E eu que tinha comprado as prendas para o dia do pai e do aniversário dele (Vasco) e guardado no meu guarda-roupa...E eu que nem a mochila do Lucas trouxe.
Decidimos vir embora, para o cantinho verde e calmo que partilhamos, assim que tivemos ok para teletrabalho e se falou em fechar escolas. "Vamos já, a minha mãe vem connosco". Escrevi o que tinha que trazer para duas semanas. Trouxemos o nosso porquinho da Índia, fechámos janelas.
Passaram 2 semanas certas e vão passar mais... E depois voltamos a casa, diferentes.
As compras no supermercado nunca chegam porque o tempo do vírus parece elástico e atira-nos para mais dias e desafios que, não sendo bons, têm sido novos...
No meu caso, por exemplo,
... aprendemos a gostar de iogurtes de côco, os únicos que havia no dia em que o Vasco foi à mercearia mais perto, lugar já com regras de segurança, mesmo aqui no meio do nada
... nunca tinha dado por mim a fazer torradas com as aparas do pão ou a ter medo de deixar cair a sopa, com receio que falte
... não sabia o quão importante era o senhor da carrinha do pão que vem aqui ao pé das pessoas (com a devida distância), e a do peixe, da fruta... desde que me lembro de existir
... saí de Lisboa ansiosa mas não sabia que ia viver uma guerra (confesso que prefiro esta em relação àquelas em que soldados de um lado matam outros do outro e o ódio é de uns para outros). Esta é uma guerra de todas as pessoas (que nunca foram tão iguais... tantos refugiados que somos agora...) contra um vírus rei. Uma guerra que nos aproxima e nos está a mudar, nem nós sabemos o quanto. A trabalhar numa ONG incrível que tem dado um exemplo bonito do que é sermos um só, vejo os dias a passar e a por-me no lugar daqueles que ajudamos. E já eram tantos...
... o isolamento que esta terra nos dá.... a palavra isolamento que aqui é sinónimo de espaço o que ajuda tanto. Podermos andar a pé pelo meio das árvores, da lama, das estradas que não conhecíamos, porque é certo que não vemos ninguém
... fiz uma compota de laranja pela primeira vez porque há muitas nas árvores e quero ter alternativa à manteiga e ao queijo
... o Vasco plantou legumes, pode ser preciso, e está a afinar o piano antigo que recuperou, coisa que nunca teve tempo para fazer. Até me ofereceu um ramo de flores daqui, quando fizemos, domingo, 12 anos de nós!
... eu chamei pessoas amigas para um barco novo, a Lua de Presença, alguns não se conheciam e parecem colegas de missão na nossa Lua
... há novos vídeos de aniversário entre amigos que vemos agora mais vezes no Messenger
... a publicidade mudou, a televisão mudou, a vida mudou... e o número de camisolas que tenho para vestir também...
... a relação entre as amigas do coração é forte como uma ponte, infelizmente e por maus motivos. Abraço minha Pi. A amizade é tão importante agora e continua a resistir à distância, tendo muitas formas de existir que não conhecíamos
... a internet é quase uma necessidade básica: para trabalhar, reunir, jogar, para nos ligar ao mundo igual, para escrever, fazer vídeo chamadas com amigos e amigos dos filhos e irmãos e sobrinhos ... quando ela é limitada ou fraca, a vida fica afetada..
... Enfim, experiências curiosas que também nos ensinam e mudam...
Existem outros pensamentos difíceis que me tiram o sono e me fazem pensar em invernos difíceis...
... falar com colegas de outros países várias vezes por semana, onde está tudo muito pior, colegas com sintomas, colegas com medo, com realidades que me fazem sentir com sorte, no meio do azar...
... e países como Moçambique ou Etiópia ou Equador ou São Tomé? E as favelas do Brasil? E a Índia que tem tantas (mas tantas) pessoas pobres?
... e se o sistema de saúde falha se nos calhar a nós ou aos nossos?
... e se estamos iludidos com políticos que até inspiram confiança (preciso dela como de uma âncora)?
... e no fim, quantos mortos? Que crise? Guerras das outras?
... era preciso tanto para o Trump e o Bolsonaro se espalharem ao comprido e podermos finalmente perdê-los?
... será que isto foi planeado ao pormenor e as teorias da conspiração estão certas (eu acredito e não queria)
... será que vamos ter que começar de novo, novos empregos, contas, casas?
Nesta primavera 20 com sol, flores, borboletas, passarinhos, o tempo não é tão fácil como aquele que conhecíamos antes, tão bom de fútil e certo como era em dezembro 19...
Continuemos a lutar e a dar o exemplo por nós e pelos outros, que são muitos mais do que nós. Muitos mais. E que esta primavera 20 ganhe ao covid 19, connosco a dar tudo o que podemos, sem arrependimentos para a primavera 21, que terá gargalhadas, bebés a aprender a andar, festas na rua, esplanadas cheias de gente feliz, música e nós a darmos todos os abraços que não damos agora.
