quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Setembro

 Termina o setembro, que começa com areia nos pés, sal e sol na pele e acaba com necessidade de férias. 

Um mês de mudanças. O mês da escola, dos livros, do material escolar, das rotinas e das consultas.

Este ano mudaram os dois de ciclo. Eu fico sempre ansiosa, sob pressão, para que não falhe nada e não falte nada. Deitar a horas, comer bem, acertar com todos os horários da semana. Ainda mudámos o quarto deles: menos cores, menos bonecos, mais tranquilidade. 

Depois as festas de anos. Neste mês nasceu a Inês. Há festa logo no arranque das aulas. Prendas, convites, bolos, festa, família e amigos voltam a juntar-se para ela. Ele faz anos nós próximos dias, mais convites, felicidade e mais festas. 

Ainda houve tempo para constipações, faltas à escola, noites mal dormidas. E trabalho? Muito.

No final, estes 30 dias ultrapassaram a velocidade permitida pela minha cabeça e põem-nos à prova. 

A primeira temporada do outono, o choque com os dias cinzentos, o teste às mães dos sete instrumentos.

Num balanço, correu tudo bem: felizes, tranquilos, integrados. E eu a cair de cansaço, com um sorriso nos lábios e com vontade de inverter a marcha para junho. Palavras para outubro? "Obrigada pela greve de segunda e pelo feriado de terça." Vamos fugir e já voltamos.



quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Lugares cativos na amizade

Vivo em Lisboa há 25 anos, mas não sou de Lisboa. Isso é claro e está bem presente. Podemos estar décadas fora da nossa base mas somos da base. Eu sou de Santarém. E quando passamos a infância e a adolescência nessa base as memórias podem ser tantas e tão boas. Sou daquelas que, por mais amizades que faça, maravilhosas, inspiradoras, diferentes, ninguém é mais especial que os amigos de Santarém. Gosto de imaginar a minha sala da amizade com muitos lugares, sorte a minha, mas os de Santarém são os da fila da frente. Tenho a certeza que os outros percebem perfeitamente, até porque muitos deles também não são do lugar onde vivem. 

Lisboa é incrível e eu identifico-me muito mais com ela do que com Santarém. Mas não importa, parte importante das minhas pessoas estão lá. 

Percebendo isso com a idade, obriguei-me sempre a regar essa amizade. A saber viver com uma sala de amigos algo vazia. A limpar os bancos da frente com regularidade como aqueles senhores que lavam o carro horas e lhes colocam um protetor de tecido em cima para que tudo brilhe. Quer as amigas de infância quer os amigos da "vida anterior", longa e importante, têm um camarote e lugares cativos na minha vida. E felizmente (mesmo feliz por isso) consegui manter muitos desses lugares aquecidos porque o contacto continua, sempre, adaptado ao agora. 

A vida sabe ser generosa. Mas é como com as plantas, temos que ir lá, cuidar, regar, dar luz e criar relação, nem que seja por mensagem. Assim é com os meus amigos de Santarém. Arranjei formas e alimentei amizade em nós os 4 para estas ligações permanecerem. "Vamos a Santarém", "vamos com os amigos da mãe" são frases que geram felicidade na família. Isso é um trabalho difícil, mas no fim todos os quilómetros valem a pena. 

E esses amigos sabem que estão na fila da frente. Têm lá o nome escrito. E, igualmente bom, eu também acredito estar na fila da frente deles ("Joana", "Ju","Juzinha", "Joaninha", varia de banco para banco). 

Muitos de nós saímos de Santarém mas todos aprendemos a estar juntos à distância, a manter o lugar, ninguém o perde. Isso é riqueza verdadeira. Felizmente o Vasco sabe, os meus filhos sabem e seguem-me para onde eu tenho que ir. Obrigada por isso.

O verão é maravilhoso porque é também o tempo destes encontros. São dois ou três abraços por ano que, até em 2020, conseguimos manter com dificuldade, muitos de nós (milhões de saudades dos restantes). É assim a amizade. Tem muitas formas, mas sobrevive e marca lugar seja como for, se nós quisermos. Adoro-vos tanto e ainda sinto os vossos abraços em mim, cativos.

(fotos seriam mil, mas escolho estas que resumem bem o tema) 









terça-feira, 13 de julho de 2021

As semanas que voam

Eles nascem e de repente têm dentes a cair, dizem asneiras e compram telemóvel. O tempo que é tão bom e os vê crescer, voa. Gosto de viagens mas esta podia ser mais pausada. 

As mães mais velhas têm razão, aproveita o colo que eles crescem rápido, damos por eles e saem de casa sem dizer nada...

A louca pandemia que decidiu encher o nosso tempo com trabalho na sala, intervalos para máquinas de roupa, café na cozinha que tem pratos e talheres que bem podiam voar para a máquina sozinhos, horas de almoço onde se arrumam camas e reuniões daquelas que sabemos... com filhos e cães a passar ao lado.

É assustador, cansativo, quase de enlouquecer. É também sinal de vida, uma corrida boa à volta deles e junto deles, bom sinal, apesar de todo o barulho que isso traz.

Estas semanas antes das férias, depois de 18 meses de um jogo novo em que não passamos de nível nem por nada, são aquelas em que nunca sei se quero que passem depressa ou devagar.

Se vão a voar, rapidamente pego nas toalhas e chinelos e vejo as férias a terminar. Se passam devagar, nunca mais chegam as férias.

Somos insatisfeitos, mas são problemas bem bons de lidar. Se passam devagar, também podemos aproveitar esta loucura de férias de filhos em casa, com pais a trabalhar, que talvez haja beleza nisto (lá bem loooonge). 

E em setembro, se voltamos às rotinas do pré-covid, como vai ser? Voltaremos a ter as mesmas rotinas, trânsito, chegar à escola à noite, estar tempo a mais no escritório a encher horário... Medo.

Talvez não, vai haver equilíbrio, nem 8 nem 80, vamos conseguir trazer as lições boas e melhorar as nossas semanas que voam. 

Tenho pensado muito que não custava nada o Marcelo dar-nos mais 22 dias de férias extra, já vacinados. Mais 4 semanas a voar mas sem pensar em trabalho, daquele de casa, daquele trabalho trabalho, do trabalho das contas aos casos diários e preocupações de lavar máscaras, tirar sapatos, habituar os miúdos a metros de distância... Hmmm... talvez 220 dias fosse mais justo. 

Sou só eu que sinto que tudo isto é o oposto de férias e que tenho em dívida para com a minha vida e a dos meus filhos descanso daquele..  lembram-se?!?!

Quero semanas a voar baixinho, com silêncio, sem telejornais, telemóveis, teleconferências, teams e o raio que o parta...

Quero agora voar quase parada, descansada, agarrada a toda a gente que caiba num abraço muito desejado, todos a ver o sol a pôr-se com uma cerveja na mão, sem relógio, só a ver o tempo voar. Fica a proposta. 220.

Boas férias.❤️





quarta-feira, 12 de maio de 2021

Esperem um pouco

Mãe é aquela viagem que já, por várias vezes, descrevi aqui. Intensa, bonita, mágica.

Mergulhamos, logo na barriga grande, num oceano de emoções, aventuras, dúvidas, sacrifícios.

Os nossos dias passam a ser recheados por um amor de veludo, olhares milionários, descobertas dignas de carimbo no nosso passaporte de pessoa e mulher.

"Espera, já vou. Oh mãe, vá lá!!! Só mais um bocadinho!!! Quero colo. A mãããeeee. Mããeeeeeee!" são a banda sonora dos primeiros anos de maternidade (vezes o número de filhos).

Quando termina o colo diário, as fraldas, as chuchas, a dependência, vêm outras coisas bonitas da viagem de mãe mas também de pessoa, no singular. 

E vem, claro, o cão (estamos nessa fase).

E, eu em particular, sinto-me nesta fase de precisar de espaço, sobretudo depois de uma pandemia sufocante. Sinto que abri agora a porta do "agora esperem um pouco, preciso de um bocadinho, vocês conseguem". 

Os 15 meses de pandemia que já somamos, o tempo de família intenso e (muitas vezes) bom, o espaço reduzido para multiplicar tarefas infinitas (para além do sofrimento, ansiedade, preocupações) atingiram o momento de "ok, compensei um vazio de culpa por não estar com eles, estivemos juntos no ano mais importante para tal, já paguei as minhas dívidas, esgotei o medo e agora... vamos todos respirar"... 

Sabemos que distanciar para valorizar, manter o espaço pessoal são coisas importantes para a saúde familiar e mental de cada um. Depois deste carrossel covidiano, sinto que é tempo de recuperarmos o que é só nosso, nós e eles. (Também sentem?) 

E não é sair do pé deles, nem ir viajar um mês sozinha que penso fazer. É só e simplesmente mudar o chip, abrir novas janelas para respirar outro ar. Criar outras expectativas e adaptar-me à sua (também) independência, deixando-os também crescer e aproveitar o "além-pais".

Agora é tempo de "Esperem um pouco...

... Que a mãe precisa de novas playlist e de cantar alto abanando a cabeça de olhos fechados como na viagem de finalistas

... Que a mãe inchou um pouco por causa da casa onde viveram 9+9 meses, e das comidas que acalmavam a culpa e os receios, e por isso precisa de foco, de respeito por este imóvel que se quer mexer

... Que há massagens que querem ser feitas em horas de mimo e silêncio, fora de casa, numa sala com cheiros tranquilos e onde tudo está arrumado

... Que há programas em ecrãs que quero ver no horário dos desenhos animados e me preenchem enquanto indivíduo que sonha em horário de expediente

... Que há flexões que estavam na fila e desafios físicos que têm que ser superados. Sim, na sala, online, podem fazer também 

... Que há concertos, petiscos e amigos que estão na agenda congelada de 2020 e querem regressar

... Que vos adoro mais que tudo, mas não serei melhor mãe se não voar ao meu ritmo e limpar a poeira mental que vai ficando, trazendo depois para aqui essa leveza traduzida em paciência, paz e tranquilidade (que a pandemia levou sem avisar)."

O sol, o avistar das férias, o regressar aos amigos devagar, a data da vacina que há-de chegar, somando a toda esta sensação, trazem uma estranha felicidade que temos que agarrar, que sabe a vitória, a liberdade, a espaço para recarregarmos as baterias tão gastas que não podem esperar mais...


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Daqui para fora

Viajar é uma das minhas coisas preferidas de todas as coisas. Porque significa que estou de férias, que vou conhecer coisas novas, vou aprender, vou descobrir... Numa fase destas, em que a sensação de prisão está bem presente, termos uma viagem marcada para os 4 desde o Natal, soube a euromilhões...

Tivemos dúvidas se seria seguro, se podíamos, mas as pesquisas e pedidos de informação foram claros: nada nos impedia de ir......... A sério?! Vamos fazer malas!? Vamos sair daqui para fora?!

Depois começou a preocupação com o facto dos miúdos terem que fazer teste. É preciso fazer teste à COVID-19 até 72 horas antes de ir e o teste é gratuito desde que seja feito em laboratórios com acordo. O site "VisitMadeira" é muito esclarecedor para quem quer ir. Temos também que preencher um formulário no site "Madeira safe". Felizmente quando liguei a marcar disseram que só a partir dos 12 anos é que tem que se fazer o teste. Yes!!! 

A felicidade a caminho do aeroporto, a passar pelos corredores, a fazer o embarque... Um pouco menos agradável foi ver estes espaços quase vazios. Já o avião ia tão cheio que fez impressão. 

Na Madeira, havia recolher obrigatório às 18h. De resto, tudo ok, tudo aberto e muita natureza à mão. Alugámos carro e isso fez com que passássemos muito tempo só os 4, reduzindo o risco. "Só os 4"... respeitinho... Aquelas montanhas impressionantes de tão bonitas estiveram sempre connosco. 

O clima variou entre os 8 (lá em cima) e os 22/23 graus, cá em baixo. Todos os dias o porta bagagens tinha roupa quente e fria. 

Sinto alguma vergonha em dizer que não conhecia a Madeira. O meu país tem uma ilha tropical, prima do Brasil e de África e eu não sabia. Amei. As paisagens são totalmente diferentes do continente e tão diferentes dos irmãos Açores. Os Açores são calma, equilíbrio, paz. A Madeira é solta, fala alto e explode  natureza. Que bonita esta mistura. Que sorte temos nós. Vimos flores exóticas, saboreámos frutas quentes, demos comida a pássaros novos, ouvimos o português com nova pronúncia, e tudo era Portugal...

Ficámos num hotel muito acessível, num apartamento onde passámos muitas horas mas onde estávamos livres também.

Foram poucos dias mas a sensação de liberdade, de sentir que há coisas boas a acontecer à volta da nossa bolha, é maravilhosa. A felicidade abriu portas e saíu daqui para fora.

Foi a segunda viagem que fizemos com os nossos filhos. E que especial é vê-los a apreciar e a valorizar a descoberta do mundo. Apanharam muita seca no carro, ralharam muito mas, no fim, adoraram.

Beberam Brisa, experimentaram maracujá de pêssego, maracujá de tomate, maracujá de lima e maracujá de banana. Viram mar, bananeiras, caminhos lindos. Experimentaram uma migalha do mundo e parecem ter enchido a barriga. Pelo menos, os sorrisos foram generosos.

Ainda sinto a magia presente. Saímos daqui para fora, respirámos outro ar, afastámo-nos deste sufoco. E vimos cores, sentimos cheiros e libertámos felicidade diferente da que sentíamos aqui. Quem puder, não pense duas vezes. Façam malas e levem os miúdos, ou vão sozinhos, ver que o nosso mundo por fora continua bonito, apesar de tudo.

(Alguns locais que visitámos e aconselho: ponta de São Lourenço, Cabo Girão, Jardim botânico, Catedral, mercado das frutas, Seixal, lagoa do Faial, caminhada dos Balcões, Madalena do Mar, Santana e Câmara de Lobos.)















quarta-feira, 17 de março de 2021

O meu dia do Pai

Não há um ano que seja mais fácil que o anterior...

Dói sempre e muito. E começo a antecipar essa dor dias antes. Sinto uma espécie de raiva misturada com tristeza e com inveja. 

Esta dor de perda de uma pessoa tão importante quanto o nosso pai é grande e teima em ser grande. E sobretudo quando, em alguma situação, nos pedem o nome ou dado e nós temos que dizer que já morreu. Até parece que não tenho Pai. Quando morre uma pessoa tão nossa, ela é igualmente nossa para sempre. Eu tenho Pai e os meus irmãos também, a minha mãe tem marido e os nossos filhos sempre terão avô. Faço questão que o saibam. Têm 2 avôs. Não é justo para ninguém que a sua presença e vida desapareçam só porque morrem.

Ele continua aqui. Ele esteve comigo no lançamento do meu livro. E deu-me os parabéns, até lhe brilharam os olhos, que eu vi... Ele está connosco neste ano duro de distâncias em que estamos todos longe uns dos outros, não só dele.

O toque das suas camisolas está nos meus dedos. O cheiro do perfume dele é o das memórias. A mão perfeita dele está na nossa pele. O cabelo macio e grisalho igualmente. E o olhar parecido com o meu, está aqui bem dentro de mim. 

Vivo há 43 anos, 24 sem ele ao vivo, mas são 43 anos com ele e serão os próximos até nos juntarmos de novo. Sempre que os meus filhos oferecem a prenda da escola ao Vasco neste dia especical, lá estou eu ao lado, pequenina a oferecer a minha ao meu Pai...

Sempre que dançamos juntos aqui em casa e eles olham para o Pai com um amor que dão como garantido e presente, eu estou lá a dançar com o meu, o melhor dançarino de todos. 

Sempre que almoçamos em família (já somos 12!) e eu conto os talheres para a mesa, os dele vão invisíveis. Saudades de quando eram sempre 5 facas e 5 garfos e uma mesa de família...

Sempre que vejo filmes com os meus filhos no sofá e os tenho encostados a mim, estou ao lado dele, pequena, de mão dada, a mexer nas pontas dos dedos dele, no nosso sofá.

Sempre que estou no mar a brincar com os meus filhos lembro-me dele nos ensinar a nadar. Sempre que andamos de bicicleta naquela rua de nossa casa em Montalegre, a mão dele está nas minhas costas a empurrar e a largar para eu seguir sozinha...

Nunca seguirei sozinha, Pai. Não só porque tenho uma mãe incrível, os melhores irmãos mas, sobretudo, porque estás comigo... quando tenho que tomar decisões difíceis, quando festejo algo muito bom, quando percebo que nunca mais serei totalmente feliz, quando os meus filhos olham para mim com a mesma expressão que tu vias na tua filha do meio. Devia ser proibido perdemos pessoas tão queridas tão cedo, não é? 

Fazes tanta falta. Fingimos que sabemos viver assim e que a vida nos vai adaptando, mas é mentira. Confirmo-o nos olhos da mãe, da Catarina, do Bernardo e da avó. 

O dia do Pai já não é feliz, isso garanto, nunca mais será, mas tento que os restantes o sejam, no espaço que tenho possível para encaixar felicidade. Faltam poucos dias e já estou zangada, mas fico também feliz por todos os que possam abraçar os seus pais, falar com eles, aproveitarem o seu cheiro e a sua voz, como é o caso dos meus filhos. Aproveitem bem. 

Encontrámos uns vídeos da nossa infância há pouco tempo e pude, finalmente, apresentar-te aos meus filhos e ao Vasco, com mais vida e detalhe. Foi incrível. Esta imagem é de um dos vídeos que temos, no Algarve.

Saudades de te abraçar e de estar ao teu colo, Pai.


 


domingo, 31 de janeiro de 2021

Procura-se "Felicidade das pequenas coisas"

Os nossos dias encheram-se de "não podes", "não faças", "não deves"... Entrámos numa bolha de doentes e mortes, de medo, de falta de esperança, de sofrimento verdadeiro.

No outro dia reuni com um colega de Moçambique que me falou de como vivem os deslocados no norte, meio milhão de pessoas que fugiram da violência. E eu, no meio do sofrimento que só aumentou, senti borboletas a aproximarem-se, a puxarem os meus lábios para cima e a dizerem-me "sorri, há mil coisas que ainda podes fazer, há mil motivos para estares feliz"...

Estamos tão virados para esta vida difícil que esquecemos as coisas boas destes dias que custam a passar. Faço este exercício para mim mesma, porque há dias que só vejo as coisas más e parece que estou num buraco escuro...

15 coisas que ainda podemos fazer e que, apesar de tudo, nos devem deixar felizes:

... acordar de manhã e ouvir os pijamas mais pequenos e coloridos de casa a aproximarem-se com olhos preguiçosos em busca de brincadeira e beijinhos que, aqui, podemos dar...

... ouvir música daquela que, do nada, nos enche de paz, que faz bater o pé, ter vontade de levantar e dançar, como se tudo estivesse bem...

... fazer um bolo com carinho, lembrar os melhores bolos que já comemos, regressar à infância, com entrada gratuita, lamber a colher, deixar o forno aberto para o cheiro a bolo quente se espalhar pela casa repleta de desinfetante e máscaras anti-COVID...

... ver fotos das nossas férias de verão de outros anos, da gravidez, dos nossos bebés, ouvir nos vídeos a voz deles, aquelas gargalhadas mágicas, ver a nossa liberdade e felicidade que estão lá ao fundo à nossa espera...

... ver filmes no sofá com os nossos filhos encostados a nós, aproveitar para dar festinhas nos seus cabelos, dar-lhes a mão, comparar o seu tamanho com o nosso e ver como cresceram nestes meses que tanto lhes ensinaram... 

... fazer uma chamada de vídeo com as amigas do coração (temos feito) e ficar até de madrugada a conversar e a rir e a ralhar e a desabafar com quem nos pertence...

... fazer um almoço de família via Zoom onde possamos conversar com os nossos, ver como estão, ouvi-los, ter conversas banais e tentar, algures, rir...

... remodelar uma divisão da casa... pintar uma parede, mudar a cama de sítio, pensar numa varanda mais bonita e no fim, sentir o bom que é termos a nossa casa.

... procurar um curso online de qualquer coisa que sempre gostámos e NUNCA demos atenção nem ligámos... meditação, canto, culinária, desenho, massagens, maquilhagem, agricultura ... 

... escrever tudo o que nos irrita, zangarmo-nos com uma caneta e escrever sem filtros, chorar, com a certeza de que no fim estamos mais leves... 

... procurar aulas de dança, yoga ou outra atividade física na net. Aulas que nos motivem e consigamos fazer às vezes porque bem sabemos que apesar da falta de vontade, só nos fazem bem!

... escolher 3 fotos que adoramos... de pessoas, lugares, recordações, emoldurar e colocar na nossa sala... ou até mesmo os desenhos dos nossos filhos, aqueles especiais que nos surpreendem. Há sempre ideias giras na net para fazer molduras em casa...

... aproveitar uns minutos livres para arranjar aquela caixa que se partiu e estava de lado à espera dos dias em que houvesse tempo... mudar os botões de uma camisola que já cansava, organizar os brincos e encontrar 5 pares que já não nos lembrávamos que estavam lá...

... um animal de estimação que estamos sempre a adiar!? Porquinho da Índia, pássaro, peixe, adotar um gato ou um cão, diria que trazem melhores dias...

... procurar viagens na net para o fim do ano, ver destinos, fazer planos, imaginar como será, lista para as malas, só para ficar nas notas, na esperança de se concretizar...

Enfim, muita força e algumas borboletas para vos ajudarem a recuperar sorrisos que terão guardados, nestes dias tão difíceis.



sábado, 23 de janeiro de 2021

"O que é que vamos fazer hoje?"

Em resposta à pergunta mais feita pelos meus filhos nesta fase especial, e suponho que pelos vossos, preparei uma resposta...

"Hoje vamos acordar, 

Ficar na cama a preparar

O bom humor para fazer

Confinamento como deve ser...


Logo depois vamos tomar

O pequeno-almoço devagar

E procurar dentro do café

O bom humor...hmm... cadé?


Sorriso bem amarelo

Todo o dia de chinelos

Reuniões com diretores

Na sala, com cobertores


Pausa para "façam a cama"

Pausa para "tirem o pijama" 

Pausa para "não desarrumem isso"

Pausa para "desliguem o ecrã, já disse"


Pausa para descongelar mais pão

Pausa para "tirem a roupa do chão"

Pausa para preparar a comida

Pausa para "senta-te direita, querida!"


Cálculos em excel com gráficos

Entre Legos, Pinypons e saltos

Relatórios de avaliação

Com "Oh mãe, quero um cão!!!"


E depois de mil tentativas

Começam novas brigas

Saltos na cama arrumada

Um sofá que vira cabana, do nada...


O sol vai-se embora sem avisar

E eu com trabalho por acabar

"São horas de tomar um banho!"

Aproveito para trabalhar...


"Oh mããããe, a toalha!!!!!!!"

Preparamos o jantar 

Comemos e arrumamos tudo

"Podemos ir todos brincar???"


"Lavar os dentes, fazer chichi"

Escolher uma história que ainda não li

Cantar, com o pai, a música de embalar

Beijinhos... uffff, vamos descansar!!!!!!


Um dia já está arrumado

E nós com aquele ar cansado...

De quem enfrenta mil crises

Desejando que no fim disto tudo

Sejamos igualmente felizes...."


Será que serve de resposta?!! Força pais e mães! Há-de valer a pena.





segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sobre montanhas, birras e monstros

Sou só eu que sinto que estamos no meio de um furacão de energia negativa e problemas?!

Vou arriscar-me a usar este cantinho e tentar compor uns pensamentos positivos, nestes dias tão tensos.

Tenho lido muitas coisas más nestes dias, há tensão por todo o lado, não me lembro de tanta, antes.

Dou por mim meio apática, sem energia nem esperança nem nada...

O que me acalma e me faz recuperar o foco, são as palavras calmas e de união que leio. Só essas.

A COVID já estava sozinha a fazer o estardalhaço necessário. O desemprego, as discórdias numa fase em que todas as decisões são incómodas e difíceis. A falta de liberdade, o cansaço, o receio, também já estavam a conseguir tornar este monte de problemas numa montanha que já fazia demasiada sombra sobre nós.

Agora a política. As ameaças, o pó que sai debaixo do tapete (mas que estava lá) veio para todos termos reações diferentes. Eu, alergia. Uns a gostar, muitos a temer. Assustador, mas sobretudo porque nos está a colocar uns contra os outros de uma forma ainda mais acentuada, pelo estado emocional em que estamos. 

Uns mal, outros bem pior. Ninguém bem. A montanha virou serra. 

Tal como foram palavras agressivas e carregadas de raiva e ódio que li, que me fizeram sentir receio, bloqueio e tensão, também foram palavras, as de apelo, de orientação, de foco, que me ajudaram a respirar e voltar a ter esperança e a saber retomar o caminho. O nosso poder e o poder das palavras, para nos unir e para nos separar.

Foi com estas palavras que me enxerguei que tenho que me focar mais no todo, e menos no eu. Quando erro, penso mal. Mas não foi com as palavras agressivas, acusadoras, que nos dividem, que quis fazer mais e melhor. Até porque quanto mais repetimos as de agressividade, raiva e ódio, mais elas ganham força, creio eu, o que não conduz a lado nenhum. 

Foi com a chamada à razão e ao coletivo, que tanto defendo. Só por isso escrevo. 

Estamos todos mal, sabemos que uns bem piores que os outros, mas podemos ficar ainda pior. 

Sobre a COVID, os números, o segundo lugar no mundo, os hospitais esgotados, médicos a chorar... pensemos que estamos no fim do caminho deste pesadelo. Um pesadelo dos verdadeiros, daqueles em que estamos acordados. Estamos quase a chegar ao fim deste. E não pode ser agora que corre pior. 

É um esforço (mais um) ......... é horrível, já não há energia, mas é em cada um de nós que está o fim disto. O fim desta história escrevemos nós. Quase todos. 

Sabemos que uns nem querem saber nem fazer parte. Será sempre assim. E muitos têm vidas que não imaginamos e que levam a essa "não pertença" a nada... Não é bom para nenhum lado.

Mas os que acreditam e sentem algum poder para agir, que o façam, por todos, e o façam sabendo que somos muitos, mesmo assim. 

No final é uma luta à séria contra um bicho que se tornou um monstro e teima em crescer na nossa direção. Ele está quase a cair, já sabemos como o derrubar. Não deixemos que, agora que ele está já quase no chão, ainda a mexer muito, nos ganhe. 

Sabem aquelas birras gigantes que os nossos filhos fazem que nos tiram do sério, naqueles dias em que estamos tão cansados e em baixo, a razão já não fala e sabemos que o motivo é só sono?! 

Sinto que estamos naquele momento em que o nosso corpo não aguenta ouvir o longo choro, nem conseguimos ver o fim àquilo... E tantas vezes que isto nos acontece e não sabemos o que fazer...

Quer dizer, no fundo sabemos que é só preciso aguentar, deixá-los despejar o sofrimento, contarmos até 50, contrariar o nosso sofrimento e frustração por não conseguirmos travar o problema. Sabemos que, se aguentarmos, ele adormece e passa. Se reagirmos ele vai chorar muito mais e não se resolve nada. 

Acho que este aguentar, neste filme covidiano, é ficar em casa. Deixar chorar, é respeitar que o problema existe e devemos só manter a calma, quietos a pensar em todos, para ele passar. No fim, se todos aguentarmos, ele cai e adormece e amanhã está tudo bem. Se fosse a primeira birra não sabíamos o seu fim. Mas de birras foram feitos os últimos meses e já sabemos como as controlar. Infelizmente.

Sobre as opiniões, temos que as dar. Mas mais que tudo, temos que agir, a meu ver, votando. E dizer alto aquilo em que acreditamos, não aquilo que combatemos. Repetir as palavras certas e não as erradas, fazer ecoar o que para nós, está certo. Lembrar que face ao desagrado e revolta, as opções são muitas. Há alternativas suficientes para manifestarmos opiniões diferentes, até votando em branco.

Acredito que, apesar das nossas falhas, fraquezas, (tantas) angústias e medos, somos capazes de lidar com birras, montanhas e monstros. E, no fim, quando tudo passar, podermos olhar para traz e ficarmos bem com o que conseguimos e decidimos fazer, juntos.