Uma casa sozinha no campo,
Restos de paredes despidas
Que pessoas, roupas e cheiros
À cozinha e ao estendal deram vida?
O tempo não deixou de passar
De levar o início ao fim
Muitos anos no mesmo lugar
Mas da casa só resta o jardim
Cantigas e conversas ao luar
Gravadas em pedras caladas
Só terra e mato e ar
E memórias ainda embrulhadas
Nem os grilos nem o vento
Conseguem adivinhar
Nem eu quando ali me sento
Só para te observar
Nem o pessegueiro em flor
Que nasceu mesmo à entrada
Me inspira como a cor
Que tu lanças perfumada
Sim, tu, roseira amarela
Pensavas que não ia reparar?
Que vida e gente viveu nela
O que me queres contar?
Foi uma história de amor?
Um livro que eu possa escrever?
Porque és tão elegante?
Porque teimas em florescer?
Amanhã de manhã volto aqui
Trago papel e aguarela
Conta-me o que eu não vi
E eu pinto a casa amarela.
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