segunda-feira, 27 de maio de 2019

Bom tempo

Para onde foi o tempo todo!!?

Onde estão as manhãs de agosto, quando éramos os três pequenos e íamos à Praia da Oura em família, com a lancheira com fruta fresca, sandes e limonada...!?!

Para onde foi o tempo das aulas na primária, dos recreios com os amigos pequeninos, da mochila com cheiro a migalhas, do ballet, dos meus hamsters....??

Para onde foi o tempo da adolescência, dos namoros intensos, das tardes atrás da escola, da feira da agricultura que trazia tanta emoção?

Para onde foram os verões em Aljezur, os jantares com amigos e com escaldões do sol, que nos acompanhava até tão tarde...?!

Para onde foram as aulas de teatro, os ensaios da tuna, as viagens de finalistas e outras, os primeiros salários e aventuras profissionais??

Para onde foram os nossos primeiros beijos, abraços, a nossa paixão de namorados, tontos de tão apaixonados??

Para onde foram os testes de gravidez, os pontapés na barriga, os momentos de amamentar, de só olhar para os nossos bebés?!

Para onde foram as pessoas que adorávamos e a vida nos tirou, sem aviso nenhum??

Às vezes tenho saudades de tudo o que passou.
É bom saber que tenho carradas de caixas com bom tempo, boas memórias. Guardo-as com tanto carinho, mas tenho saudades...

Aproveito como posso o tempo de agora: os meus filhos, as conversas a 4, as canções no carro, as gargalhadas que damos em família e com os amigos, as conquistas profissionais, as danças que consigo encaixar nos dias que passam a correr... As ideias que temos para o mundo, as lutas que aceitamos combater. Os problemas que não são graves, a sorte que temos em ter tempo bom.

Desejo que ele passe devagar e que eu saiba sempre parar para recordar o tempo que passou, que saiba viver o que passa agora por mim e receber bem o que está para vir. Será bom.


sexta-feira, 12 de abril de 2019

São Tomé - Dicas para pais poupados e aventureiros

Viajar é maravilhoso mas é também uma dor assumir isto quando temos dois filhos que ainda não nos acompanham. Tentamos viajar os dois quase todos os anos. A regra é tentar gastar pouco em dinheiro e em dias de férias. Por isso, mesmo para destinos mais ambiciosos,como foram o Rio de Janeiro e São Tomé, existe uma ginástica gigante para procurar o mais barato e não deixar de fazer uma boa (mas curta) viagem.

São Tomé foi sem dúvida das viagens mais bonitas e especiais que fiz. O Vasco iria dizer o mesmo, estou certa. É intenso, gera debate, são realidades mais delicadas mas, talvez por isso, a vivência é muito bonita e consome-nos por inteiro.

Deixo dicas para quem quiser e puder ir a São Tomé:

VOO: decidi que só iria se encontrasse voos baratos. E assim foi. Pesquiso em dezenas de sites sempre que quero comprar um voo. Este comprei em novembro e ficou perto dos 375 eur por pessoa, ida e volta, um valor muito bom para este destino. Comprei na Mytrip.com. Consegui comprar sem custos de marcação de lugar nem custos pelo modo de pagamento. E fomos apenas com bagagem de mão (10 kg). Por norma compramos os voos em novembro para ir em março. Depois de vermos os preços para a ilha do Príncipe, decidimos não ir (entre 220 e 400 eur pelos dois - caro para o nosso budget) também porque iam ser apenas 5 dias.

PREPARAÇÃO - ANTES DE VIAJAR:
- Saúde: este tipo de destinos exige cuidado por causa dos riscos de doenças. Há discussão sobre isto, porque pode ser exagerado o "medo" que criam no viajante, mas como temos filhos e sou asmática, não arriscamos muito. Assim, depois de falarmos com o médico de família e uma médica com experiência na consulta do viajante, fizemos a vacina da Hepatite A e Febre Tifóide. Foi preciso receita do médico e toma um mês antes da partida. Para isso, fomos ao Centro de Saúde de Sete Rios, bastou ir cedo em dia de semana. Já tínhamos levado a da Febre Amarela (também importante), que é vitalícia. Depois foi preciso tomar (comprimidos com receita) a profilaxia da Malária. Há quem diga que não faz nada e até tem efeitos secundários maus, mas fizemos e nada aconteceu. São comprimidos que têm que se tomar 24h antes de ir, tomar durante a viagem (um por dia após refeição) e depois, alguns dias após chegada (não me lembro acho que são mais 7 dias). São caros estes comprimidos (34 eur a caixa).

Essencial levar repelente bom para evitar picadas que podem provocar a Malária ou outras doenças (colocado por cima do protetor solar) e mosquiteiro. O ar condicionado no quarto, quando abaixo dos 19 graus, ajuda a matar os mosquitos.
Para além destes cuidados levámos: ultralevur, antibiótico para o caso de termos febre (aconteceu), paracetamol, os comprimidos da malária - Malarone e termómetro.

- Mala: quem quiser levar bens para doar deve contar com espaço, sobretudo se apenas leva bagagem de mão. No nosso caso foram livros educativos, roupa de criança, pastas de dentes (amostras oferecidas por uma farmácia, pois li que era uma necessidade lá), blocos e canetas. Depois o desafio foi colocar a nossa roupa, mas como o calor lá era grande, não foi preciso muito espaço. Para poupar no peso, levar apenas uns ténis, blusão e umas calças que vão logo vestidos no voo de ida e volta, ajuda para não "pesar" na bagagem. Convém levar os ténis para o caso de se quererem fazer caminhadas pela floresta. Levar gel de banho e champô (só levei uma amostra e estive 4 dias a lavar o cabelo com gel das mãos). Não esquecer que os líquidos não podem exceder os 100 ml. Importante ter o passaporte e o cartão de cidadão dentro da validade.

- ESPÍRITO LEVE E ESTOFO: "África" (falo dos países de língua portuguesa que melhor conheço, pois África é gigante e tem inúmeras realidades).... não é um planeta à parte. As pessoas são pessoas e os problemas também os conhecemos. Eu acho que ir de espírito aberto e com poucas esquisitices, ajuda. Ler alguma coisa antes também ajuda.

Sabíamos que era um país de boa gente, super seguro. E durante os 5 dias que lá estivemos não nos inibimos de fazer nada. Andámos pelas ruas, pelos mercados, pelo meio das aldeias e falámos com quem falava connosco. Claro que correu bem, porque havia de correr mal? Depois do Rio de Janeiro, tudo é tranquilo:)
O "estofo" tem a ver com algumas cenas de pobreza mais delicadas sobretudo para pais sensíveis.

São Tomé é muito mais que pobreza e problemas sociais. Há paz e as pessoas são um exemplo de sabedoria, respeito e "história bem resolvida", aspetos que admirei.

"Estofo" também para gerimos as saudades dos nossos filhos. Inspirar três vezes e dizer "eles um dia vão perceber", porque custa sempre deixar os filhos.

Enfim, foram dias felizes, sobretudo! Passaram três semanas e já tenho tantas saudades de São Tomé.

- CHEGADA: o voo de ida/ volta demora perto de 8h e inclui escala no Gana (apenas para troca de passageiros, sem saída do avião). A hora é a mesma que cá. Quando aterrámos em São Tomé o coração já estava de braços abertos. Sair pela porta e sentir aquele calor, aquela humidade e sorrir.... Aeroporto minúsculo, verde por todo o lado e felicidade na cara dos dois.

- ONDE FICAR: nós marcámos apenas uma noite com mais antecedência (no centro da cidade de São Tomé - Sweet Guest House), mesmo no meio da cidade (zona mais pobre, pareceu-me) e junto ao mercado. Na véspera de irmos, marcámos as duas últimas noites na Roça de São João dos Angolares, a do chefe João Silva (programa da RTP "Na roça com os tachos" para quem se lembrar.) O primeiro local onde ficámos parecia muito recente, tudo impecável, ar condicionado, mas muito simples e com WC partilhada. Se voltasse lá ficava lá, porque as pessoas que nos atenderam eram incríveis e muito profissionais. O pequeno almoço muito bom e a localização no centro da "realidade africana" fez-me sentir bem e lembrar de Cabo Verde. Bastava irmos à janela para vermos crianças a brincar, a ir para a escola, a estender roupa, a tomar conta dos irmãos e a ir buscar água ao depósito para levar para dentro de casa. Estive muito tempo à janela... Há qualquer coisa de bonito nisto tudo, que me faz sentir em casa. (Com o devido respeito pelas condições que são bem diferentes daquelas em que estávamos).
Decidimos ficar neste sítio a segunda noite. Marcámos depois no booking um segundo alojamento, pequeno mas também com um aspeto novo e a caminho do sul, onde queríamos ir. Este tinha uma mini-piscina com uma vista maravilhosa - Domus Guest House. Todos os sítios onde ficámos tinham aspetos bons e maus. O mais especial foi a Roça. Que paraíso......

- ONDE IR:
Levámos dicas de 3 pessoas conhecidas que tinham ido a São Tomé, para não nos escaparem os melhores sítios...
         - Cidade São Tomé: Sabíamos que às quintas-feiras havia um jantar com música e dança no Cacau, Casa de Artes. Marquei pelo Facebook e como chegámos na quinta-feira pelas 18h, começámos logo bem a estadia. Foi maravilhoso... mas programa para turista. Comemos super bem, vimos uma exposição muito bonita e dançámos, claro.
Estar num país que fica longe mas que fala a nossa língua é muito especial. Chegou a emocionar quando cantámos todos juntos "os meninos à volta da fogueira"...
No 2º dia, às 6h da manhã já estava à janela. A luz do dia deixa-nos ver mais coisas. Estava tanto calor... Saímos cedo e, num cenário de realidade não turística, caminhámos pela primeira vez pelas ruas, pelas pessoas, pelos cheiros, pelo fumo das motos, pelo mercado intenso de comida e moscas e pela beira-mar. Os nossos olhos queriam captar tudo. Andámos, andámos, conversámos, fotografámos e deixámo-nos ir...

Almoçámos no Papa Figo (já tínhamos referências) e gostámos bastante da comida (peixe...) e do espaço, típico dali.
Casa de Artes - Cacau


Casa de Artes - Cacau

Vista da Sweet Guest House

Vista da Sweet Guest House

Descobrimos ao lado, um restaurante onde fomos no último dia, o Ilangue Ilangue, de uma senhora angolana+portuguesa, que fazia uma sopa deliciosa e tinha muitos sinais de Portugal como os pastéis de nata, merendas mistas, tostas e a novela portuguesa na TV. Um espaço recente, muito simpático, onde trocámos contactos e causas comuns com a Sofia...

À tarde, molhámos os pés no mar quente e andámos novamente pela cidade, até à Fábrica de Chocolate "Cláudio Corallo", onde vivemos um momento bonito e degustámos diferentes chocolates e provámos as sementes do cacau, torradas. Um grupo de turistas descalços (obrigatório no local), a sentir sabores bons e a ouvir uma história de amor e guerra que nos inspirou...
Mercado Velho

Mercado Velho 
Mercado na rua


Sweet Guest House

Fábrica de cacau 

Sweet dreams...

À janela...


No regresso à "Sweet" parámos na esteticista Bibi, onde pintei as unhas, e onde ficámos um bocado a conversar sobre o Congo, as praias, os filhos, Portugal, etc. Não tínhamos sítio para jantar e aceitámos a dica do Abdel, da receção: ir à Dona Té-Té. Lá fomos...

No meio de um bairro, lá estava uma grande casa com um jardim onde alguns turistas se deliciavam a comer o peixe com sabor a limão e a aproveitar a simpatia da Dona Té-té. Santolas passeavam pelo chão, cheirava bem e as sobremesas eram uma delícia... até vir um vendaval que a Dona Té-té antecipou e que nos fez a todos levantar e ajudar a recolher toalhas, cadeiras, mesas, em menos de 10 minutos, para uma zona mais protegida. Choveu muito e o gelo quebrou-se entre todos, incluindo outros portugueses que lá estavam. Já nos ríamos a ver os clientes em cima do muro a pendurar plásticos e a ajudar a Dona Té-Té que parecia uma avó querida.
Comemos sempre bem, sempre peixe. Fomos sempre muito bem recebidos em todos os lugares. Aqui não foi diferente.

- Lagoa Azul e Norte: depois de muito analisarmos, decidimos ir de táxi ao norte na manhã seguinte (3º dia). Pareceu-nos que a empresa Ponta de Ouro era séria nos preços e escolhemos um dos seus carros. Correu bem, mas foi caro, como qualquer deslocação na ilha, para turistas.

Como é intenso e há muito para escrever...
... continua...

quarta-feira, 27 de março de 2019

Um cantinho chamado São Tomé

Chegámos ontem de São Tomé.
Nem sei por onde começar, certamente pelo lado belo.

Pelo azul...
São Tomé é abraçado pelo mar e protegido pelo céu. Sendo São Tomé uma ilha pequena, por onde quer que passemos há azul e é um azul forte.
O mar que dá peixe que chega para as pessoas que lá vivem e ainda um pouco para os turistas que acredito que "voltem sempre". Peixe com sabor a lima e limão. Peixe que vem com fruta pão, banana pão, batata doce. Vem sempre acompanhado como andam as pessoas de lá.

Verde... O verde é a minha cor preferida e agora, o verde ganhou outro tom na minha coleção: o de São Tomé. É tão verde. O Parque Jurássico só pode ter sido ali. E o mais bonito de tudo é que, ao contrário do resto do globo, o verde ali continua e parece não diminuir.
Verde de coqueiro, verde das plantações de cacau, verde da fruta pão, da cabaça, dos coentros, do abacate, do bambu, da erva príncipe, da Lúcia Lima, da lima. Verde que cheira a vida.

A natureza é tão generosa e justa com estas pessoas. Tão intensa e bonita quanto elas merecem. Até no azul do mar há verde das folhas e frutos. Verde de vida.

O Castanho...
...que somos nós, as pessoas. Lá, num tom mais intenso por causa do sol quente e certamente feliz.
Castanho de mulher, com riscas coloridas nos tecidos com que abraçam os seus bebés e os mantêm quentes e quietos até caminharem por si.
Castanho de homem, que carrega madeira para as casas, tão fortes como têm que ser perante as tempestades da vida que ali se enche de filhos.
Castanho de crianças que nos derretem o coração como se fosse cacau quente.
Doces no sorriso, no "Olá" e verdadeiras, como qualquer uma. Conversámos muito com elas. Têm sempre tanto para ensinar.
Castanho dos galos que cantam desafinados antes do sol nascer. Castanho dos porcos que passam, em famílias numerosas, pela estrada, pelo mar, pelas arribas e nos fazem rir, embora São Tomé seja mais para Sorrir.
Castanho da lama que vem com a chuva forte e derruba ramos e troncos que de castanho pintam a estrada que adoramos percorrer.

Há mais cores, pouco cinzento e pouco preto. Muitas cores. A fruta, sempre a fruta. As roças que já foram nossas e onde agora vivem milhares. Por fora estragadas. Por dentro livres e cheias. De música ritmada, de lençóis e camisolas coloridas que se estendem e secam no chão, onde à noite se vai dormir.

Queremos sempre tanto e encontramo-nos sempre tão bem neste pouco.
São Tomé é rico. Tem chuva, tem mar, tem natureza fértil e tem pessoas que sabem viver de forma "leve leve" e assim ficar.

(...de certeza que continua.)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Para ti, que tens o meu mundo nas tuas mãos

Se tivesse 18 anos hoje, não sei se ficaria em pânico com o pessimismo e alarmismo da comunicação atual sobre o fim do mundo, ou se virava ativista feroz. Diz-se que, desde sempre, as gerações mais velhas criticam ou desvalorizam os mais novos. Ser adolescente já é difícil, quanto mais sabendo que não nos dão o devido valor ou que não somos muito levados a sério no papel que temos na sociedade.

A manifestação da semana passada sobre as alterações climáticas que moveu jovens de todo o mundo, e o facto de uma rapariga de 16 anos da Suécia, Greta Thunberg, poder ser nomeada para Nobel da Paz por se mobilizar pelo ambiente e pelo o mundo, que é mais dela que meu, deixou-me inquieta.

Gostei muito da força das mensagens dos cartazes da greve... "será que se chama meio ambiente porque já destruímos metade!?" ou "there is no planet B" ou "por um planeta para os nossos netos" ou "we can't let it be".

Escrevo este texto por ter um respeito muito grande por quem é novo e se sabe afirmar. Para ti.

O mundo é teu, tão teu como de qualquer outro ser humano que cá andou ou anda: na terra ou no céu, na selva ou na cidade, na aldeia ou no último andar de um arranha céus. Tens o mesmo registo de propriedade, o mesmo ar, o mesmo espaço (inclui estrelas). E o nosso planeta é, como tudo o que conhecemos: bom e mau, feio e bonito, belo e assustador. Eu própria que me revolto a toda a hora e saio de casa por causas e cartazes, às vezes parece que me esqueço do bom que isto é.

Eu sei que tu sabes. Mas queria, ainda assim, reforçar (a ti e a mim) o que de esplêndido existe mesmo ao lado desse mundo da comunicação cheio de rasteiras e algoritmos...
Senão repara:

  • o que faz um passarinho pousar num banco de jardim para picar as migalhas de um pão de escola e levar-nos a sorrir?
  • o que nos faz olhar para uma magnólia em flor, coisa rara, e lá ficarmos mais tempo do que a ver um vídeo do youtube?
  • o que nos faz parar para ler uma mensagem de amor gravada num tronco de árvore (quando existe whatsapp gratuito) enquanto caminhamos com pressa para o autocarro?
  • o que nos faz molhar os olhos quando assistimos a um artista em palco falar do bom que é receber os nossos aplausos e, depois, cantar para nós e nos deixar em silêncio, aos milhares?
  • o que nos faz olhar e ouvir as ondas do mar, tentar seguir as marcas das gaivotas na areia onde gostamos de enterrar os pés e as mãos, vezes sem conta?!
  • o que nos faz olhar para a nossa avó, ou mãe, ou pai a cozinhar e ficar a beber cada gesto, a saborear cada cheiro, como se estivéssemos a ler, mas com uma realidade que não é virtual?
  • o que nos faz ficar a olhar os nossos filhos a dormir e admirar cada linha com que fizemos aquele nariz, os fios de cabelo, os dedos das mãos que, por uma magia que só este planeta tem, começaram a desenhar-se, com amor, na nossa barriga??
  • o que nos faz arrepiar quando aterramos noutro país, diferente nos cheiros, pessoas e olhares e nos leva a um exercício de humildade e simplicidade que nos conforta tanto?
Enfim, não quero que leias mais, vais achar-me chata porque já estou a falar de filhos..... Só quero que sintas, que vivas, que queiras viver muito neste nosso planeta absolutamente maravilhoso. Aproveita o bilhete, goza a viagem e partilha-a bem, deixando que os próximos a gozem também.

Tu tens o nosso mundo nas mãos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Papéis a uma sexta-feira!

Diria que se, de repente, houvesse no mundo um fenómeno natural que fizesse desaparecer os humanos, o planeta ficaria cheio de... papéis. Papéis de recados, papéis de cópias da escola, papéis de embrulho, papéis de reuniões, papéis de cozinha... Com tanta poluição e problemas ambientais, ainda imprimem meio metro de talão por um simples café pingado.

Em casa: papéis com desenhos (lindos), papéis de autocolantes do quiosque, papéis da escola para assinar, papéis com letras a fingir, papéis de lenços com ranho, papéis com recados tontos dos amigos da escola, papéis de pensos rápidos para "dói-dóis" a fingir, papéis de aviões que fazem sacudir o pó do candeeiro, papéis que engordam o saco azul da reciclagem, papéis que me fazem baixar e levantar cinquenta vezes por dia.

Na mala: papéis de atestados, papéis de multibanco, papéis de sandes que não se comeram, cheios de migalhas, papéis de pastilhas, mais papéis de lenços com ranho...

Vamos ao supermercado: papéis de preços baixos, papéis com metro e meio com lista do que comprei, que nunca vou usar. Vamos ao centro de saúde: papéis de senhas para esperarmos 2 horas, papéis de receitas e papéis com declarações de presença. Vamos a festas de anos: papéis de prendas, papéis coloridos de guardanapos enormes que se usam para pegar num só croquete. Vamos a um simples jardim: papéis no chão. De todos estes papéis, talvez 2 ou 3 sejam realmente úteis.

Sempre que há um papel na nossa vida, devia aparecer um ecrã daqueles no ar, como no "Minority Report" com aquela mensagem do multibanco: "Proteja o ambiente. Tem a certeza que quer imprimir este papel?" e eu ia clicar 98% das vezes no "Não". Acho um disparate e no século XXI parece que não faz sentido. A minha mala era mais bonita, a minha casa era mais colorida e limpa, os cafés e supermercados eram mais simpáticos e os jardins eram jardins.

Não havendo o ecrã, talvez pudéssemos ter uma máquina em casa onde, ao colocar papel de qualquer tipo, podia sair comida já feita ou lanche para a escola já embalado para cada filho, com o nome e tudo...

E pronto, hoje era só isto! Um dia com um frio, um vento e uma chuva tão parvos como estes, só podem resultar em textos parvos.

O que vale é que já perdi 3 kg (OH YEAHHHH), estou orgulhosa de mim como não estava há algum tempo, o mês de janeiro já acabou (Ufaaaaaaaaa!!!!) e vem lá o fim-de-semana! Podes voltar, Sol: tens um papel essencial nas nossas vidas! (Viram?! Consegui, mais uma vez, escrever "papel"!)

Bom fim-de-semana!!!!!!! :)




quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

É um pão com manteiga, se faz favor!

Depois da tempestade do açúcar dos últimos meses e de vários anos a olhar de lado para a minha barriga, fofa demais para o meu gosto, fui a uma nutricionista e estou a fazer uma espécie de dieta cruzada com massagens (cujo nome não me lembro) mas que envolvem cremes fortes, fluorescentes, sondas, zumbidos e (supostos) efeitos rápidos. Isto articulado com o ginásio que faço, acredito que terá algum efeito e isso está a motivar-me bastante!

Tenho agora uma sugestão de plano para me alimentar com menos hidratos e menos açúcar, o que já tentava cumprir, mas agora é a sério.

Para além disso, nos dias antes, durante e depois das tais massagens tenho que fazer uma "dieta líquida" (inclui papel que diz o que devo comer durante o dia). E aqui começa toda uma experiência nova na minha vida...

Quem me conhece sabe que, se por um lado tenho cuidado com a alimentação e é um tema que levo muito a sério, sobretudo dentro de casa, por outro, sou a comilona do sítio! Adoro comer.

Assim, os últimos dias têm sido uma experiência intensa de superação e, por isso, preciso de a partilhar para não descambar no último dia do primeiro desafio (hoje) e para me obrigar a cumprir.

Partilho aqui as várias conclusões a que cheguei nos últimos dias (talvez os primeiros da minha vida) sem comer hidratos, farinhas, gorduras, peixe, carne e tantas outras coisas..., tantas!!! Basicamente como sopa verde e pouco mais...

Conclusões menos sérias:
- Ficou claro para mim que o pão com manteiga é um Deus Grego que persegue os meus sonhos, dia e noite e, por isso, estou a pensar fazer um poster para a parede do quarto com Pão. Pão claro, daquele que faz mal, com refegos, tipo pão de Mafra quente já fatiado... com manteiga a pingar!! Eu que não comia muito pão, agora só penso nele... Ir tomar café depois de ter comido um kiwi ou um iogurte natural ao pequeno almoço e ter várias prateleiras de pão, todos a chamar por mim, é muito difícil (amanhã já posso comer, será que o vou fazer?!);

- Percebi que estar a jantar com os meus filhos, servir-lhes uma refeição saborosa e cheirosa e vê-los a ter prazer em comer é, agora, uma ofensa moral e física à minha pessoa. Pensei ontem, várias vezes, em fazer a mala e fugir ou em deixar de falar com eles, tal é a sensação de "anti-social" e "ET" que senti nestes jantares.... Eu, armada em magra, como uma simples sopa verde e, quando vou ao ginásio, acrescento um valente ovo cozido (tão pequeno........)! Como muito devagar, para tentar acompanhá-los e depois fico a salivar a olhar para os pratos deles, tentando tirar prazer de comida que não dá prazer.... E rio-me com o Vasco, que está a adorar assistir a esta novela mexicana! No fim rezo para que sobre um qualquer bago de arroz que eu possa devorar (só para não ir comida para o lixo)... ;

- Eu e o Vasco temos visto filmes nestas 3 noites e o meu "ato de loucura", para imaginar que estou a comer pipocas daquelas caixas enormes da NOS, com açúcar que brilha, é encher a mão com 8 amêndoas do frasco da cozinha e tentar comê-las beeeeeeeeeeeeeeeeeeeem devagar... E, o injusto, é que antes de ontem, metade eram amargas e eu tive que as comer para conseguir ver o filme com entusiasmo, com um sorriso amarelo porque a dieta não previa amêndoas e estava a pecar...

- Ocupar o tempo sem pessoas: como a minha dieta nestes 3 dias é ridícula não marco almoços, nem com os colegas do cowork nem com amigos, porque não bate certo e não me sinto capaz de ficar a olhar para eles e dizer que não tenho apetite, porque não seria eu e ia sofrer... Então já dei por mim a ir a casa comer a minha "mega" sopa verde (sem batata, abóbora e cenoura) e a ver o programa da Cristina Ferreira....

- O cheiro a comida que se sente na rua é criminoso. Cheira a comida em todo o lado, mais do que nunca! Até o raio do mupi do McDonalds da paragem do autocarro me traz cheiros pecaminosos e me faz querer lamber o vidro.... Foca-te Joana.

Agora a sério...

Conclusões sérias:
- Este teste, para quem gosta de comer, é uma grande experiência!! Perceber que não tenho fome nenhuma, pois como 6/7 vezes ao dia e que é possível vivermos bem a comer tão pouco, é muito reconfortante! O único momento em que tenho fome é à noite depois de jantar (e já tive luz verde para "não ter fome e comer alguma coisa");

- Como é tão rigorosa a dieta líquida, encontra-se um prazer gigante em comer coisas simples como uma pequena taça de leite de arroz com aveia, canela e amêndoas (qual doce da casa!) só permitida porque vou ao ginásio... e isso torna-se uma boa lição. Sabendo que não me vou manter fiel a isto muito tempo, vou aprendendo que posso tirar prazer da comida com opções mais saudáveis e que até uma sopa só com verdes pode ficar deliciosa. A sério!;

- Sentir que consigo contrariar os meus desejos menos saudáveis: conseguir ir ao supermercado e comprar alimentos diferentes e controlar a tentação de comprar os que a cabeça nos sugere, é outra grande lição. É possível mudarmos alguns hábitos, se quisermos de facto, sem ser um pesadelo.

E pronto, ainda só passaram 5/6 dias desta fase, os primeiros com dieta normal e os últimos 3 com "dieta líquida". Já só faltam 11 horas para dizer bem alto e cheia de felicidade: "É um pão com manteiga (escuro, com sementes), se faz favor!!!!!"

(Afastem-se para longe as pessoas que vão querer dissuadir-me desta experiência! Isso não vale, deixem-me experimentar... mesmo que me espalhe, já valeu a pena!!)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Naufragar ou ficar?

Sempre gostei de mudanças associadas a aventuras que escolhemos viver. Não me refiro a mudança de casa, nem das minhas pessoas. Mas gosto de sair da minha zona de conforto, de me reinventar, de arriscar.

Mudei de trabalho em novembro. Mudei de vida em novembro. Trabalho à distância num espaço de cowork perto de casa, com flexibilidade e rotinas criadas por mim. Mantenho a mesma área, o mesmo cargo, o mesmo mundo das causas sociais, mas vesti outra camisola por cima das que tinha. Pensei muito, escrevi muitas vezes os prós e os contras. Pedi ajuda, ouvi testemunhos de mudanças idênticas e, quando tive a certeza, mudei.

Finalmente tenho mais tempo para os meus filhos, para mim, para a nossa casa. E, por outro lado, viajo mais. Acredito que mudar (para melhor) é importante e que devemos preparar os nossos filhos para isso. Mostrar-lhes que se pode vestir uma camisola de várias formas, como me mostrou a minha professora de filosofia no 11º ano. Lembro-me dessa aula como se fosse hoje.

Mas mudar tem um preço e custa muito, dá medo, nervos e borboletas na barriga. Aos 40, é como uma viagem à adolescência, o não saber como vai ser, como vai correr, lançarmo-nos de uma altura (cada vez menor) para um vazio que escolhemos por acreditarmos que está cheio de coisas boas para nos completar. Gosto disso, por mais que sofra. Sofre-se.

Sofri quando decidi ir para Cabo Verde aos 22 anos. Quando precisei de me afastar e fui para a Argentina aos 30. Mas foram das melhores experiências e decisões da minha vida.

Comi mais bolos que o normal nos últimos meses e avisei o Vasco: "É a mudança, vai demorar, mas depois volto a estar bem." E é verdade, precisei de me compensar, de agarrar algumas cordas para me manter equilibrada e firme. Devagarinho vou sentindo um equilíbrio aconchegante, uma vontade de respirar e aproveitar com serenidade, o bom da mudança.

Sinto que passei por (mais) uma tempestade que escolhi, por acreditar que iria chegar a um bom destino, com poucos riscos. A ideia que a Mafalda Veiga cantou de se "chegar onde só chega quem não tem medo de naufragar" é incrível. Acho que é isso mesmo que sinto.

Sinto que me deixei naufragar e a sensação de enfrentar o risco e de chegar bem, tal como acreditámos, é incrível e dá um bom sentido à vida.

Neste janeiro novo, desejo que sejamos felizes, mudando ou não, naufragando ou ficando, desde que o sejamos...

Feliz Ano Novo.