Sempre que alugo casa para férias, seja onde for, há qualquer coisa de fascinante, aventureiro e desconfortável naquele ato de entrar pela porta da casa de alguém que muitas vezes não conhecemos e lá passar alguns dias. Apetece dizer "Posso?" várias vezes.
Uma das coisas que mais gosto nestes dias é imaginar quem são as pessoas que ali vivem ou viveram ou passam férias...
Apesar de baixar todas as molduras para evitar que os pequenos deixem cair, é curioso ver as fotos de família... Serão filhos, sobrinhos, avós ou tios? Costumam vir cá? Há crianças? Quantas e a que brincaram?
... Gosto de ver as pegas velhas e os púcaros antigos onde imagino um café Brasa a ser feito para acompanhar um bolo que saiu daquele forno que já não funciona bem. Que cheirinho!
... E devem comer pouca sopa porque há muito mais facas e garfos que colheres... Se calhar pertencem ali vários adolescentes que odeiam legumes.
Às vezes há damas, livros velhos, bacias antigas na casa de banho que deviam ser dos avós velhinhos que são muito respeitados porque há coisas deles por todo o lado... e estimadas!
Lá fora já deve ter havido muito pão feito em forno de lenha, o cabrito ou o borrego e ainda jogos de futebol, passeios de bicicleta e certamente conversas e risos nos luares quentes do verão...
"Posso mesmo dormir na vossa cama?" "Posso usar o gengibre ou o piri piri? É só um bocadinho!"
"Posso ficar a olhar para este quadro com uma criança meiga a brincar e imaginar que foi uma tia que o pintou há muitos anos e que a mesma criança é hoje a avó que bordou esta toalha de mesa de linho que não quis usar para não sujar...?!"
"Posso deixar a minha filha sentar na cadeirinha de madeira linda do tamanho dela que já deve ter ouvido tantas histórias de aventuras passadas no alto da serra?"
No fim, tento limpar com carinho as coisas que foram nossas por uns dias, de deixar o copo que partimos porque ríamos à mesa e um braço mais atrevido se encostou a ele, deixando sempre um "Obrigado por tudo".
Acho especiais estes gestos de partilha e confiança...
Apetece depois, no fim de tudo o que vivemos dentro e fora daquela casa de todos, dizer: "Posso convidar-vos para passarem uns dias na nossa casa? Seria um prazer!"
Sem comentários:
Enviar um comentário