quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Lugares cativos na amizade

Vivo em Lisboa há 25 anos, mas não sou de Lisboa. Isso é claro e está bem presente. Podemos estar décadas fora da nossa base mas somos da base. Eu sou de Santarém. E quando passamos a infância e a adolescência nessa base as memórias podem ser tantas e tão boas. Sou daquelas que, por mais amizades que faça, maravilhosas, inspiradoras, diferentes, ninguém é mais especial que os amigos de Santarém. Gosto de imaginar a minha sala da amizade com muitos lugares, sorte a minha, mas os de Santarém são os da fila da frente. Tenho a certeza que os outros percebem perfeitamente, até porque muitos deles também não são do lugar onde vivem. 

Lisboa é incrível e eu identifico-me muito mais com ela do que com Santarém. Mas não importa, parte importante das minhas pessoas estão lá. 

Percebendo isso com a idade, obriguei-me sempre a regar essa amizade. A saber viver com uma sala de amigos algo vazia. A limpar os bancos da frente com regularidade como aqueles senhores que lavam o carro horas e lhes colocam um protetor de tecido em cima para que tudo brilhe. Quer as amigas de infância quer os amigos da "vida anterior", longa e importante, têm um camarote e lugares cativos na minha vida. E felizmente (mesmo feliz por isso) consegui manter muitos desses lugares aquecidos porque o contacto continua, sempre, adaptado ao agora. 

A vida sabe ser generosa. Mas é como com as plantas, temos que ir lá, cuidar, regar, dar luz e criar relação, nem que seja por mensagem. Assim é com os meus amigos de Santarém. Arranjei formas e alimentei amizade em nós os 4 para estas ligações permanecerem. "Vamos a Santarém", "vamos com os amigos da mãe" são frases que geram felicidade na família. Isso é um trabalho difícil, mas no fim todos os quilómetros valem a pena. 

E esses amigos sabem que estão na fila da frente. Têm lá o nome escrito. E, igualmente bom, eu também acredito estar na fila da frente deles ("Joana", "Ju","Juzinha", "Joaninha", varia de banco para banco). 

Muitos de nós saímos de Santarém mas todos aprendemos a estar juntos à distância, a manter o lugar, ninguém o perde. Isso é riqueza verdadeira. Felizmente o Vasco sabe, os meus filhos sabem e seguem-me para onde eu tenho que ir. Obrigada por isso.

O verão é maravilhoso porque é também o tempo destes encontros. São dois ou três abraços por ano que, até em 2020, conseguimos manter com dificuldade, muitos de nós (milhões de saudades dos restantes). É assim a amizade. Tem muitas formas, mas sobrevive e marca lugar seja como for, se nós quisermos. Adoro-vos tanto e ainda sinto os vossos abraços em mim, cativos.

(fotos seriam mil, mas escolho estas que resumem bem o tema) 









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