Hoje escrevo sobre mudanças.
Hoje é o último dia de trabalho no sítio onde estive 10 anos.
Escolhi sair e estou feliz com a decisão.
Mas o desconhecido e o risco não me deixam respirar igual, durante estes dias.
É preciso arrumar a secretária onde tinha fotos dos filhos, papelada com muito amarelo, passwords, contactos, o meu copo de canetas com autocolante velho, a desarrumação que me caracteriza, e o painel... O painel atrás de mim cheio de recordações, mimos, fotografias de pessoas felizes, recados queridos, materiais de trabalho também amarelos. Ali trabalhei, ri, chorei, tive boas e más notícias, enfrentei desafios que me custaram, irritei-me e festejei.
Depois (e em primeiro lugar) as pessoas. Algumas que estão também comigo há dez anos, outras que já estavam há outros dez e muitas que chegam depois e felizmente ficam.
A minha equipa, o DAF. Os meus que serão sempre os meus...
As nossas horas de almoço familiares com todos. À volta da mesa grande do open space, almoçámos tantas vezes mais de 12 pessoas. Aquecíamos comida na cozinha ou íamos buscar almoço ao Recife ou Brasília e depois ríamos da forma mais tonta possível!! Mesmo que estivéssemos todos chateados e cansados com trabalho... Partilhamos, para além de muita coisa, uma dose de loucura tão boa que eu rio, só de lembrar! As notícias que víamos no plasma da sala eram o mote para grande parte dos disparates. Depois a vida privada. Os maridos, os jantares de amigos, as férias, os pedidos de casamento, as gravidezes, os filhos, as perdas... Penso não ser por acaso que uma organização de direitos humanos tenha pessoas tão boas a trabalhar.
Ali foi assim.
E eu dos 28 aos 38 anos, fiquei mais completa, adulta e feliz.
Felizmente não vamos deixar de estar juntos. Os jantares regulares com estes e outros colegas que já saíram faz me crer que esta relação é para a vida.
Entregarei a chave e o meu email será encerrado.
Mas as fotos, o painel, as pessoas e o amarelo vão comigo. Para sempre.