No segundo mês, depois de terminado o primeiro desafio no Lar, começámos a trabalhar nos mesmos horários, num registo menos preparado, numa sala de uma escola primária, num bairro não muito longe de "casa".
Neste caminho que fazíamos de manhã, reforcei a ideia de que a natureza trata de nos adaptar às circunstâncias em que vivemos, senão o Tony não conseguia passar descalço por cima daqueles vidros todos... Quando se tem que andar descalço, os pés ganham uma sola natural. Desconhecia.
Devia ter 12 ou 13 anos e fazia parte dos rapazes do lar. O Tony era mais difícil... Outro olhar, outro passado.
Chegou a fugir do lar e cruzar-se novamente connosco quando íamos fazer a viagem de barco de 12 horas, entre a ilha de Santiago e a de Boavista, para irmos ao Festival de música Baía das Gatas, mais perto do fim destes dois meses.
Uma viagem de barco em que vimos peixes voadores (iguais aos vermelhos das escadas rolantes do Colombo - lembro-me sempre) ao chegar ao Mindelo.
Mal sabia que íamos a casa da Cesária Évora, partilhar alguns momentos de conversa com a cantora de "Sôdade", que tanto sinto.
Nessa viagem de barco lembro-me de outra coisa bonita. Debaixo do luar que serviu de teto para algumas horas de "sono inclinado", cruzei-me com duas raparigas que cantavam lá fora, de pé, viradas para o mar. Gostei do momento e gostei do facto de uma delas usar um fervedor de alumínio para ampliar o som da voz.
Ali podia não haver muitos sapatos, mas havia tudo.
Voltando à Jamaica da Assomada...
Com a idade que eu tinha, a frase que a Mãe dela me disse, um dia, quando passei "Não quer levá-la?!" não me marcou tanto como hoje, quando penso nela.
A vida, dependendo do sítio onde nascemos, faz-nos funcionar de forma diferente. É diferente a vida, a infância, a maternidade, as ambições, as necessidades, as prioridades... Foi das maiores aprendizagens que trouxe. E há comparações que não podem ser feitas...
A Jamaica tinha 2 anos, tal como o Nuno. Eram os mais novos do grupo com quem trabalhávamos.
Mas ela tinha uma graça especial.
Os miúdos que vinham às nossas actividades passavam muito tempo na rua. Naquelas ruas, pareceu-me que se crescia muito mais rápido do que nas que eu conhecia, cá.
A Jamaica andava por ali. Subia escadas sozinha e descia pelo corrimão, como os outros... Atirava a bola com uma facilidade que eu não tinha, na idade do Batista.
A Jamaica tinha um ar exótico e rebelde, mesmo sendo uma mulher pequenina.
Marcou-me por ser despachada, por se safar bem ... porque tinha que se safar.
E tinha um sorriso muito vivo, que veio comigo numa foto.
Agora penso que a Jamaica era, na verdade, uma bebé da idade da minha filha Inês. Uma mulherzinha.
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