segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Descobrimos um planeta.

Tal como existe o AC e o DC, quando a religião se refere a um período antes ou depois de Cristo, eu também sinto que existe um JAL e JDL que é a Joana Antes do Lucas e a Depois da sua chegada. Quem diz J diz V de Vasco.

O que mudou? Tudo.

Tenho a sensação que antes de ser Mãe vivia noutro planeta. Um planeta que puxo para mim a todo o custo, para lembrar que sou a mesma pessoa, no mesmo mundo, apesar das mudanças.

Chorámos quando soubemos que íamos ser pais. Lembro-me de pedir ao Vasco "diz-me que vou ser mãe", porque nas primeiras semanas a ficha não cai.

O que é ser mãe quando nunca se foi?!!

Depois fomos entrando devagar neste planeta, passando por todas as etapas...

... Como a de saber que era um rapaz. "Vou andar com a mala cheia de carros e aviões" pensei logo depois da consulta onde soubemos o sexo, ...o que aconteceu mesmo.

... Contar a novidade e escolher o nome. Diogo é um dos nomes que tinha pensado. Não me lembro dos outros. Um dia, quando falava com a Telma na net e lhe pedia sugestões, ela sugeriu o nome que agora repito dezenas de vezes por dia. "Lucas" deixou de ser uma palavra e passou a ser o nosso filho.

No dia 7 de outubro acordei com a barriga tão estranha e com sinais de que era o dia. Inexperientes, eu e o pai pegámos na mala e antes da maternidade, passámos em casa da minha mãe, para quem me lembro de olhar com um "ai mãe, é agora... e agora??!".

Entrámos na maternidade pelas 10h e as tais dores difíceis já me tinham sido apresentadas. Era mesmo intenso... 10 horas que foram, agora à distância, deliciosas e me dão tantas saudades. Aquele monitor tinha uns gráficos bem esclarecedores para o Vasco perceber porque é que eu me transformava quando os picos subiam... Conheci a Santa Epidoral, que respeito muito.

Conheci também o enfermeiro Luís que me disse, ao início da noite, depois de visitas de estagiários, espera, dores... "Mãe, pode tirá-lo!". Nem pensei: cheguei-me à frente e tirei o Lucas. Não sabia que isto era possível, nem consigo descrever o que senti.

Continua até hoje cá dentro, pela forma como gosto dele. Uma forma sofrida, difícil e romanticamente bela que eu desconhecia, de amar.

Passávamos muito tempo os dois a olhar para ele, na nossa cama, com a mesma magia com que olhávamos um para outro, quando ainda éramos dois.

Em outubro de 2010 nasceu uma família nova: dois passaram a três.

Dois que aprenderam a integrar na sua vida os termos "teste do pezinho", "bolsar", "mastite", "sustos de pais", "noites cansativas", "entrega na creche", "quedas e medos", "sofrer de culpa ao dar-lhe uma irmã"...

Uma mãe e um pai que, sobretudo, passaram a saber o que é "amar loucamente", "babar com cada conquista", "admirar parvamente a nossa nova pessoa", "rir a sério", "entregar na escola de mochila e felicidade por querer ler".

Enquanto Mãe, ter e conhecer o Luquinhas foi ganhar um novo coração. O outro era pequeno.

Não é só bom e isso custa e é difícil assumir. Tiram-nos do sério estas pessoas de quem gostamos mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Fazem-nos chorar, magoam-nos, frustram-nos e trazem a culpa para viver connosco, diariamente. Esse desafio ainda o tenho comigo.

Mas é bom demais. Passar com a mão no cabelo dourado dele, deitar-me na cama e ficar a olhar, mesmo no escuro, a pele dele, as mãos, o nariz... (foi tudo feito por nós... mas como???)

Bom demais ver como conversa, como ri, como disfarça, como se orgulha, como fica triste. Como precisa tanto de nós e nos segue pela casa, mais do que ela.

O Lucas é o nosso primeiro.

O Lucas é o meu chão e as minhas paredes, o ar e a terra neste novo planeta que tento fortalecer todos os dias e que acredito que ele ache bom e quentinho, mesmo quando eu acho que vai desabar.

Lucas: um dia, que está para breve, tu vais ler o que a mãe escreve aqui e noutros papéis e quem sabe livros...
Sei que não vais gostar de umas partes mas sei, também, que o coração gigante e a doçura que tens, vão-te permitir perceberes que apesar dos momentos menos bons em que ralhamos (tiveste a sorte e o azar de ser o primeiro), és o melhor de nós.

Sou pirosa não é? Um dia vais perceber e vai ser fácil, pois já dizes que se fizesses uma tatuagem ela teria o nome dos teus filhos... o que é muito bonito dizeres com seis anos...

E quero que saibas que sei muito bem que por detrás das tuas birras e tonteiras da idade que me fazem parecer uma tonta e nervosa mãe (que nunca pensei que seria) eu sei bem que és absolutamente maravilhoso e perfeito e que o mundo vai ser cada vez melhor contigo. Isso é certo. (qualquer Mãe normal diz isto, eu sei :)).

Que continues a ser tal e qual como és e te zangues, sempre que te exigirem o contrário.
"Gosto muito de ti": repetirei sempre todos os dias, aqui ou algures numa estrela qualquer...

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