terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O talho e o poder das mulheres

Estou há muito tempo para escrever sobre este tema e tenho mesmo que o fazer porque, com o tempo, vou deixando de ir ao talho, o que é uma pena. Na verdade, isto aplica-se também a uma peixaria ou a um homem, embora não seja igual...

Sempre que vou ao talho, aprecio mais a forma como uma senhora/ cliente se comporta no talho, do que os rolos diversos e bonitos de carnes, as espetadas todas arrumadinhas, do mesmo tamanho....

Aprecio verdadeiramente aquele momento em que a senha da senhora é chamada: "63!!" diz o homem másculo, de meia idade, com um ar sério e uma luva de rede de aço... qual Rui Patrício!

E lá começa: "Olhe ... (pausa, para observar bem a montra) queria aí umas 8 febras!".

Até aqui tudo orientado. Mas o que eu adoro é ver como um momento destes deixa a mulher (atrevo-me a dizer - a todas nós) confiante ... Ter um homem ali a servir-nos e a fazer (tudo) o que queremos não é todos os dias... E esse prazer nota-se no tempo que usufruímos daquele momento no talho e como o conseguimos tornar complexo...  "Olhe... espere ... não, ponha-me antes 10 que o meu cunhado vai lá no sábado e já sei como é que ele é!"...

O talhante obedece e corta com uma arte rara, as febras da senhora, que olha para ele com um ar seguro, de queixo sempre ligeiramente levantado e os braços cruzados: na mão esquerda tem as chaves, e na direita um saco de plástico dobradinho e o porta moedas pequeno. Parece que dá ares ao Ronaldo quando se prepara para rematar.
Também há aquelas que preferem as mãos atrás das costas, como os árbitros antes do jogo começar! (Sempre com as chaves e o saco e o porta moedas pequeno...)

Há mais pedidos... "O que é que tem hoje para assar!?" ... "Este acém chegou hoje e é bem bom!", responde o senhor.
"Então olhe (ele está a olhar) ...  dê-me aí quilo e meio!"... O queixo levanta mais, porque tem que haver algum controlo da cliente na peça escolhida... "Escolha-me essa da direita, que afinal podem ser 2 quilinhos!" (que é para não te esqueceres de quem é que manda aqui!)

Siga, que há clientes à espera...

(Quem é que não gosta de ver a forma como os talhantes pegam na carne!? E quando fatiam!?)

Depois vai ao perú... Parece haver uma sensação de poder que há que gozar: "queria 6 bifinhos mais para o fino e aí meio quilito para strogonoff... " Aqui a mão esquerda, a das chaves, sai debaixo do braço direito e baixa ligeiramente os óculos, enquanto a sobrancelha sobe ao máximo, porque os bifes têm que ser mesmo fininhos... "Olhe que o meu Orlando gosta deles mesmo fininhos para por no pão, veja lá!!" Os óculos regressam ao sítio, a mão e as chaves também.

As clientes ao lado, começam a torcer para que esta não seja a compra do mês...

"Queria só mais dois franguinhos: uma cortado para fazer no forno com chouricinho, e outro do campo, dos maiores, para congelar! Talvez ainda faça uma canja!"...

"Mas quer levar o chouriço também?" pergunta, submisso, o homem. "Não!!" (que disparate!)

E parece que vai terminar o pedido, quando o senhor arruma os sacos da carne dentro de outro saco verde e tira o talão daquela balança..... Não, esperem, ainda há um resto guardado: "olhe, dê-me
aquelas duas farinheirazitas que estão ali..."
E como é o último pedido e é preciso aproveitar, aproveita-se ..."não são essas... não... essa é muito grande...não... (a sério !?!?) Sim, essas!!! Desculpe lá, mas eu gosto tanto com ovinhos mexidos e, olhe, uma vez não são vezes!!"..

É mais ou menos isto que capto do talho, e acho tão sociologicamente interessante !
E o mais curioso (ou irritante) é que este ritual de poder parece contagioso porque, mesmo que eu não queira, faço um pouco o mesmo. Será uma sensação de poder sobre aquele homem abrutalhado que está ali a servir-nos tão dedicada e pacientemente?
Eu, na verdade, acho que ainda não sou vegetariana porque este é um prazer que não quero perder!



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Organizando o coração

Ser Mãe é ter o coração a transbordar, e organizações diárias, para sempre.

O coração transborda tanto de amor como de novos sofrimentos e preocupações.

Ele transborda, logo para começar, na gravidez e parto. 
Transborda depois diariamente de ternura, novas palavras e expressões, abraços de braços pequeninos que sabem a um monte de chantilly gigante! 

O coração enche-se de olhares puros, de partilhas ultra valiosas, de toque bom entre pele que é toda nossa, de etapas bem sucedidas, de emoções novas e desconhecidas, de lágrimas de amor, dos sorrisos mais doces!

Ele transborda também de sofrimentos novos. Ai quando eles caiem, ou parece que vão cair! Quando começam a correr para a estrada, sem olhar... ai!! Quando deixamos de os ver, quando não respondem, quando o médico faz pausas para nos dar feedback sobre aqueles sintomas que nos doem também a nós. As dores do que está para vir, do crescer, do futuro, do mundo duvidoso que parece não evoluir... 

O coração da Mãe é um coração inevitavelmente gigante, feliz e apertado… sempre.

Agora a organização, e a falta dela, as novas e muitas rotinas e os braços, a memória e o cérebro, que parecem não chegar… 

As gavetas e caixas que nunca são suficientes (roupa e brinquedos num constante milagre da multiplicação!), parecem ter vida própria e mais dinâmica que eu durante aquela hora da manhã quando nos preparamos para sair, os 4.

São vários níveis e tipos de organização que temos que conseguir gerir, felizmente a dois. 

Conjugar dias de consultas, nomes de médicos, reuniões na escola, decorar os dias de pagar excursões, dias de lavar a bata e lençóis, assinar autorizações, pedir dietas, pedir ganchos, levar fraldas, dodots, ou fraldas e dodots. 

Dias de constipações, de frio e de calor. Dias de pagar à Nossa Senhora da Limpeza (uma santa, entenda-se), de pagar tudo o resto que também se multiplica miraculosamente, dia de anotar algures na memória que sobra, o que falta no frigorífico, casa-de-banho, o que falta nas “vivas gavetas”. 

Acabou-se o champô deles e o meu amaciador ("regista!" digo eu para mim), a pasta de dentes está quase, os ténis dele estão a ficar pequenos, ela não tem luvas para este frio, falta fruta e mais fruta, o detergente da máquina da roupa está nas últimas, já não o posso ver com aquele casaco... 

E, chato, nunca nos sentimos organizadas nem a cumprir o desafio. Não há chegada à meta nem bola verde para o nosso comportamento.   

E porque as Mães trabalham noutro local - também, os desafios ainda vão a meio: falta gerir projetos, equipas, decisões, planos, orçamentos, estratégias, horários, emoções e objetivos e tudo e mais alguma coisa que tenho que fazer … porque também me enche o coração.

Respeito as Mães. Não sabia que era esta a velocidade a que se “andava”!!!

Continua... O jantar para hoje?! Tenho que fazer comida saudável, variar, equilibrar o bom e o gostoso e gozar o momento à mesa, onde gostamos de conversar, ouvir música e disparatar. À mesa preciso de olhar para os 3 por um bocado e preciso de confirmar que está tudo com boa cor e o trabalho tem sido bem feito. 

Depois (energia precisa-se!) brincamos, acarinhamos, ouvimos, ensinamos e aprendemos ... porque afinal é por isso que somos Pais. Tentamos sorrir quando o cansaço aperta e temos que organizar ficheiros "pijama", "dentes", "chichi", "soro+assoar", "história" e "beijinho+música".

Objetivo: sentar no sofá 30 minutos antes de deixar cair a cabeça para a esquerda, sem lá estar nenhuma almofada para amparar. Isto porque antes aconteceu um semestre de coisas, num dia só. 

E à noite? Parece que tudo acaba... Não. Mas não entrarei em detalhe.

E tudo isto acelera quando há febres, tosses e noites menos boas, em dose dupla. Quando eu deixo de ser eu e o coração se desorganiza. Quando eu tenho menos vontade de brincar, de rir, de cozinhar, de gerir, de planear. Quando ralho mais do que falo, já nem a mim posso ouvir, e esta energia se contagia em casa... Não tenho tempo nem espaço para fazer as minhas birras e chorar, sinto-me sempre a queixar, respondo mal, estou irritada. Sou eu, mas não sou eu. “Não tenho que ser perfeita”, “faz parte”, “pede ajuda” existem na minha mente mas não resolvem tudo…
E neste andamento tenho que manter a máquina a funcionar (quase) igual, ter boa cara, acalmar os filhos, dar colo, lembrar horários de toma de remédios e ao mesmo tempo a lista para o supermercado, etc etc. 

(Desabafo concluído: Obrigada:)

O que me apetece dizer a Mães sozinhas ou Mães de 3, 4 ou mais: Palmas! Incrível!!!!!!!!!!!!!!!

E a quem quer ser Mãe: Ainda assim é, sem dúvida, a melhor coisa do mundo e preparem o coração, pois ainda está por organizar <3