Vivemos muitas relações durante a nossa vida. Pais, amigos, maridos/mulheres, filhos, estarão entre as pessoas mais importantes para nós. Hoje escrevo sobre a relação com irmãos.
Existem dois grupos diferentes das "nossas pessoas". As que escolhemos e as que não escolhemos.
Os amigos e namorados/ maridos são pessoas que, de certa forma, escolhemos. Apesar das circunstâncias que nos aproximam, são relações opcionais. Podem durar para sempre, podem não durar.
Os pais e irmãos, não escolhemos. Pais escolhem ter filhos mas não escolhem os filhos que vão ter.
Filhos não escolhem nascer, nem escolhem a Mãe o Pai.
Irmãos não decidem ter irmãos nem as pessoas que querem para este "cargo". Não escolhem ser o mais novo, o do meio ou o mais velho.
Os irmãos são então elementos especiais na nossa vida. São as pessoas que não escolhemos, não nos escolhem e, no entanto, ficarão ligados a nós para toda a vida. Irmãos ou irmãs: únicos, sempre.
Podemos escolher não sermos próximos, podemos ser forçados a não estar próximos, mas nada nos tira a ligação de sangue que nos une.
Existem famílias com 2 filhos e outras com 15. Existem gémeos, trigémeos e mais ainda...
Irmão ou irmã é sinónimo de amor e desafio.
Ter irmãos significa dividir e partilhar, brigar e brincar, competir e cooperar, rir, chorar e chorar a rir.
Irmãos chegam-se para o lado para o outro se sentar, ficam na mesa para esperar que o outro termine a refeição, dão a mão quando atravessam a rua, choram quando o outro ouve ralhar, vão de castigo mesmo sem ter a culpa, sofrem quando o outro não está bem, protegem e são protegidos.
Irmãos combinam estratégias, mentem em grupo, riem de assuntos secretos. Os irmãos puxam os cabelos, fazem cócegas, dizem asneiras, mascaram-se e montam espectáculos.
Irmãos já tomaram banho juntos, sopraram juntos as velas dos anos, estiveram presentes em momentos únicos: quando se começa a nadar, a andar de bicicleta, quando cai o primeiro dente, quando se ouve pela primeira vez a palavra "mano" ou "mana".
Irmãos conhecem-se como ninguém. Podem odiar-se e amar-se e, ainda assim, ficam juntos para sempre.
Irmãos têm contrato sem termo, que só infelicidades podem cessar.
Irmãos são comparados, confundem-se, imitam-se e precisam de se diferenciar.
Irmãos não têm que "bater certo", têm apenas que ser bons irmãos.
Eu sou irmã do meio e mãe de dois filhos. Uma coisa levou à outra.
Ser mãe é também ter a responsabilidade de criar elos e valores, encaminhando uma relação de irmãos para um apoio eterno: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.
Assim é, e assim desejo que seja.
já que gosto de escrever sobre o que penso, o que vivo e o que sinto nesta fase da minha vida, abro a porta deste cantinho para partilhar estas palavras. obrigada pelas visitas.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Livre-trânsito para "Sleeping"
Acredito que devíamos ter espaço e tempo para potenciar e promover as áreas em que somos bons. Por exemplo, dançar, pintar, correr, cozinhar... Nem sempre é fácil com a correria do dia-a-dia, mas é essencial para sermos felizes. Sobretudo depois de sermos mães e pais.
Eu acho que sou boa a dormir! Sei dormir em todo o lado, não preciso de silêncio nem de uma cama. Eu durmo bem e sei dormir muitas horas.
Quando fui mãe pela primeira vez, experimentei a privação deste meu grande prazer e talento. Apesar de ter sido apenas durante alguns meses (válido para mais de 12) e pelo melhor motivo, custou muito esta fase. Agora, com a segunda filha, vivo esta aventura novamente...
Falta-me então a oportunidade de pôr em prática este meu talento.
Por isso surgiu-me a ideia de se criar nos ginásios uma nova atividade: o Sleeping.
Existe o Running, o Jogging, o "Dancing" e para mim, falta o Sleeping.
Em vez de máquinas, ténis, fatos de treino, os praticantes de Sleeping só precisavam de uma coisa: a sua almofada.
Em vez de entrarem no ginásio todos cheios de energia e sacos desportivos fluorescentes, entravam cansados, de ombros descaídos e de almofada debaixo do braço.
Em vez de saírem do ginásio de cabelo molhado, frescos e leves, saíam de olhos meio fechados e inchados, despenteados e com a mesma almofada debaixo do braço...
É claro que dormir mal por causa dos filhos é o melhor motivo para se dormir mal, e na verdade, estar com eles ao colo, seja às 2h, às 5h, seja no sofá, na cama, na mesa da cozinha ou no banco do quarto deles, tem sempre um lado bom: olhar para a carinha deles a dormir (quando adormecem), lindos e tranquilos e ficarmos felizes de os termos connosco...
Mas, percebem-me as mães e pais que vivem esta situação, custa muito e o mais difícil é que raramente conseguimos dormir uma sesta ou até mais tarde, apesar do sono: nem de manhã, nem à tarde, nem à noite, nem em casa, nem no carro, nem no trabalho...
No meio de algum cansaço ri-me a imaginar esta nova atividade. E quase que achei pertinente!
Podíamos fazer Sleeping: 1, 2 ou 3 vezes por semana. Eu queria o "livre -trânsito"!
Eu acho que sou boa a dormir! Sei dormir em todo o lado, não preciso de silêncio nem de uma cama. Eu durmo bem e sei dormir muitas horas.
Quando fui mãe pela primeira vez, experimentei a privação deste meu grande prazer e talento. Apesar de ter sido apenas durante alguns meses (válido para mais de 12) e pelo melhor motivo, custou muito esta fase. Agora, com a segunda filha, vivo esta aventura novamente...
Falta-me então a oportunidade de pôr em prática este meu talento.
Por isso surgiu-me a ideia de se criar nos ginásios uma nova atividade: o Sleeping.
Existe o Running, o Jogging, o "Dancing" e para mim, falta o Sleeping.
Em vez de máquinas, ténis, fatos de treino, os praticantes de Sleeping só precisavam de uma coisa: a sua almofada.
Em vez de entrarem no ginásio todos cheios de energia e sacos desportivos fluorescentes, entravam cansados, de ombros descaídos e de almofada debaixo do braço.
Em vez de saírem do ginásio de cabelo molhado, frescos e leves, saíam de olhos meio fechados e inchados, despenteados e com a mesma almofada debaixo do braço...
É claro que dormir mal por causa dos filhos é o melhor motivo para se dormir mal, e na verdade, estar com eles ao colo, seja às 2h, às 5h, seja no sofá, na cama, na mesa da cozinha ou no banco do quarto deles, tem sempre um lado bom: olhar para a carinha deles a dormir (quando adormecem), lindos e tranquilos e ficarmos felizes de os termos connosco...
Mas, percebem-me as mães e pais que vivem esta situação, custa muito e o mais difícil é que raramente conseguimos dormir uma sesta ou até mais tarde, apesar do sono: nem de manhã, nem à tarde, nem à noite, nem em casa, nem no carro, nem no trabalho...
No meio de algum cansaço ri-me a imaginar esta nova atividade. E quase que achei pertinente!
Podíamos fazer Sleeping: 1, 2 ou 3 vezes por semana. Eu queria o "livre -trânsito"!
domingo, 1 de novembro de 2015
Meninas, Broas e Halloween
Não gosto muito de passar dias em casa...
Em casa, há sempre coisas para arrumar, e ficar em casa é sinal que chove ou que tenho os meus filhos doentes...
Mas hoje soube tão bem... Os homens saíram durante todo o dia, e por isso ficámos só nós as duas...(sem doenças)
Arrumei a casa, brincámos, fomos ao supermercado e ela dormiu uma grande sesta.
Quando vi o post da Célia no Facebook e senti o cheiro da erva doce, tive saudades das Broas que aprendi a fazer no ano passado... E fui fazer. Durante a sesta dela, fiz 17 broas e apesar de sentir falta do meu ajudante pequenino, soube-me muito bem o cheiro, o sossego, o Outono, a casa!
Aproveitei também para terminar a abóbora do Halloween... Não ligo muito a este dia "festivo" mas, por acaso, nos últimos anos, tenho tido sempre uma abóbora neste dia e então, como gosto destes trabalhos manuais (e tenho filhos!) voltei a cortar os três triângulos e a boca e pus a abóbora à entrada...
Quando eles chegaram, havia cheiro a erva doce e canela, o reflexo do sorriso assustador da abóbora na parede do Hall e duas meninas felizes...
Hoje partilho a receita das broas que a minha mãe me ensinou e que costumo fazer com o meu filho, porque é tão fácil e bom...
17 broas para dias de chuva
(a minha versão)
Ingredientes:
200 ml água
150 ml azeite + óleo
1 colher de sopa de mel
1 colher de chá de erva doce
1 colher de chá de canela
500 gr farinha com fermento
200 gr açúcar (loiro idealmente)
Preparação:
Quando os primeiros 5 ingredientes começam a ferver juntos, num tacho, juntamos os últimos dois. Quando mexemos, eles agarram-se rapidamente e ficam 1 só. Desligamos o lume. Forramos aquela bola com papel aderente. Esperamos até arrefecer. Depois é chamar os miúdos e inventar formas! :) Podemos colocar a tradicional amêndoa ou não. No forno estiveram apenas 25 minutos. Pus depois açúcar e canela por cima.
Aqui fica a foto <3
Em casa, há sempre coisas para arrumar, e ficar em casa é sinal que chove ou que tenho os meus filhos doentes...
Mas hoje soube tão bem... Os homens saíram durante todo o dia, e por isso ficámos só nós as duas...(sem doenças)
Arrumei a casa, brincámos, fomos ao supermercado e ela dormiu uma grande sesta.
Quando vi o post da Célia no Facebook e senti o cheiro da erva doce, tive saudades das Broas que aprendi a fazer no ano passado... E fui fazer. Durante a sesta dela, fiz 17 broas e apesar de sentir falta do meu ajudante pequenino, soube-me muito bem o cheiro, o sossego, o Outono, a casa!
Aproveitei também para terminar a abóbora do Halloween... Não ligo muito a este dia "festivo" mas, por acaso, nos últimos anos, tenho tido sempre uma abóbora neste dia e então, como gosto destes trabalhos manuais (e tenho filhos!) voltei a cortar os três triângulos e a boca e pus a abóbora à entrada...
Quando eles chegaram, havia cheiro a erva doce e canela, o reflexo do sorriso assustador da abóbora na parede do Hall e duas meninas felizes...
Hoje partilho a receita das broas que a minha mãe me ensinou e que costumo fazer com o meu filho, porque é tão fácil e bom...
17 broas para dias de chuva
(a minha versão)
Ingredientes:
200 ml água
150 ml azeite + óleo
1 colher de sopa de mel
1 colher de chá de erva doce
1 colher de chá de canela
500 gr farinha com fermento
200 gr açúcar (loiro idealmente)
Preparação:
Quando os primeiros 5 ingredientes começam a ferver juntos, num tacho, juntamos os últimos dois. Quando mexemos, eles agarram-se rapidamente e ficam 1 só. Desligamos o lume. Forramos aquela bola com papel aderente. Esperamos até arrefecer. Depois é chamar os miúdos e inventar formas! :) Podemos colocar a tradicional amêndoa ou não. No forno estiveram apenas 25 minutos. Pus depois açúcar e canela por cima.
Aqui fica a foto <3
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Às vezes birra, muitas vezes sono...
Podia ser uma conversa real, mas não é. Podia ser uma carta, mas ele não sabe escrever.
Apenas a imaginei e escrevi porque me parece muito possível que assim seja, e também para me lembrar que são pequeninos os nossos filhos, e muitas vezes nos esquecemos disso.
"Mãe… sabes uma coisa que eu queria dizer-te? Tenho saudades de dormir a sesta…Os dias sem dormir a sesta são muito grandes, mãe!
Apenas a imaginei e escrevi porque me parece muito possível que assim seja, e também para me lembrar que são pequeninos os nossos filhos, e muitas vezes nos esquecemos disso.
"Mãe… sabes uma coisa que eu queria dizer-te? Tenho saudades de dormir a sesta…Os dias sem dormir a sesta são muito grandes, mãe!
Na escola antiga dormíamos todos, mesmo os dos 5 anos... Sabias? Agora, quando saio da escola nova e estou no carro com vocês, já tenho tanto sono!
Sabes porque é que não durmo logo? Porque ainda quero estar contigo e com o pai, aquele bocadinho, depois do jantar... Senão, eu dormia logo e tu levavas-me ao colo, não levavas mãe?!
Sabes porque é que não durmo logo? Porque ainda quero estar contigo e com o pai, aquele bocadinho, depois do jantar... Senão, eu dormia logo e tu levavas-me ao colo, não levavas mãe?!
Sabes mãe, quando estou a jantar e não quero comer, nem estar sentado!? É porque estou mesmo cheio de sono e já quero ir para a cama... Mas não quero, ao mesmo tempo, porque estamos ali juntos...
Tu à noite também estás cansada, que eu sei… Falas mais alto e dizes muitas, muitas vezes “cuidado com a mana”, “senta-te”, “pega no garfo e na faca”…. Trabalhas e tens um dia muito grande, como o meu, não é? Eu agora sei, porque eu também não durmo, e sou crescido…
Sabes, na escola nós fazemos muitas coisas e eu corro muito e jogo à bola… Tu corres?
Tenho muito sono e tenho saudades de dormir a sesta, mas não deixam, na escola nova, porque tenho 5 anos e já sou crescido. Mas eu dormia um bocadinho depois do almoço, se me deixassem... mas não deixam que eu já perguntei…
E no fim-de-semana, quando tu dizes que eu devia aproveitar para dormir para depois poder estar acordado até mais tarde, quando vão lá jantar os primos? Eu quero aproveitar para brincar e estar com a mana, percebes mãe? Nos outros dias, não estou tanto tempo...
Era isto que queria dizer-te, para tu saberes que não faço mais birras agora nem estou mais chato, só porque estou na "pré" ou porque tenho uma mana. É que eu tenho sono, mãe...”
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Um sofá, algures no espaço
Numa noite destas, depois da agitação normal de um dia de trabalho e de mãe, sentei-me no sofá. Nesse dia, estava sem cara-metade e como estava tão cansada, nem a televisão, nem o telemóvel consegui ligar. Luzes e som não eram compatíveis comigo.
Fiz então uma coisa que não fazia há muito tempo. Ficar em silêncio, deitada no sofá a olhar à volta. Que fácil e que difícil!
A propósito disto, penso num novo cantinho que devia existir no nosso mundo. Um sítio sem fichas de eletricidade, sem aparelhos eletrónicos, brinquedos, ruídos, comida, papéis e interrupções... Não podia, por isso, ser no carro, no ginásio, na rua, nem na casa de banho lá de casa.
Teria que ser algures no espaço, para lá do céu que vemos, para podermos estar no meio da escuridão e do vazio, e longe.
Tinha que ter um sofá, porque era justo que fosse confortável.
Lá, só nós, emoções, palavras e pensamentos, silêncio e tempo. Sozinhos ou não.
No início, acredito que custasse ir para lá, ... "olho para onde?", acho que seria logo atropelada com o ciclo ... "amanhã tenho que pagar a escola, ir ao correio, comprar detergente, é melhor ir pôr mais uma camisola na mochila porque deve estar frio...".
Bom, tinha que tentar fazer "delete" destes pensamentos e pensar em “nada”. Sem filhos, Spotify, televisão, jogos de telemóvel, livros, passatempos, talões da carteira e marido, o que sobra? Parece que nada, mas antes de tudo isto existir, penso que já existia eu.
Queria começar por "pensar em mesmo nada" e depois cantar uma música que já não ouço há anos, ou lembrar momentos da infância, da adolescência, qualquer coisa desacelerada e que não me trouxesse tarefas para fazer a seguir. Não sei se conseguia às primeiras... Aliás, não sei se aguentava estar 10 minutos neste espaço, sem adormecer...
Às vezes, levava o piolho mais velho, sentava-o ao meu colo e tinha aquelas conversas que já não consigo ter tantas vezes, quando o deito, pois temos a nossa bebé no berço e não a queremos acordar. Aqueles bocadinhos em que ele chama (depois de pedir água, ir à casa-de-banho) e diz “Sabes mãe… queria dizer-te uma coisa”, e não sabe o quê, mas quer-me ali.
No sofá do espaço, podíamos falar sobre os assuntos dos “5 anos”, ou seja, futebol, escola e as bizarrias maravilhosas que ele inventa e que eu adoro seguir. Podíamos falar alto, rir, fazer disparates, sem interrupções.
E, no entretanto, eu dava beijinhos sem ele dar conta e festinhas naquelas bochechas tão fofas de rapaz pequenino.
A fofa mais pequenina, levava quando estivesse a dormir, para apertar, dar todas as festinhas que quero e olhar para ela. Só isso.
E já agora, só pedia mais duas coisas.
Que existisse algures, perto do sofá, uma prateleira com tudo o que perdemos nos últimos anos... tipo ganchos, elásticos, meias, brincos, tampas de tupperware, cartas e cromos infantis, descascadores de legumes... Só para resolver esta inquietação.
E outra, a última, era poder deixar um recado para, caso adormecesse no sofá do espaço, orientassem tudo e me deixassem ficar lá 3 dias, sem abrir os olhos.
Era isto. Vou voltar à minha vida feliz e normal.
A propósito disto, penso num novo cantinho que devia existir no nosso mundo. Um sítio sem fichas de eletricidade, sem aparelhos eletrónicos, brinquedos, ruídos, comida, papéis e interrupções... Não podia, por isso, ser no carro, no ginásio, na rua, nem na casa de banho lá de casa.
Teria que ser algures no espaço, para lá do céu que vemos, para podermos estar no meio da escuridão e do vazio, e longe.
Tinha que ter um sofá, porque era justo que fosse confortável.
Lá, só nós, emoções, palavras e pensamentos, silêncio e tempo. Sozinhos ou não.
No início, acredito que custasse ir para lá, ... "olho para onde?", acho que seria logo atropelada com o ciclo ... "amanhã tenho que pagar a escola, ir ao correio, comprar detergente, é melhor ir pôr mais uma camisola na mochila porque deve estar frio...".
Bom, tinha que tentar fazer "delete" destes pensamentos e pensar em “nada”. Sem filhos, Spotify, televisão, jogos de telemóvel, livros, passatempos, talões da carteira e marido, o que sobra? Parece que nada, mas antes de tudo isto existir, penso que já existia eu.
Queria começar por "pensar em mesmo nada" e depois cantar uma música que já não ouço há anos, ou lembrar momentos da infância, da adolescência, qualquer coisa desacelerada e que não me trouxesse tarefas para fazer a seguir. Não sei se conseguia às primeiras... Aliás, não sei se aguentava estar 10 minutos neste espaço, sem adormecer...
Às vezes, levava o piolho mais velho, sentava-o ao meu colo e tinha aquelas conversas que já não consigo ter tantas vezes, quando o deito, pois temos a nossa bebé no berço e não a queremos acordar. Aqueles bocadinhos em que ele chama (depois de pedir água, ir à casa-de-banho) e diz “Sabes mãe… queria dizer-te uma coisa”, e não sabe o quê, mas quer-me ali.
No sofá do espaço, podíamos falar sobre os assuntos dos “5 anos”, ou seja, futebol, escola e as bizarrias maravilhosas que ele inventa e que eu adoro seguir. Podíamos falar alto, rir, fazer disparates, sem interrupções.
E, no entretanto, eu dava beijinhos sem ele dar conta e festinhas naquelas bochechas tão fofas de rapaz pequenino.
A fofa mais pequenina, levava quando estivesse a dormir, para apertar, dar todas as festinhas que quero e olhar para ela. Só isso.
E já agora, só pedia mais duas coisas.
Que existisse algures, perto do sofá, uma prateleira com tudo o que perdemos nos últimos anos... tipo ganchos, elásticos, meias, brincos, tampas de tupperware, cartas e cromos infantis, descascadores de legumes... Só para resolver esta inquietação.
E outra, a última, era poder deixar um recado para, caso adormecesse no sofá do espaço, orientassem tudo e me deixassem ficar lá 3 dias, sem abrir os olhos.
Era isto. Vou voltar à minha vida feliz e normal.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Não é só cor-de-rosa
E se o tempo parasse e eu pudesse ficar só a olhar para ti...
Se eu pudesse ficar muito tempo a passar a minha mão na tua
cabeça, a sentir os teus cabelos bebés, quando posas a cabeça no sofá, a
fingir que fazes ó-ó. És tão doce.
Queria estar menos cansada, quando à noite só queres colo e,
por isso, choras muito e alto, e eu, em vez de me sentar no chão do teu quarto
e ficarmos as duas às escuras abraçadas a trocar mimos, canso-me do choro e tenho
pressa para fazer coisas e mais coisas para depois me poder sentar, porque com
tantas coisas que tenho na cabeça é isso que considero prioritário…
Se, em vez de correr para chegar cedo à escola do mano, cedo
à tua escola, cedo ao trabalho do pai e cedo ao meu trabalho, eu pudesse
esquecer todos e tudo à minha volta e ficar contigo em casa, ao colo, de pijama, as duas
despenteadas só a olhar a janela, e eu a ver-te a encolher o ombro e a apontares para
todo o lado, com o teu dedo tão pequenino…
Fiquei eu de te apresentar e dar ao mundo e parece que não
tenho tempo.
Pudesse eu escrever estas palavras sem sentir uma enorme
culpa e sem que as lágrimas me escorram pela cara.
Eu sei bem que tu e o mano são o mais
importante, que posso parar se quiser, que tudo o resto é relativo, que posso deixar
por fazer o que não é importante, sei perfeitamente que o que quero é
estar mais perto de vocês.
Mas quando escolho ficar com vocês e ponho de lado outras
responsabilidades, deixo coisas por tratar, arrumar e paro porque vos prefiro... não consigo só brincar, só permitir, só estar… ralho,
corro, estico os vários braços para apanhar coisas do chão, ao mesmo tempo que digo “sim,
estou a ver”, e ainda arrumo loiça, arrumo casacos, lavo a chucha e encho um balão para
vocês. Poucas vezes há silêncio, tempo, nada, ninguém e só vocês.
E neste nosso mundo, tu és a segunda, já encaixaste no meio de outros livros que
havia na prateleira, já não tens tanto espaço para te mostrares e para nos
chamares. Sinto que não te consigo puxar para mim, tanto quanto queria. Felizmente o amor multiplica-se facilmente e não implica tempo nem espaço para existir para ti. Ele é igual e muito.
Para enxugar as lágrimas, penso que também sou a segunda e o
Pai também. E que afinal, a verdade é que mesmo com o mano também chorava, porque fazia metade
do que queria…
Sem lágrimas, resta-me prometer que vou (estou a) tentar estar mais tempo ao pé de ti e do mano, só para vocês.
Mãe é muita coisa. E Mãe não são só boas coisas. Mãe tenta e
quer muito, mas faz metade do que gostaria, sempre… se calhar é isto.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Maria, a última opção
Novamente, a escola...
Quando tivemos que decidir sobre as 5 opções de jardins-de-infância para o nosso filho, numa lista grande de alternativas, sem referências nem conhecimento suficientes, a escolha teve a ajuda de um ex-colega, que encontrei por acaso numa feira de Natal da junta de freguesia, no ano passado, perto da nossa recente casa.
Na hora da decisão, largos meses depois, foi ele que me orientou sobre algumas escolas, que conhecia.
A espera pelo resultado foi longa... "ele é de Outubro, vai ser difícil!", diziam várias pessoas..."mas como é para o pré escolar, tem que entrar!"...
Quando chegou o dia da afixação dos "colocados", corri três agrupamentos, de dedo apontado, descendo listas de nomes... Lucas, Lucas, Lucas... Havia alguns, mas não o meu.
Seguiram-se muitos telefonemas, idas a secretarias, consulta à antiga DREL, atual DGEE, listas de espera, critérios de seleção, leis, promessas, conversas ocasionais com amigos e alguma ansiedade...
"Ele tem que entrar" aconchegava-me, mas não era o nome de uma escola.
Depois de algumas semanas, no meio de um jardim, no meio das férias, no meio de agosto, no meio de Vila Nova da Barquinha, o telefone tocou ... "é para informar que o Lucas entrou na última opção!"
Misto de sentimentos e dúvidas: "Pelo menos entrou! ... Última opção?! ...O importante é a educadora! ... O que vamos fazer?"...
Vamos aos "felizmentes".
Felizmente a Filipa conhecia uma amiga de uma amiga que tinha o filho nesta nossa última opção.
Felizmente o ex-colega disse-me que havia lá educadoras boas "...mas se for a Maria podes ficar tranquila da vida!".
Felizmente falei com a amiga da amiga e o filho estava com a "excelente" Maria.
Felizmente decidimos aceitar a vaga e arriscar pedir para ele ficar com este menino e com esta Maria. Felizmente ele ficou.
Tudo porque felizmente, em agosto, uma professora do agrupamento da última opção, decidiu antecipar-se e tratar das listas de espera, porque lhe preocupavam estes pais...
Quem é afinal a Maria?
Uma educadora com cerca de 60 anos, descontraída e sorridente, que vai de bicicleta para a escola, é alérgica ao leite de vaca e que contou a história do toiro que engoliu um menino do tamanho de um grão de milho e que (felizmente) deu um pum e o fez sair...
Muito obrigada a todas as pessoas que nos permitiram chegar à última opção: a Maria! Estamos, de facto, tranquilos da vida.
(hoje, quando levei o Lucas à escola, a pé - pois é mesmo ali pertinho, levei também um sorriso nos lábios e o braço direito cansado, pois ele falou e saltitou o caminho todo. Até ouvi um "já estou habituado!" que ele disse, baixinho, para ele...)
Quando tivemos que decidir sobre as 5 opções de jardins-de-infância para o nosso filho, numa lista grande de alternativas, sem referências nem conhecimento suficientes, a escolha teve a ajuda de um ex-colega, que encontrei por acaso numa feira de Natal da junta de freguesia, no ano passado, perto da nossa recente casa.
Na hora da decisão, largos meses depois, foi ele que me orientou sobre algumas escolas, que conhecia.
A espera pelo resultado foi longa... "ele é de Outubro, vai ser difícil!", diziam várias pessoas..."mas como é para o pré escolar, tem que entrar!"...
Quando chegou o dia da afixação dos "colocados", corri três agrupamentos, de dedo apontado, descendo listas de nomes... Lucas, Lucas, Lucas... Havia alguns, mas não o meu.
Seguiram-se muitos telefonemas, idas a secretarias, consulta à antiga DREL, atual DGEE, listas de espera, critérios de seleção, leis, promessas, conversas ocasionais com amigos e alguma ansiedade...
"Ele tem que entrar" aconchegava-me, mas não era o nome de uma escola.
Depois de algumas semanas, no meio de um jardim, no meio das férias, no meio de agosto, no meio de Vila Nova da Barquinha, o telefone tocou ... "é para informar que o Lucas entrou na última opção!"
Misto de sentimentos e dúvidas: "Pelo menos entrou! ... Última opção?! ...O importante é a educadora! ... O que vamos fazer?"...
Vamos aos "felizmentes".
Felizmente a Filipa conhecia uma amiga de uma amiga que tinha o filho nesta nossa última opção.
Felizmente o ex-colega disse-me que havia lá educadoras boas "...mas se for a Maria podes ficar tranquila da vida!".
Felizmente falei com a amiga da amiga e o filho estava com a "excelente" Maria.
Felizmente decidimos aceitar a vaga e arriscar pedir para ele ficar com este menino e com esta Maria. Felizmente ele ficou.
Tudo porque felizmente, em agosto, uma professora do agrupamento da última opção, decidiu antecipar-se e tratar das listas de espera, porque lhe preocupavam estes pais...
Quem é afinal a Maria?
Uma educadora com cerca de 60 anos, descontraída e sorridente, que vai de bicicleta para a escola, é alérgica ao leite de vaca e que contou a história do toiro que engoliu um menino do tamanho de um grão de milho e que (felizmente) deu um pum e o fez sair...
Muito obrigada a todas as pessoas que nos permitiram chegar à última opção: a Maria! Estamos, de facto, tranquilos da vida.
(hoje, quando levei o Lucas à escola, a pé - pois é mesmo ali pertinho, levei também um sorriso nos lábios e o braço direito cansado, pois ele falou e saltitou o caminho todo. Até ouvi um "já estou habituado!" que ele disse, baixinho, para ele...)
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Heróis de um metro
"Olá eu sou a Joana, a mãe dele... queria agradecer-te!"
Foi isto que me apeteceu dizer hoje ao Iron Man. Pouco mais de 8 cm tem este super-herói, que me aconchega a alma, pois acompanhou hoje o nosso filhote à escola... e ficou lá com ele.
Ontem foram três skates com luzes, com sensivelmente o mesmo tamanho, mas era ridículo agradecer-lhes ...
Depois de duas semanas em que deixámos o nosso filho a chorar no novo jardim de infância, e deixámos também o nosso coração torcido de sofrimento, ontem e hoje, confirmámos a nós mesmos que valeu a pena repetir, vezes sem conta: "Vai correr bem!"
Já não houve lágrimas e o nosso coração voltou à forma normal, ou quase... Agora sim, sinto que o deixo num "jardim"!
Às mães e pais que passam pelo mesmo, desejo força e persistência. É tão difícil termos que os arrancar de nós, virarmos costas e sermos rijos quando o que nos apetece é ficar em casa com eles ao colo, como se tivessem alguns meses apenas.
Sobretudo, como em tudo o que os envolve, é difícil nunca termos a certeza absoluta se estamos certos ao dizer "Vai correr tudo bem!", mesmo que gostemos das pessoas que ficam com eles.
Eles são, afinal, os heróis de um metro que, mesmo cheios de medo, sem conhecerem aqueles adultos, crianças, rotinas, espaços, horários e regras novas, conseguem deixar de chorar depois de virarmos costas e enfrentar estes desafios, durante dias...
São desafios normais? Sem dúvida, mas agora são os nossos filhos que os vivem.
Foi isto que me apeteceu dizer hoje ao Iron Man. Pouco mais de 8 cm tem este super-herói, que me aconchega a alma, pois acompanhou hoje o nosso filhote à escola... e ficou lá com ele.
Ontem foram três skates com luzes, com sensivelmente o mesmo tamanho, mas era ridículo agradecer-lhes ...
Depois de duas semanas em que deixámos o nosso filho a chorar no novo jardim de infância, e deixámos também o nosso coração torcido de sofrimento, ontem e hoje, confirmámos a nós mesmos que valeu a pena repetir, vezes sem conta: "Vai correr bem!"
Já não houve lágrimas e o nosso coração voltou à forma normal, ou quase... Agora sim, sinto que o deixo num "jardim"!
Às mães e pais que passam pelo mesmo, desejo força e persistência. É tão difícil termos que os arrancar de nós, virarmos costas e sermos rijos quando o que nos apetece é ficar em casa com eles ao colo, como se tivessem alguns meses apenas.
Sobretudo, como em tudo o que os envolve, é difícil nunca termos a certeza absoluta se estamos certos ao dizer "Vai correr tudo bem!", mesmo que gostemos das pessoas que ficam com eles.
Eles são, afinal, os heróis de um metro que, mesmo cheios de medo, sem conhecerem aqueles adultos, crianças, rotinas, espaços, horários e regras novas, conseguem deixar de chorar depois de virarmos costas e enfrentar estes desafios, durante dias...
São desafios normais? Sem dúvida, mas agora são os nossos filhos que os vivem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)