quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Que o próximo seja igual ao anterior a este.

Já dei por mim a pensar que amanhã vai começar novamente o 2020... É uma sensação de não aceitar que ele tenha chegado, faça o que quer e se instale como se isto fosse dele... Tipo um empregado que chega no primeiro dia a um sítio novo, sem experiência, todo armado em sabichão e se senta logo na cadeira do diretor geral, e manda em tudo sem pedir autorização, com os pés em cima da mesa... 

Eu só queria um 2020 com os 12 meses a que tenho direito, em chávena escaldada, com princípio meio e fim, e bem cheio! Para todos.

Amanhã seria 1 de janeiro de 2020 e vivíamos um ano normal, a queixarmo-nos das coisas (tão pouco) banais da vida, filas de trânsito, sem tempo para estar em casa, excesso de beijos e abraços e sempre encostados às pessoas de quem gostamos, mesmo à grande ... 

Uma vida com emprego certo, um concerto ou outro, restaurantes abertos até às tantas, barulho de gente feliz, filas de pessoas sem marcação... 

E, já agora, termos a devida festa dos 42 do Vasco, dos meus 43, dos 6 da Inês e dos 10 do Lucas, bem passados, cheios de amigos e pratos de comida para todos, amendoins em cima de cajus.... tudo à doida. 

Andar na rua à vontadinha, viajar em março, de avião e à patrão, combinar os fins-de-semana respetivos com amigos... Marcarmos férias juntos, partilhar quartos, contas e abraços. 

Andar aos empurrões na praia, apanhar a bola das raquetes de outros pais e filhos e sorrir como quem tem uma vida fácil e garantida...

 Dar trincas no Cornetto de chocolate do Lucas e pedir as pastilhas do Epá da Inês... Estar em cima de pessoas nas filas do supermercado, sentir o hálito a café do senhor ao meu lado no balcão... Enfim, loucos varridos...

... Fazer balões de pastilha, assobiar no concerto do Zambujo, de pé. Irmos ver a minha avó e estarmos  com a minha mãe cheios de liberdade, qual 25 de abril... Tudo ao colo, em cima delas, e elas mexerem no cabelo deles, darem beijos perto da boca, dos melhores... 

... Estar com amigos de amigos sem os olhar de lado. Cumprimentar pessoas quase estranhas na rua com beijinhos, mexer descaradamente em bebés que não conheço. 

Entrar na escola dos filhos, pendurar o casaco e ver o sorriso deles a dizer adeus... ver crianças de mãos e boca suja de tanto brincar...

Não ter horas para sair ou entrar em casa, como se ela fosse nossa e nós mandássemos.

Levar as dezenas de prendas para as dezenas de pessoas com quem passamos o Natal, comer passas do mesmo saco e brindar com leveza e futilidade ao ano e pensar "não foi tudo bom mas foi um bom ano, que o próximo seja igual ou melhor e traga tudo em dobro...".. Ai!! Até dá medo escrever "tudo em dobro"...

Enfim, foi uma retrospetiva de um ano que não aconteceu, mas foi terapêutico imaginar...

Agora voltemos à realidade e desejemos, com as 12 passas, que ele passe rápido da nossa memória e que em 2021 possamos só estar perto, ter uma vacina até setembro, manter o desinfetante e as máscaras à mão, sem grandes planos de nada em concreto e tudo no geral... 

Que 2021 nos dê os mínimos que tínhamos em 2019, que já é bem bom.

Abraços virtuais (imaginem uns fortes) para todos, passas em pires separados, chamadas de vídeo com boa net e bons amigos e esperança de que o 2021 seja igual ou melhor que 2019! ADEUS 2020, vai para dentro e para longe e leva contigo as rugas e os cabelos brancos que me deste...

(foto de um 31 de dezembro normal, com paz e sorrisos sinceros)




sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Depois disto tudo

Escrever menos não deve ser bom sinal. Agora já com 8 meses de pandemia nos ombros, as costas vão doendo. Houve um lado de aventura na quarentena que não haverá em próximas proibições, sinto. O nosso olhar vai ficando mais sério, estamos anestesiados e assim ficaremos a tentar ver o que de bom têm os nossos dias, tudo o que temos e que nos faz feliz. Sublinhemos bem, para não perdermos o foco. 

Lembro-me muito do filme "a vida é bela", dos mais bonitos que já vi. Aquela alegria e pensamentos positivos do Roberto Benigni como forma de sobrevivência e condução dos mais pequenos, vêm-me à cabeça.

Fiz uma massagem nas costas hoje. É dos mimos que tento manter há anos porque é nas costas que carrego filhos e problemas. Sabe tão bem. Mas agora as preocupações são diferentes, a massagem foi mais longa.

Vivemos o ano da empatia, palavra mágica e, para mim, o segredo de uma paz utópica no mundo. Acredito que estamos a dar passos importantes e novos, a criar caminhos paralelos que só vamos ver onde nos levam mais tarde.... O lado da esperança ainda existe.

O caminho que percorro agora é de "respira, segue, vive o bom e aguenta". Penso no depois disto tudo e tento manter o foco para depois olhar para trás e sentir alguma tranquilidade, saúde mental, como pessoa e mãe. 

Depois disto tudo quero que os meus filhos ainda se lembrem da minha calma e boa disposição diárias (a frequência reduziu). Trabalho em casa, horários novos, lida doméstica, menos tempo só eu, menos espaços, mais regras e preocupações com todos.

Depois disto tudo espero saber abraçar bem, cumprimentar pessoas na rua com beijos, mexer nas bochechas de todos os bebés que vejo, deixar-me estar perto das pessoas que gosto e não gosto. Comer do prato dos outros, não me lembrar do cheiro do gel, da falta de ar depois de subir escadas de máscara. Quero sair do prédio, de manhã, abrir a porta e só respirar...... Quero abraçar a minha avó, se ela cá estiver ainda. 

Depois disto tudo espero não esquecer a empatia pelos enfermeiros, os donos dos restaurantes, os empregados das lojas, os artistas, os pais que têm filhos como eu tenho os meus e temem pelos dias... E quem vive sozinho. Quero saber respeitar o desespero que está para vir de quem sofre/ vai sofrer na pele as consequências mais danosas desta pandemia: a pobreza, o desemprego, a falta de sonhos... que não sejamos alvo delas.

(Ontem decidi que tentarei comprar todos os presentes de natal em lojas de comércio local, não em grandes superfícies a quem a pandemia não tocou tanto. Deixo a sugestão.) 

Depois disto tudo quero sentir que continuei a espalhar magia na vida dos meus filhos (quem sabe nos filhos dos outros). Que teremos o melhor Natal de todos, este ano, fomos criativos, abraçamos melhor que nunca os que podemos abraçar sem limites. Que à noite, na cama deles, fique a tranquilidade que resta dos dias. "Amanhã o dia é melhor", mesmo que depois sozinhos no sofá gelemos com as notícias. É preciso relativizar números e seguir, mas gela.

Não quero esquecer que a vida continua, ouvimos música, cantamos, cozinhamos coisas boas, rimos com amigos, há luzes de natal, há bebés a nascer, estamos bem. Sigamos com cuidado, empatia, foco e magia para ainda sabermos, numa nova forma de felicidade, viver tudo o que vem depois disto tudo.




terça-feira, 18 de agosto de 2020

NÓS

 "Quando joguei há muitos anos um jogo que me disse que eras a minha alma gémea... pareceu parvo, mas a parvoíce ainda não parou...." É assim que começa o nosso blog, onde escrevemos há 12 anos sobre nós.

Mas não foi assim que começaram os nós. Conhecemo-nos na "terra", como ele chama ao lugar das nossas mães. Foi nas festas de verão, em adolescentes, quando os meus olhos não eram dele mas os dele registaram o meu primeiro olhar.

Passaram anos e uma boa amizade que incluía os irmãos de ambos e diversão pura. Uma rapariga extrovertida (afinal tímida) e aventureira, e um rapaz tímido (afinal extrovertido) e aventureiro que se divertiam numa terra só.

Num ano de mudanças a vida aproximou-nos e como sempre a brincadeira levou-nos a fazer um jogo que nos disse a ambos que éramos almas gémeas. Parvo, mas curioso.

... Convidaste-me para irmos a um concerto em Lisboa. E nessa noite, deste-me a mão e nunca mais saí das tuas mãos, lindas. Foi perfeito, tudo, por isso foi tudo tão rápido: casa, carro, filhos. Namorámos pouco a dois, sabemos disso, namorados aos 30 dá nisto. Devíamos ter aproveitado mais sermos só um, neste caso...

Ter filhos foi e é mágico, maravilhoso mas um carrossel demasiado rápido e intenso que nos faz procurar os dias destes anos, que voaram. Uma relação intensa, bonita, imperfeita e forte.

Aprendemos a conversar até a luz se apagar, a rir até chorar. Cumplicidade, diálogo, relação. E muita discussão, desafios, dois feitios exigentes. Fazemos faísca de tanto rir e de tanto ralhar. 

Nunca será perfeito e tão pouco sei se é para sempre, mas é uma viagem bonita, esta. Enquanto vir em ti a pureza de um miúdo fascinante, humilde, bem disposto e frontal, levantarei os pés para te abraçar, o meu lugar preferido. 

Ensinaste-me a ouvir, a falar cá do fundo, a contar contigo. A olhar nos olhos e a encontrar lugares mágicos.

Desafias os meus cabelos brancos e a minha paz, viras-me do avesso, mas ofereces-me momentos perfeitos embrulhados e com o meu nome. 

Ensinaste-me a arrumar a máquina da loiça e a ter um caixote do lixo limpo. Ensinaste-me o que é ser companheiro, um homem sério e uma criança cheia de bons projetos, ao mesmo tempo. Um pai perfeito e presente. E que se pode viajar e ser ambicioso e persistente em pequenas coisas.  

Eu pus-te asas e levei-te pelo mundo, falei-te de pessoas diferentes, de missões, de como o mundo está nas nossas mãos e pode ser tão simples. Ensinei-te a deixar estar, a deixar ser. Ensinei-te os passos da minha dança, dei-te os acordes da minha voz e dei-te as chaves de tudo o que sou. 

Não verbalizas nem escreves muito mas carimbo o teu amor pela forma bonita como falas de mim aos nossos filhos, como te ris das minhas tonteiras da mesma forma que rias aos 15 anos, como gostas verdadeiramente dos meus, como te adaptas aos meus amigos e sonhos, como respeitas e aprovas a minha liberdade. Obrigada.

Que continuemos a ser fogo e água, a sermos paz na nossa terra. 

A sermos nós, daqueles que não desatam.



sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Viagem ao espaço

Na semana em que conheci a Lua e Saturno através de um mega telescópio na varanda menos vigiada do país e a poucos dias de completar 43 voltas ao sol, escrevo sobre o espaço. O das emoções.

O nosso coração tem uma dimensão gigante, acredito que infinita, tal como o espaço.

Estudar psicologia fez-me viajar muito neste espaço e aprender sobre um tema que acho especial. Viver a vida fez-me viajar mais ainda.

O nosso espaço é habitado por emoções diferentes, que vão ganhando morada ao longo da nossa pequena vida. Quando perdi o meu pai conheci o "fim do mundo" como me disse um dia a minha irmã ♥️. O meu espaço parecia ter sido invadido por buracos negros grandes demais. Parece que perdemos a luz e não brilhamos nunca mais.

Nestes meses de pandemia morreram várias pessoas próximas de pessoas próximas de mim. Nem vou falar do espaço que a pandemia tira às pessoas na hora do adeus e de como a tristeza ganha à Covid-19 na causa final da morte de tantas que morrem sozinhas...

Disse à Pipa que há muito de bom para viver depois da morte de alguém próximo. A dor ocupa o tal buraco negro e a verdade é que não desaparece nem fica menor porque nos tiram do nosso espaço pessoas que eram atmosfera viva, o nosso ar. Ficamos menos vivos e se não fossem as visitas nos sonhos, nunca mais víamos nem ouvíamos essas pessoas, agora estrelas no nosso céu, um lugar escuro.

Interessa chorar, sempre que quisermos e tenhamos espaço, com o telescópio bem apontado porque nos ajuda a localizar e comunicar com elas. 

Mas interessa muito deixar que a felicidade viaje por nós, sem qualquer gravidade. Sermos felizes (muito felizes) é compatível com dores astronómicas. A verdade é que há tanto espaço à volta dessa dor onde podemos ser tão felizes depois, rir tanto, descobrir novos planetas que ainda estão lá para nós, cheios de vida... E esse espaço da felicidade cresce infinitamente, se quisermos.

Estrelas, que vão sendo cada vez mais, ainda nos vêm ao longe a sorrir muito, por muito tempo... 

E um dia seremos nós as estrelas e vai ser bom assistir a momentos de felicidade dos nossos planetas cheios de vida. 

Aproveitemos esta viagem, que a vida passa à velocidade da luz.



sexta-feira, 19 de junho de 2020

Casa

99 dias depois de termos saído de casa, voltámos. Nunca tínhamos estado tanto tempo longe de casa, na nossa vida. E que bom é vir a casa... Não há sítio igual.

É em casa que o cheiro é o nosso. É onde todos sabemos os cantinhos preciosos.

É em casa que enchemos dezenas de molduras de sorrisos, desde crianças à escola dos nossos filhos.

É em casa que conhecemos a história do que está partido, do que nos fez rir e do que está escondido.

Só em nossa casa andamos como nos apetece. De pantufas, nus ou nos saltos que a música pede.

A nossa casa tem uma desordem bela. Os brinquedos lêem livros, as plantas dançam à janela.

Só em casa os pijamas tratam as camas por tu, as escovas falam entre si, o silêncio apaga a luz.

Na nossa casa o sofá dá-nos o melhor colo e a cozinha ajuda sempre com o melhor bolo.

A casa sabe tudo sobre nós, assiste às gargalhadas mais divertidas e às brigas em alta voz.

#Fiqueemcasa disseram nestes 99 dias e nós, com saudades, demos outra morada à pandemia.
Porque a nossa é pequena e sem ar livre e a liberdade foi-nos proibida.
Apaixonámo-nos por outra vida, mas nada como regressar ao nosso sítio, vir de novo a casa.




quarta-feira, 20 de maio de 2020

Saudade

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Cesária Évora, estive em casa dela no Mindelo, em Cabo Verde, em 2000. Foi especial. Ela falou de saudade na sua música, uma palavra só nossa, da língua portuguesa, língua comemorada pela primeira vez no mundo, a 5 de maio deste ano (dia eleito pela UNESCO).

Hoje escrevo sobre saudade. Penso muitas vezes de que terão mais saudades, as crianças, nesta fase em que a vida delas mudou? É incrível como se adaptam. Como as brincadeiras já incluem as palavras "luvas" e "máscara". Como já há máscaras tão giras para eles e o nosso corpo, de repente, tem um novo adereço. Como vão expressar-se aos amigos, com a boca tapada? Como se brinca com distância, sem toque e empurrões?

Enfim, estamos a fazer um download de uma nova forma de viver, que espero seja temporária...

De que tenho eu saudades?

Tenho saudades de jantar com as minhas amigas, sentadas bem juntas num restaurante acolhedor onde possamos conversar muito e alto até conseguirmos.... Como vou abraçá-las da próxima vez? Um toque entre sapatos ou uma cotovelada não chega para nós... Somos de abraços.

Tenho saudades dos meus irmãos. De me encostar ao meu irmão que dá abraços meigos que parecem colo. De sentir o cabelo e os braços da minha irmã que não vejo há tempo a mais... Só posso abraçá-los quando os vir. Os meus sobrinhos não vão ser abraçados, vão ser esmagados... lamento DGS, não vou aguentar, nem que seja de costas...

Tenho saudades de estar aqui no campo com os amigos do Vasco que são meus também, sorte a minha... Piscina, caipirinhas, desabafos entre mulheres, gargalhadas sem filtro, pela noite dentro e que me fazem perceber porque o "como é que o bicho mexe" foi um sucesso... conversa de amigos, boa, guião nem filtros... Abraçava-os tanto nestes dias que passamos de coração apertado...

Podia estar em Lisboa e ir às suas janelas, mas a minha casa é pequena e apertada e a minha rua tem tanta gente que estamos melhor aqui.

Tenho saudades da minha casa. "Fique em casa". Eu não fiquei. Não durmo na minha cama, não deito os meus filhos no seu quarto, não arrumo o meu sofá há mais de 2 meses. Custa. Só fico bem porque não é uma pessoa e sei que não sofre com a nossa ausência.

Tenho saudades de Sushi. Tenho saudades de almoçar com amigos ou colegas num dia de trabalho e rir, enquanto molhamos as peças na soja... Tou cansada da comida que faço. No outro dia comprei comida num restaurante aqui perto, fui buscar. Que sensação deliciosa, comer coisas diferentes, feitas por outras pessoas.

Tenho saudades de chegar a casa do supermercado e não ter que seguir um protocolo de "desinfeta as mãos 8 vezes, as portas do carro, as maçanetas da entrada em casa". Afastar os miúdos, que olham para os sacos para verem se trouxe bolachas ou outras coisas novas e coloridas...

Tenho saudades de ir tomar uma porcaria de um simples café, sentar numa mesa, dizer "bom dia" ao empregado, entregar as moedas com a mão, encostar a minha mão à mão dele... e depois abrir a porta e deixar alguém entrar antes de eu sair, com distância de centímetros dos outros.

E praia?! Tínhamos uma casa que adoramos, marcada para os feriados de junho, numa zona cheia de gente do algarve. Desmarcámos. Saudades de ir a pé com sacos de mil coisas e crianças felizes de chinelos. Chegar à praia, descalçar, sentir a areia quente e enterrar os pés, escolher um sítio para o chapéu, estender toalhas, cheirar o protetor que espalho nos meus filhos, ir ao mar.... ai, que saudades. Ouvir o senhor das bolas de berlim e acenar para que se aproxime e abra a cesta de verga, para vermos o que queremos. Ficar molhada de água salgada, deitada na minha toalha a ouvir as pessoas e as ondas, a comer a minha bola sem creme.

Tenho saudades de viajar. Fazer as malas, arrumar passaporte. Ficar a sofrer com saudades dos filhos e sentir felicidade por entrar num avião. Sentir a adrenalina quando aterro noutro mundo, sair, cheirar e sentir o novo. Andar em ruas de outro lugar, conhecer paisagens, ouvir pessoas, descobrir sabores e sons... Quando voltarei a viajar, sem ser ir ao Lidl ou a Lisboa?

Tenho saudades de ir ao cinema, jantar com o Vasco, falarmos à mesa do restaurante como não falamos em casa, andarmos de mão dada sozinhos no meio dos outros e darmos um beijo, porque sim, sem máscara.

Estou feliz onde estou, com quem estou, desde março. Temos tanta sorte porque temos espaço, verde, ar puro, tudo o que adoramos e onde mais gostamos. Posso abraçar 4 pessoas que amo muito, todos os dias. Mas, caramba, tenho saudades do que falta aqui.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Primavera 20/ Covid 19

E eu que gosto de abraços...

E eu que tinha comprado as prendas para o dia do pai e do aniversário dele (Vasco) e guardado no meu guarda-roupa...E eu que nem a mochila do Lucas trouxe.

Decidimos vir embora, para o cantinho verde e calmo que partilhamos, assim que tivemos ok para teletrabalho e se falou em fechar escolas. "Vamos já, a minha mãe vem connosco". Escrevi o que tinha que trazer para duas semanas. Trouxemos o nosso porquinho da Índia, fechámos janelas.

Passaram 2 semanas certas e vão passar mais... E depois voltamos a casa, diferentes.

As compras no supermercado nunca chegam porque o tempo do vírus parece elástico e atira-nos para mais dias e desafios que, não sendo bons, têm sido novos...

No meu caso, por exemplo,

... aprendemos a gostar de iogurtes de côco, os únicos que havia no dia em que o Vasco foi à mercearia mais perto, lugar já com regras de segurança, mesmo aqui no meio do nada

... nunca tinha dado por mim a fazer torradas com as aparas do pão ou a ter medo de deixar cair a sopa, com receio que falte

... não sabia o quão importante era o senhor da carrinha do pão que vem aqui ao pé das pessoas (com a devida distância), e a do peixe, da fruta... desde que me lembro de existir

... saí de Lisboa ansiosa mas não sabia que ia viver uma guerra (confesso que prefiro esta em relação àquelas em que soldados de um lado matam outros do outro e o ódio é de uns para outros). Esta é uma guerra de todas as pessoas (que nunca foram tão iguais... tantos refugiados que somos agora...) contra um vírus rei. Uma guerra que nos aproxima e nos está a mudar, nem nós sabemos o quanto. A trabalhar numa ONG incrível que tem dado um exemplo bonito do que é sermos um só, vejo os dias a passar e a por-me no lugar daqueles que ajudamos. E já eram tantos...

... o isolamento que esta terra nos dá.... a palavra isolamento que aqui é sinónimo de espaço o que ajuda tanto. Podermos andar a pé pelo meio das árvores, da lama, das estradas que não conhecíamos, porque é certo que não vemos ninguém

... fiz uma compota de laranja pela primeira vez porque há muitas nas árvores e quero ter alternativa à manteiga e ao queijo

... o Vasco plantou legumes, pode ser preciso, e está a afinar o piano antigo que recuperou, coisa que nunca teve tempo para fazer. Até me ofereceu um ramo de flores daqui, quando fizemos, domingo, 12 anos de nós!

... eu chamei pessoas amigas para um barco novo, a Lua de Presença, alguns não se conheciam e parecem colegas de missão na nossa Lua

... há novos vídeos de aniversário entre amigos que vemos agora mais vezes no Messenger

... a publicidade mudou, a televisão mudou, a vida mudou... e o número de camisolas que tenho para vestir também...

... a relação entre as amigas do coração é forte como uma ponte, infelizmente e por maus motivos. Abraço minha Pi. A amizade é tão importante agora e continua a resistir à distância, tendo muitas formas de existir que não conhecíamos

... a internet é quase uma necessidade básica: para trabalhar, reunir, jogar, para nos ligar ao mundo igual, para escrever, fazer vídeo chamadas com amigos e amigos dos filhos e irmãos e sobrinhos ... quando ela é limitada ou fraca, a vida fica afetada..

... Enfim, experiências curiosas que também nos ensinam e mudam...

Existem outros pensamentos difíceis que me tiram o sono e me fazem pensar em invernos difíceis...

... falar com colegas de outros países várias vezes por semana, onde está tudo muito pior, colegas com sintomas, colegas com medo, com realidades que me fazem sentir com sorte, no meio do azar...

... e países como Moçambique ou Etiópia ou Equador ou São Tomé? E as favelas do Brasil? E a Índia que tem tantas (mas tantas) pessoas pobres?

... e se o sistema de saúde falha se nos calhar a nós ou aos nossos?

... e se estamos iludidos com políticos que até inspiram confiança (preciso dela como de uma âncora)?

... e no fim, quantos mortos? Que crise? Guerras das outras?

... era preciso tanto para o Trump e o Bolsonaro se espalharem ao comprido e podermos finalmente perdê-los?

... será que isto foi planeado ao pormenor e as teorias da conspiração estão certas (eu acredito e não queria)

... será que vamos ter que começar de novo, novos empregos, contas, casas?

Nesta primavera 20 com sol, flores, borboletas, passarinhos, o tempo não é tão fácil como aquele que conhecíamos antes, tão bom de fútil e certo como era em dezembro 19...

Continuemos a lutar e a dar o exemplo por nós e pelos outros, que são muitos mais do que nós. Muitos mais. E que esta primavera 20 ganhe ao covid 19, connosco a dar tudo o que podemos, sem arrependimentos para a primavera 21, que terá gargalhadas, bebés a aprender a andar, festas na rua, esplanadas cheias de gente feliz, música e nós a darmos todos os abraços que não damos agora.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Domingo

A casa, ao domingo, fica mais aconchegada
Sorri para o vizinho por estar tão ocupada

A casa, ao domingo, tem brinquedos pelo chão
Chinelos e sapatos brincam às danças de salão

A casa, ao domingo, cheira a panquecas com mel
Há dorminhocos felizes e mimos de hotel

A casa, ao domingo, tem visitas para almoçar
Abrem-se a mesa e os nossos braços, para abraçar

A casa, ao domingo, está tudo menos arrumada
Há cadernos de matemática no chão da entrada

A casa, ao domingo, também fica surpreendida
Muito tempo em casa... dá espaço para birra

A casa, ao domingo, quer sempre esticar o tempo
Faltam mimos e descanso e colo, sempre

A casa, ao domingo, adormece já cansada
Mochilas a postos: boa semana, pequenada!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

"Adorote", sem erro nenhum

Vivemos dias difíceis, às vezes. Daqueles dias em que dormir é difícil, acordar também e os minutos parecem elefantes a passar.

Tive um desses, há uns meses. Dia de decisões pesadas (neste caso, boas e opcionais), daquelas conversas que temos que ter e onde cada palavra cobra uma taxa de sofrimento raro.
Escrevi antes o que queria dizer, pensei, quase desesperei e tive que dizer baixinho: "força" para não explodir em cacos que andavam a estalar há dias.

Foi um dia que teve dezenas de horas, talvez centenas. Que começou ainda de noite com mais uma mala feita, uma porta que fecho devagar, depois do melhor abraço de "boa sorte para hoje", palavras boas de quem acredita comigo.


Passou-se. Lutou-se. Ultrapassou-se.
Não queria ganhar. Só queria que ninguém perdesse.

No fim de um dia destes, só queria descansar e cortar as cordas que me prenderam semanas a fio.

À noite, de longe, falei com os meus filhos por vídeo-chamada. Desta vez, ela chorou com saudades, pequenina. Ele estava bem, já se habituou. Tentei disfarçar e desligámos mas sofri, sofro sempre.

E mesmo antes de dormir (em modo "mãe de trapos") vejo que o Lucas, que anda na fase de me abraçar e de responder mal com voz alta, me tinha escrito pela primeira vez uma mensagem através do telemóvel do pai. Talvez soubesse e percebesse tudo...

"És a mãe melhor do mundo. Adorote" 

Chorei. Respondi e agradeci. O meu filho é tímido. É sensível e incrível apesar de tudo o que traz um rapazola, de desafiante.

Nós nem sempre sabemos que somos as melhores e que eles nos adoram... apesar de óbvio.
E quando estamos no chão, como os trapos (felizes, porque também somos corajosas e fortes no chão) e eles nos devolvem amor em palavras bonitas e verdadeiras, tudo fica bem e tudo está certo, até a palavra "adorote".


Obrigada filho. Eu "adorote" igualmente.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Chega-te


Chega de correrias, de atropelos, de cansaço
Chega-te, num abraço

Chega de "ter que chegar a tempo" porque sim
Chega-te, com tempo para mim

Chega de ecrãs, jogos e redes sociais
Chega-te, olhamo-nos mais

Chega de insónias, de dúvidas e preocupações
Chega-te, cantamos canções

Chega de "é melhor não arriscar nem tão pouco pensar"
Chega-te e vamos saltar

Chega de "tem que ser já, não pode esperar"
Chega-te e vamos só demorar

Chega de mil coisas e do que ainda não temos
Chega-te, somos tudo o que queremos

Chega de sofrer por tudo o que sabemos
Chega-te, celebremos.


juntos e parvos desde 2008