sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Mãe

 (O texto que não queria escrever e mais dor trouxe na minha vida, início de Setembro de 2024)

Mãe 


Uma das irmãs do meio de 13… Nasceu e cresceu em Santiago de Montalegre, no meio de uma família tão bonita, numa casa cheia de luz, de natureza, de amor e de histórias que adorávamos ouvir. Ela ria com a sua gargalhada tímida quando as contava com os irmãos, e nós íamos atrás.

Uma adolescente cheia de pinta, de aventuras, de coragem. Escolheu dedicar parte da vida a ensinar milhares de crianças a respeitarem a nossa língua, o valor das palavras, do português. 

Com o Zé nasceu uma nova história de amor, uma nova morada em Santarém, e nasceu também a nossa família. Foi Mãe (e ele, Pai) do Bernardo, da Joana e da Catarina. 

A mãe mais gira, inteligente, com o sorriso mais charmoso e uma força que inspirava. Deu-nos tanto e aguentou tudo. Um mulher e mãe diferente…


A mulher e mãe mais descomplicada que conhecemos. Seguia em frente e construía o caminho mais bonito mesmo quando tudo parecia ruir. Tudo tinha uma solução, dava-se um nó ali, colava-se acolá e estava tudo resolvido. Sempre. Não se parava para sofrer, não havia queixas, nem problemas. Havia soluções e caminho, sempre.

A mulher e mãe mais corajosa que conhecemos. Carregou os sacos mais pesados da vida e seguia direita, elegante e sempre segura. Com ela, a juventude aprendeu que pode ser eterna. Viajava para qualquer lado com família e com as amigas para descobrir e sempre beber daquilo que os livros, os artigos que sublinhava, os documentários e os filmes que via, lhe despertavam, num interesse constante. A mulher e mãe que dizia “sim” a tudo, que se adaptava, não parava, que respeitava e deixava ser.

A mulher e mãe mais saudável que conhecemos. Começou o Ioga quando a Catarina nasceu e fez disso vida, respiração, postura e forma de estar. Ensinou-nos a melhor alimentação, semeou na terra para colher e partilhar connosco, o melhor. A mulher e mãe que cuidava de si própria de uma forma exemplar, porque havia tanta vida que queria ainda agarrar.


Foi a irmã querida e sortuda, sempre cheia de companhia… as tias com ela em todo o lado, que são também Mães para nós.

Foi sogra do Rodrigo, da Ana e do Vasco, que estendiam um tapete de admiração quando estavam com ela. Foi dona da Kika que continuará connosco na sua (igual) independência e elegância.

Foi avó da Alice, do Sebastião, do Lucas, da Inês e do Gaspar. Uns netos que sabem a sorte que tiveram. A avó que parecia irmã, que ensinou ioga, jogos criativos, que os levava ao jardim dos pombos, que os incentivou a conseguirem tudo, a simplificar a vida, e que ria e brincava como eles, que tinha sempre mil coisas para ensinar, que eles nunca esquecerão.

Foi a nora mais dedicada, a amiga preocupada, a irmã presente.


A Zita, esta mulher e mãe, deixa tanto que não imaginam. Deixa recordações, histórias e um exemplo de força incríveis! Mas deixa também quadros pintados com imagens de mulheres fortes e coloridas e deixa peças de cerâmica feitas com as mãos mais discretas e corajosas, para cada um de nós. E deixa, sobretudo, uma casa num monte que continuará alegre, com um pedaço de terra cheio de vida eterna. Deixa figos, deixa uvas, deixa limões, deixa flores, deixa um bosque e deixa a varanda com o céu mais bonito e estrelado, onde agora ela estará, sempre connosco e a olhar por nós. Obrigada por tanto, Mãe.


sexta-feira, 31 de março de 2023

Abraços ficados

Enchemos os dias de horários, programas, corridas, obrigações, pressa. Muitas pessoas, poucas pausas.

E poucas são as pessoas que nos fazem valorizar o tempo e parar. Mas são as mais importantes dos nossos dias.

Depois da pandemia acho que uma coisa melhorou. Os abraços. Passei a cumprimentar as pessoas próximas com abraços. Privámo-nos do toque e agora tocamo-nos mais.

Ainda assim, valorizo agora mais do que nunca os "abraços ficados". Quem dá esses abraços são os nossos pilares. Estes são poucos e maravilhas do mundo. São necessidade básica e deviam ser um direito e um dever de todos.

Ontem abracei a minha filha durante o tempo que senti necessidade. E foi tanto.

Fiquei, fiquei... E ela encaixou e permitiu. Com o abraço ficado, as mãos apertam o outro e aproveitam para dar festinhas nas costas. Há tempo para sentir o cheiro, dizer palavras baixinho cheias de amor, parar. E ficamos ali sem pressa. Que delícia.

Abraço assim o Vasco, os meus irmãos e talvez os amigos mais chegados, mas com menos tempo. O Lucas, adorava, mas ele agora aguenta 2 segundos e foge... Eu fico lá até ele permitir.

Ficar é tão bom. Por isso adoramos ver os nossos filhos dormir. Ficam ali. E nós apreciamos cada bocadinho de amor que ali está, e tocamos na pele e no cabelo e ficamos...

A minha terapeuta diz que nas fases difíceis devemos "apenas garantir os mínimos, tocar-nos a nós próprios e pedir abraços".

Quem quiser é só dizer. São grátis e curam.

Não há nada melhor do que abraços, sobretudo os ficados. Fiquem mais nos vossos. Eu também ficarei.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Aventura no Norte

Este ano já fomos duas vezes para o Algarve por isso pensámos conhecer o norte na primeira semana das férias maiores. Conhecer as festas de Viana do Castelo, o Gerês e Sanxenxo eram alguns objetivos. Íamos com algumas notas em mente: desafio de encontrar sítios para ficar em cima da hora, carregadores para o carro, paciência uns para os outros porque esta versão de férias exige férias depois...

O nosso quinto elemento, o Dobby, ficou com os avós paternos ☺️.

Fizemos um plano, um circuito mas queríamos ir sem grandes obrigações. Não marcámos nada e levamos tenda porque os miúdos e o Vasco gostam de acampar. A minha mãe foi connosco com intenção de ficar duas noites e conhecer as festas da nossa senhora da agonia.

Primeira noite (quinta-feira): São Pedro do Sul, com passeios pela zona das termas e direito a festa sénior na rua, muita animação. Adorámos, não conhecíamos e é lindo! 

Continuámos a subir. Parámos no Porto para almoçar e foi a melhor refeição, no Da Terra, vegetariano. Deu para um passeio apesar do calor no Porto! A onda de calor ajudou nesta aventura porque viajar com sol torna tudo mais especial!

Segunda noite: Viana do Castelo estava uma mistura perfeita entre cheio e caro.... Liguei para tantos sítios, tudo cheio, os poucos disponíveis eram caríssimos. A Pipa e a Mercedes já me tinham alertado para o problema e a Pipa sugeriu a Albergaria Quim Barreiros, em Vila Praia de Âncora. Poucos km de Viana, possibilidade de estar com a Pipa e ir à praia. Feito. Ver um bom por do sol, abraçar a minha Pi e relaxar.

Adiámos, assim, um dia a ida a Viana e fomos de comboio apenas na tarde de sábado. 

Adorei o cheirinho que trouxemos das festas. Sou da folia, da romaria e do barulho de palmas e multidões. Vibro de lágrimas nos olhos com a felicidade das pessoas e, depois da pandemia, ela era especial e intensa. Acho que noutra vida fui dançarina de banda pimba e falei muito alto!

Em Viana adorei os bombos, os cabeçudos, aquelas ruas e as pessoas de lá vestidas a rigor com camisas de linho e lenços típicos com flores. A Inês não adorou o barulho mas, no geral, viemos satisfeitos.

A minha mãe nunca tinha acampado e insistimos para ela vir connosco e continuar a aventura. Assim foi e que bom!

Começámos a descer para o Gerês, passando por Ponte de Lima para carregar o carro. Adorámos. Ficou a vontade de voltarmos depois.

O Gerês é lindo, o que ajudou a tolerar as duas noites mais mal dormidas dos últimos meses. Isto significa, infelizmente, mau humor e birras do meu lado... Não sou de grandes hotéis mas sou de conforto sobretudo na versão praia, apesar de já ter vivido belas aventuras radicais por esse mundo fora ...

Passeámos, encontrámo-nos com a Vera e o David nos mergulhos em cascatas lindas, respirámos ar puro e, depois de duas noites e um piquenique especial, subimos para Espanha. 

Aí tínhamos encontro marcado com o meu irmão, sobrinha e a autocaravana que vinham de Paredes de Coura. Queríamos conhecer Sanxenxo e, tal como Viana: cheio e caro, o que me levou a ter que ceder e acampar mais duas noites. Não vou contar aqui a série de problemas, trapalhadas e consequências de quatro noites mal dormidas porque ainda estou a digerir (sendo que sou distraída já de origem).

Tal como sou de folia, sou de boa cama/boa mesa e, nesse aspeto, preciso de férias das férias. 

Parte boa de acampar: ir a pé para a praia e ter os miúdos felizes porque havia piscina, escorregas e trampolins. A Avó Zita, que tem espírito de adolescente fixe, ficou afinal toda a semana e adorou estas aventuras.

Sanxenxo não é incrível mas foi bom para relaxar... e rir muito. No meio do mar, havia um parque de insufláveis que também havia no Gerês, onde fomos todos (menos a minha mãe) brincar aos "ninja warriors". Entre quedas tipo "jogos sem fronteiras", e confiança a mais dos jovens com quarenta e tal anos, valeu várias gargalhadas de biquini desconcertado... 

Última noite: descemos todos, eles diretos para o nosso cantinho versão campo e nós, convite da Rita, fomos dormir a Aveiro. Lanchámos em Ponte de Lima e rumámos para a terra dos ovos moles, que era como nos sentíamos...

Dormimos numa cama e jantámos entre bons amigos e isso valeu ouro!!! Obrigada Rita ❤️ vamos voltar!

Já fartos de carro, carregamentos, maps, roupa amarrotada, miúdos irritados e pais igual, voltámos à terra, já que este fim de semana é de festas, folia e romaria, depois de dois anos em pausa devido à pandemia. Matámos saudades do nosso rafeiro sensual e despenteado e temos mais uma semana de férias para recuperar desta aventura especial!














segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Sobre a dor

 Há que chorar cada minuto

Arrumar as lágrimas que esgoto

Terminar aquela dança contigo

O abraço que demorou pouco

O cheiro da roupa que só quer luto


Há que enxugar para depois seguir

Só eu, erguendo-me sem saber como

Acreditando no caminho que está para vir

Que vemos como um espaço oco

Mas que a dor ajuda a construir 


O vazio dói demais

O corpo partiu-se em cacos 

As mãos fecharam-se, tal como os braços

O sorriso perdeu-se no caminho

Os olhos molhados não são iguais


Nada é bonito agora

Já não sei escolher o sabor

Já nem consigo decidir a cor

Não há espaço para arrumar a dor

Porque te foste embora?...



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Setembro

 Termina o setembro, que começa com areia nos pés, sal e sol na pele e acaba com necessidade de férias. 

Um mês de mudanças. O mês da escola, dos livros, do material escolar, das rotinas e das consultas.

Este ano mudaram os dois de ciclo. Eu fico sempre ansiosa, sob pressão, para que não falhe nada e não falte nada. Deitar a horas, comer bem, acertar com todos os horários da semana. Ainda mudámos o quarto deles: menos cores, menos bonecos, mais tranquilidade. 

Depois as festas de anos. Neste mês nasceu a Inês. Há festa logo no arranque das aulas. Prendas, convites, bolos, festa, família e amigos voltam a juntar-se para ela. Ele faz anos nós próximos dias, mais convites, felicidade e mais festas. 

Ainda houve tempo para constipações, faltas à escola, noites mal dormidas. E trabalho? Muito.

No final, estes 30 dias ultrapassaram a velocidade permitida pela minha cabeça e põem-nos à prova. 

A primeira temporada do outono, o choque com os dias cinzentos, o teste às mães dos sete instrumentos.

Num balanço, correu tudo bem: felizes, tranquilos, integrados. E eu a cair de cansaço, com um sorriso nos lábios e com vontade de inverter a marcha para junho. Palavras para outubro? "Obrigada pela greve de segunda e pelo feriado de terça." Vamos fugir e já voltamos.



quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Lugares cativos na amizade

Vivo em Lisboa há 25 anos, mas não sou de Lisboa. Isso é claro e está bem presente. Podemos estar décadas fora da nossa base mas somos da base. Eu sou de Santarém. E quando passamos a infância e a adolescência nessa base as memórias podem ser tantas e tão boas. Sou daquelas que, por mais amizades que faça, maravilhosas, inspiradoras, diferentes, ninguém é mais especial que os amigos de Santarém. Gosto de imaginar a minha sala da amizade com muitos lugares, sorte a minha, mas os de Santarém são os da fila da frente. Tenho a certeza que os outros percebem perfeitamente, até porque muitos deles também não são do lugar onde vivem. 

Lisboa é incrível e eu identifico-me muito mais com ela do que com Santarém. Mas não importa, parte importante das minhas pessoas estão lá. 

Percebendo isso com a idade, obriguei-me sempre a regar essa amizade. A saber viver com uma sala de amigos algo vazia. A limpar os bancos da frente com regularidade como aqueles senhores que lavam o carro horas e lhes colocam um protetor de tecido em cima para que tudo brilhe. Quer as amigas de infância quer os amigos da "vida anterior", longa e importante, têm um camarote e lugares cativos na minha vida. E felizmente (mesmo feliz por isso) consegui manter muitos desses lugares aquecidos porque o contacto continua, sempre, adaptado ao agora. 

A vida sabe ser generosa. Mas é como com as plantas, temos que ir lá, cuidar, regar, dar luz e criar relação, nem que seja por mensagem. Assim é com os meus amigos de Santarém. Arranjei formas e alimentei amizade em nós os 4 para estas ligações permanecerem. "Vamos a Santarém", "vamos com os amigos da mãe" são frases que geram felicidade na família. Isso é um trabalho difícil, mas no fim todos os quilómetros valem a pena. 

E esses amigos sabem que estão na fila da frente. Têm lá o nome escrito. E, igualmente bom, eu também acredito estar na fila da frente deles ("Joana", "Ju","Juzinha", "Joaninha", varia de banco para banco). 

Muitos de nós saímos de Santarém mas todos aprendemos a estar juntos à distância, a manter o lugar, ninguém o perde. Isso é riqueza verdadeira. Felizmente o Vasco sabe, os meus filhos sabem e seguem-me para onde eu tenho que ir. Obrigada por isso.

O verão é maravilhoso porque é também o tempo destes encontros. São dois ou três abraços por ano que, até em 2020, conseguimos manter com dificuldade, muitos de nós (milhões de saudades dos restantes). É assim a amizade. Tem muitas formas, mas sobrevive e marca lugar seja como for, se nós quisermos. Adoro-vos tanto e ainda sinto os vossos abraços em mim, cativos.

(fotos seriam mil, mas escolho estas que resumem bem o tema) 









terça-feira, 13 de julho de 2021

As semanas que voam

Eles nascem e de repente têm dentes a cair, dizem asneiras e compram telemóvel. O tempo que é tão bom e os vê crescer, voa. Gosto de viagens mas esta podia ser mais pausada. 

As mães mais velhas têm razão, aproveita o colo que eles crescem rápido, damos por eles e saem de casa sem dizer nada...

A louca pandemia que decidiu encher o nosso tempo com trabalho na sala, intervalos para máquinas de roupa, café na cozinha que tem pratos e talheres que bem podiam voar para a máquina sozinhos, horas de almoço onde se arrumam camas e reuniões daquelas que sabemos... com filhos e cães a passar ao lado.

É assustador, cansativo, quase de enlouquecer. É também sinal de vida, uma corrida boa à volta deles e junto deles, bom sinal, apesar de todo o barulho que isso traz.

Estas semanas antes das férias, depois de 18 meses de um jogo novo em que não passamos de nível nem por nada, são aquelas em que nunca sei se quero que passem depressa ou devagar.

Se vão a voar, rapidamente pego nas toalhas e chinelos e vejo as férias a terminar. Se passam devagar, nunca mais chegam as férias.

Somos insatisfeitos, mas são problemas bem bons de lidar. Se passam devagar, também podemos aproveitar esta loucura de férias de filhos em casa, com pais a trabalhar, que talvez haja beleza nisto (lá bem loooonge). 

E em setembro, se voltamos às rotinas do pré-covid, como vai ser? Voltaremos a ter as mesmas rotinas, trânsito, chegar à escola à noite, estar tempo a mais no escritório a encher horário... Medo.

Talvez não, vai haver equilíbrio, nem 8 nem 80, vamos conseguir trazer as lições boas e melhorar as nossas semanas que voam. 

Tenho pensado muito que não custava nada o Marcelo dar-nos mais 22 dias de férias extra, já vacinados. Mais 4 semanas a voar mas sem pensar em trabalho, daquele de casa, daquele trabalho trabalho, do trabalho das contas aos casos diários e preocupações de lavar máscaras, tirar sapatos, habituar os miúdos a metros de distância... Hmmm... talvez 220 dias fosse mais justo. 

Sou só eu que sinto que tudo isto é o oposto de férias e que tenho em dívida para com a minha vida e a dos meus filhos descanso daquele..  lembram-se?!?!

Quero semanas a voar baixinho, com silêncio, sem telejornais, telemóveis, teleconferências, teams e o raio que o parta...

Quero agora voar quase parada, descansada, agarrada a toda a gente que caiba num abraço muito desejado, todos a ver o sol a pôr-se com uma cerveja na mão, sem relógio, só a ver o tempo voar. Fica a proposta. 220.

Boas férias.❤️