...
... continua...