sexta-feira, 30 de junho de 2017

Os meus outros meninos e as minhas viagens

Eu, na versão mais Joana que Mãe, adoro viajar.
Algumas viagens que fiz estiveram relacionadas com voluntariado.

Partilharei a história de alguns rapazes e raparigas de quem me lembro muitas vezes e que significaram importantes lições de vida e muito bater de coração, aqui dentro.

Batista, o irmão mais velho

Quando estive em Cabo Verde, na Assomada, em 2000, dividi os dois meses que lá vivi com uma equipa de perto de 10 colegas, entre um Lar de Rapazes e um bairro. Ambos os locais eram perto da Escola Secundária onde dormi nessas muitas e quentes noites.

Neste Lar viviam talvez 20 rapazes, com idades entre os 5 e os 18 anos.

Pouca roupa, pouco cabelo, pés descalços, sorrisos grandes, pele castanha e doce.

Aquele sítio nunca cheirava bem, tinha uma camarata com beliches, uns cobertores cinzentos todos iguais e uns posters do Benfica que davam cor àquele espaço, que era vazio demais (penso que também tinha da seleção portuguesa). Brinquedos não me lembro de ver, só os carros feitos com latas de atum e tampas de garrafa. Trouxe um que me deram. Casa de banho também não me lembro bem de como era, acho que nem era.

Antes da viagem, estivemos várias semanas a planear as atividades e o trabalho que iríamos fazer com eles. Excelente organização, e excelente orientação e preparação!

Um tema por dia da semana. Todas as manhãs destes dias. Primeiro mês no lar, segundo no bairro.

Um dos desafios que tive foi fazer uma coreografia de dança. Andava no Street Dance cá em Lisboa e, foi com a música dos Anjos "quando for grande", que passei muitas horas de ensaio em "casa" com os colegas e, no Lar, com os nossos rapazes. No fim, iriam apresentar esta dança no novo Centro Cultural da Assomada, onde ia regularmente ver os meus emails e tirar uma Seven Up de uma máquina moderna de moedas. Foi para este efeito que criei o meu primeiro email "joanabrandao2000".

Durante semanas dançámos muito e construímos uma coreografia que resultou num momento especial que apresentámos às pessoas dali, no final do primeiro mês de trabalho. Acreditávamos que iria ajudar a comunidade local a respeitar e ter uma imagem positiva destes rapazes. Acreditamos que resultou!

O Batista marcou-me entre todos eles por ser o irmão mais velho de três, sendo que ele devia ter perto de 10 anos. Hoje, perto de 27. Um homem...

O olhar era tão meigo, mas não podia ser fácil ter os manos ali naquele lar e sentir-se o mais velho. Se foram para um lar, a vida não era fácil, certamente mais difícil do que ali.
Eram os três diferentes, os três lindos. (não estou a conseguir escrever sobre isto, sem sentir um grande aperto no coração, nunca tinha escrito...).

Vi felicidade em todas as crianças com quem trabalhei e convivi, mas são crianças, e passaram por coisas que muitos adultos não passaram, certamente.

Hoje trabalho numa ONG internacional que acolhe também crianças, mas num modelo especial em que há "Mães", quartos, brinquedos, uma casa e muito amor. E curiosamente foi mesmo na Assomada que conheci, neste verão, esta ONG. Quem diria!
Nesta ONG não se separam irmãos biológicos, ficam juntos. Arrepio-me sempre quando digo isto em reuniões e formações.

Não se separam irmãos, que foram retirados aos pais, por maus tratos e outros tantos problemas.

Meu Deus, o que estas palavras provocam de emoções...

É aqui que me lembro do Batista. Olho sempre com um respeito muito maior do que eu, para estes irmãos mais velhos todos.

Às vezes digo que quero ir trabalhar para uma sapataria, porque mais de 15 anos disto vai doendo.

O Batista era o mais bonito dos irmãos. Como é sabido, o sangue africano traz incluído o dom da dança, o que me aproximou destes rapazes todos.
Eles tinham esse dom. A imagem deles só de calças, peito castanho musculado, infantil... lindo, a dançaram capoeira, é uma das que guardo, com som e tudo.

Não me esqueço dos primeiros dias que lá estivemos e da escola onde vivíamos (raparigas no chão de uma sala de aula, rapazes no chão de outra).

Não me esqueço das dezenas de baratas voadoras que tomavam banho comigo e da aranha média que esteve dois meses por cima do meu mosquiteiro e do lençol que tinha que ir lavando, pois cobriu-me durante dois meses, naquele chão.

Tive medo? Nem pensar. Hoje tenho pânico destes bichos, o que é interessante.

Na segunda tarde, se não me engano, soube que ia haver um workshop de Dança Contemporânea na escola. Como assim?!!? Eu fui.

Um professor de Cabo Verde que dava aulas em Paris. Excelente. Excelente momento, excelente forma de começar. Aqui conheci o irmão do meio do Batista. Passámos os dois para o segundo nível, desse mesmo workshop. Ele devia ter 7 anos. Lembro-me das caras deles, mas já só me lembro do nome do Batista.

Do Batista, ficou-me o olhar do adeus. Temos que ser muito pequenos nestes trabalhos. Eles não podem ficar muito ligados a nós, não merecem. Precisam de seguir caminho. Mas custa. Um olhar que consigo ver agora mesmo. Finjo que não me dói. Também tenho que seguir o meu caminho.

Tenho que terminar dizendo que adorava ver o Batista hoje. Já procurei no Facebook, mas claro que é difícil. Um dos meus miúdos, aqui bem guardado no meu ❤️.




Sem comentários:

Enviar um comentário