quarta-feira, 12 de maio de 2021

Esperem um pouco

Mãe é aquela viagem que já, por várias vezes, descrevi aqui. Intensa, bonita, mágica.

Mergulhamos, logo na barriga grande, num oceano de emoções, aventuras, dúvidas, sacrifícios.

Os nossos dias passam a ser recheados por um amor de veludo, olhares milionários, descobertas dignas de carimbo no nosso passaporte de pessoa e mulher.

"Espera, já vou. Oh mãe, vá lá!!! Só mais um bocadinho!!! Quero colo. A mãããeeee. Mããeeeeeee!" são a banda sonora dos primeiros anos de maternidade (vezes o número de filhos).

Quando termina o colo diário, as fraldas, as chuchas, a dependência, vêm outras coisas bonitas da viagem de mãe mas também de pessoa, no singular. 

E vem, claro, o cão (estamos nessa fase).

E, eu em particular, sinto-me nesta fase de precisar de espaço, sobretudo depois de uma pandemia sufocante. Sinto que abri agora a porta do "agora esperem um pouco, preciso de um bocadinho, vocês conseguem". 

Os 15 meses de pandemia que já somamos, o tempo de família intenso e (muitas vezes) bom, o espaço reduzido para multiplicar tarefas infinitas (para além do sofrimento, ansiedade, preocupações) atingiram o momento de "ok, compensei um vazio de culpa por não estar com eles, estivemos juntos no ano mais importante para tal, já paguei as minhas dívidas, esgotei o medo e agora... vamos todos respirar"... 

Sabemos que distanciar para valorizar, manter o espaço pessoal são coisas importantes para a saúde familiar e mental de cada um. Depois deste carrossel covidiano, sinto que é tempo de recuperarmos o que é só nosso, nós e eles. (Também sentem?) 

E não é sair do pé deles, nem ir viajar um mês sozinha que penso fazer. É só e simplesmente mudar o chip, abrir novas janelas para respirar outro ar. Criar outras expectativas e adaptar-me à sua (também) independência, deixando-os também crescer e aproveitar o "além-pais".

Agora é tempo de "Esperem um pouco...

... Que a mãe precisa de novas playlist e de cantar alto abanando a cabeça de olhos fechados como na viagem de finalistas

... Que a mãe inchou um pouco por causa da casa onde viveram 9+9 meses, e das comidas que acalmavam a culpa e os receios, e por isso precisa de foco, de respeito por este imóvel que se quer mexer

... Que há massagens que querem ser feitas em horas de mimo e silêncio, fora de casa, numa sala com cheiros tranquilos e onde tudo está arrumado

... Que há programas em ecrãs que quero ver no horário dos desenhos animados e me preenchem enquanto indivíduo que sonha em horário de expediente

... Que há flexões que estavam na fila e desafios físicos que têm que ser superados. Sim, na sala, online, podem fazer também 

... Que há concertos, petiscos e amigos que estão na agenda congelada de 2020 e querem regressar

... Que vos adoro mais que tudo, mas não serei melhor mãe se não voar ao meu ritmo e limpar a poeira mental que vai ficando, trazendo depois para aqui essa leveza traduzida em paciência, paz e tranquilidade (que a pandemia levou sem avisar)."

O sol, o avistar das férias, o regressar aos amigos devagar, a data da vacina que há-de chegar, somando a toda esta sensação, trazem uma estranha felicidade que temos que agarrar, que sabe a vitória, a liberdade, a espaço para recarregarmos as baterias tão gastas que não podem esperar mais...